sábado, 29 de março de 2008

A CANASTRA

_ Mas, peraí! Você não tem canastra limpa!!!!

A frase, dita assim com tanta veemência e impetuosidade, me fez rever meus conceitos sobre as decisões que tenho tomado na vida. Ouvida num domingo à tarde, doeu mais um carrinho daqueles que o Júnior Baiano costumava dar por trás, sem se importar com a constituição óssea do infeliz que se distraiu e ficou de costas para ele. Sem canastra limpa não podia bater mesmo. “Logo eu que tanto apanhei na vida”, refleti como um condenado no cadafalso. O Big Brother não deixou escapar, e quase fui para o paredão, com mais de 90% dos votos. Lembrei-me das vezes que de fato, me faltou a danada da canastra, justamente quando precisava de um pouquinho para fechar os 3 mil pontos que me dariam, mesmo que por pouco tempo, ares de vencedor, a glória dos deuses e uma incontestável sensação de superioridade sobre o resto da raça humana maculadadamente canastrada. Continuei firme. Qualquer coisa que eu falasse poderia ser usada contra mim. Não quis chamar meu advogado. Preferi o silêncio dos inocentes. Num átimo, estava sem condições psicológicas de colocar as devidas cartas na mesa e, naquele momento, me vi no Coliseu, na Roma antiga, entre trombetas e rugidos de tigres de Bengala. Dessa forma, percebi que a multidão segurava o fôlego, esperando um movimento definitivo meu. Cheguei a sentir a poeira quente da liça obstruir-me os poros. Gestos se paralisavam na platéia romana, sedenta por sangue. Meu sangue. A voz firme, a mesma que me alertara sobre a necessidade imperiosa de ter uma canastra limpa, ainda ecoava nas minhas parabólicas auriculares, sem me deixar com a esperança de ouvir palavras mais amenas.

_Mas cadê a canastra limpa?

A pergunta, dolorosamente implícita naquele silêncio mortal, lanhava-me as costas como um chicote na mão de um sádico torturador colérico. Por um momento, como acontece nessas ocasiões, vi minha vida passar diante dos meus olhos e me dei conta que a tragédia absoluta é algo extremamente raro, mas possível. Proclama, axiomaticamente, que o melhor mesmo é não nascer ou, sendo isso inevitável, morrer cedo. Bem, não havia dúvidas – aquela era uma tragédia absoluta, a menos que eu apresentasse o salvo-conduto exigido pela voz da autoridade. Meio que perdido no limbo, naquela zona gris que separa o pesadelo e a realidade, percebi como é importante ter aquilo que me avô, com sabedoria, dizia: tenha cartas na manga. É sobremodo pertinaz, também, ter uma canastra, e que ela seja limpa, sem nódoa ou estigma que inviabilize a vida, como a conhecemos, neste vale de lágrimas. Logo vi que meu destino estava prestes a ser decidido, quando a mão poderosa da lei na minha frente varreu o jogo que eu tinha diante de mim, para verificar in loco se algum coringa intruso se interpusera numa seqüência de sete cartas do mesmo naipe, confirmando assim suas suspeitas em relação à minha suposta falta de fair-play. Senti os músculos se retesarem, numa mistura de pânico e desalento. É o preço que se paga por estar numa arena e não nas arquibancadas. Meu silêncio começava a me prejudicar. Mas o que dizer? Sou um homem de palavras, gosto delas, cultivo-as na área do meu apartamento, aparo-lhes os excessos com uma tesourinha de unha, tal o zelo por suas ressonâncias. Contudo, não sabia o que falar. Pior, nem o que fazer, embora estivesse com a consciência tão limpa quanto a canastra que pulsava de vingança entre meus dedos trêmulos. Por fim, inclinei-me, e respirando o ar dos bravos vencedores, coloquei sobre a mesa um jogo inteiro de sete cartas, cujos corações vermelhos eram, ao mesmo tempo, uma demonstração de afeto e a confirmação definitiva da supremacia dos sentimentos mais nobres sobre a lógica implacável, e não raro injusta, das competições humanas.

080329

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