segunda-feira, 24 de março de 2008

O NOME


Parei na contramão dos livros que ando lendo. Talvez sejam as chuvas de março, mas devo confessar que essa ligação entre os campos semânticos, onde batemos uma bola ou mesmo um bobinho sem pretensão, se tornou um tema constante nas minhas pesquisas vãs. Cheguei a colocar no papel, bem antes de encerar as idéias sobre a tela luminosa do monitor: o ato de recepção, em linguagem, em música, em artes, é um ato comparativo. A cognição é um conhecimento. Mais até: é um reconhecimento, seja no sentido platônico de uma recordação de verdades anteriores, seja no sentido utilizado pela psicologia. Muita gente compartilha desse entendimento. Há sempre uma tentativa de contextualizar o objeto da nossa análise, relacionando-o a experiências prévias. Até mesmo uma obra de extrema originalidade (há coisas assim hoje em dia?) começa a revelar suas origens quando nos pomos a dialogar com ela. No processo de percepção e reação para tornarmos algo inteligível nãoum estado puro de inocência. A interpretação em o julgamento estético, por mais espontânea que seja sua expressão, por mais provisórios ou equivocados que possam ser, advém de uma câmara de ecos onde ressoam os pressupostos históricos, sociais e técnicos que informam o reconhecimento. Considerando-se os escritores mais anárquicos e inovadores (Millôr incluso), os blocos de construção lingüística e gramatical preexistiam, com suas cargas de ressonâncias históricas, literárias e idiomáticas. É como mudar-se para uma casa cujos espelhos ainda refletem as imagens dos ocupantes anteriores. Por isso, lidar com palavras e dialogar com os nomes é um ato de coragem, pois basta conhecer suas irradiações semânticas para percebermos que estamos diante de um poder incalculável. Uma professora, na faculdade de Letras, me disse uma coisa essencial: sua capacidade de entender o mundo é diretamente proporcional ao número de palavras que você conhece. É isso mesmo – o processo semântico é um processo de diferenciação. Ler é comparar. Neste momento histórico, “weltliteratur’ (Literatura Mundial), palavra criada por Goethe, faz mais sentido do que nunca. Estamos cada vez mais perto dos nomes que vivem no mundo. Somos, por assim dizer, e Maurício há de me entender em Berna, “frontaliers”, palavra de origem suíça para quem, material ou psicologicamente, precisa viver próximo à fronteira ou tenta equilibrar-se sobre ela. Esbarramos nos limites semânticos que grassam por e, sem cerimônia, bolinamos as palavras que escapam da grande rede pênsil sobre um mar de sentidos, na hora de expressar o que entendemos do mundo. Eu mesmo, bucaneiro do sentido, acabei de abalroar duas, linhas acima, para botar um pouco mais de ouro no carcomido baú de estranhamentos. Palavras são cidades. Línguas são países. Navegar é preciso, e Goethe, um dia, disse: “Aquele que não conhece línguas estrangeiras nada sabe sobre sua própria língua”. Concordo. Até porque mesmo é que entra o estudo comparativo. O julgamento estético e a exposição hermenêutica por meio da comparação são uma constante no estudo e no debate literários. A literatura comparada, ouso dizer, é uma arte de compreensão centrada nas possibilidades e nas impossibilidades da tradução. É traduzindo que expandimos a nossa própria linguagem, pois nãoqualquer argumento filosófico ou representação do mundo que prescinda da língua, do estilo, da retórica, que são seus próprios meios de expressão e de ilustração. As doutrinas políticas de um Hobbes ou de um Rosseau são parte integrante de sua estilística, de sua “techne”, dos ritmos e dramatizações de seus discursos. Não precisa ir muito além nessa elucubração supostamente intelectual. Basta ver a importância dos nomes que damos às coisas, aos fatos e às pessoas. O nome possui a natureza dos highlanders. Insiste em nos lembrar que os sentimentos, assim como as percepções estéticas, têm sentido se os nomearmos. Cuidado, portanto. Quando a morte corta todos os laços, permanece o nome. Nas lápides das sepulturas, nas páginas roídas dos diários, entre cupins dos arquivos públicos, na memória fraca dos velhos, a lembrança se reduz, quase sempre, a nomes. Nomes que continuam a existir porque foram incapazes de, um dia, morrer.

080324

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