Traduzimos. Tudo. Todos os dias. Ao observamos o mundo, traduzimos o que vemos em palavras e nem nos damos conta disso. O verbo traduzir, do latim traducere, 'conduzir além', 'transferir', no entanto, nos remete imediatamente a um texto escrito. Mas, sabemos, não é só isso. Como traduzir o silêncio, por exemplo?
Mau cozinheiro, ponho as palavras numa vasilha com fermento, em busca de respostas que assegurem minha linha de raciocínio. Em vez disso, elas geram uma profusão de perguntas, cada vez mais graves, cada vez mais difíceis. Esse movimento, com que os alinhadores de vocábulos bordejam o real sem jamais tocá-lo é, enfim a própria Literatura, uma espécie de dança que expande o nosso olhar sobre o mundo e o envolve, ainda que o mundo continue intocado. É ainda o processo traduzível: movimento de aproximação e distância, vai e vem tortuoso que, por fim, desenha a face do sentido. Não a toca, mas a desperta. Se a Literatura não se esgota no “literário”, mas o ultrapassa, seu poder se revela muito mais perturbador.
Numa sala de aula, na faculdade de Letras, aprendemos que todo o ato de tradução é precedido de um apriorismo – antecedem-no suposições de “traduzibilidade”, misteriosas, na maioria das vezes. Partimos do pressuposto que o texto à nossa frente pode ser decifrado e transferido para outro idioma de maneira mais ou menos exaustiva. Esse movimento axiomático baseia-se em expectativas filosóficas e formais, bem como em evidências pragmáticas. Deixo claro, ou, pelo menos, tento: também fazemos esta transposição semântica na nossa língua materna. As palavras podem mudar de sentido, virar à esquerda sem dar sinal, aparecer, vitorianamente, sem avisar. É preciso estar atento e forte.
Na prática diária da tradução, a quantidade de evidência empírica é, certamente, notável. Os pressupostos pragmáticos, formais e filosóficos do ato de traduzir encontram-se intimamente entrelaçados. Chomsky, em “Aspectos da Teoria da Sintaxe”, atribui explicitamente a “traduzibilidade” ao fato de as propriedades universais da linguagem serem inatas ao homem, propriedades essas que são passíveis de análise em termos de proposições lingüísticas universais formais profundamente arraigadas. Jung, na sua área, também contribuiu bastante ao nos esclarecer os arquétipos e as noções básicas do inconsciente coletivo. O tradutor tem como hipótese que o texto diante de si significa alguma coisa (que é “meaning-ful”). Mas o pressuposto da presença de um significado (meaning-fulness) implica também uma hipótese bem mais discutível.
O tradutor age como se o significado fosse, em grande parte, pelo menos, um produto discreto da forma de expressão que apresenta. Deveria agir como se o significado pudesse, em maior ou menor medida, ser extraído do significante em questão e dele “isolado” por meio de diversas operações de analogia, espelhamento ou paralelismo. Isso requer bagagem pesada, anos de leitura, muita reflexão. De qualquer forma, creio, toda tradução pressupõe um modelo primitivo de “forma e conteúdo”. Parte do princípio de que a “forma”, de alguma maneira, gera o conteúdo e que um é sempre potencialmente dissociável do outro. É exatamente nesse ponto que surge o conflito ontológico, embate na essência e da essência – entre as concepções de língua e as de tradução. Esta atinge seu maior teor de significado e concentra sua maior plenitude de sentido exatamente quando consegue reduzir ao máximo, até mesmo anular a distância entre significante e significado. Saussure sabia disso e nos deu bons toques. Continuamos a traduzir palavras, textos, gestos, olhares, distâncias.
Mas como traduzir a dor que um silêncio carrega no seu nada onipresente?