quarta-feira, 28 de novembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 4

Eu tenho uma amiga que me disse querer ter uma máquina de apagar memórias de amor (e também memórias de toda natureza), sem saber que ela já está instalada na mente de cada um de nós, e que somos senhores de seu funcionamento, seja num âmbito racional, seja por forças das maquinações do inconsciente sob o abalo das emoções. Essa minha amiga ainda não sabe que, durante a vida, há momentos que decidimos, mais ou menos lucidamente, esquecer o outro. Ela ainda não sabe, mas o trabalho mais efetivo é o que se faz a partir da decisão de expulsar, na forma de sublimação, aquilo que de mais doloroso existe numa relação, e também o que há de mais belo, até o ponto de se matar a existência do amado algoz que, ao fim do processo (quando se consegue encontrar um fim), torna-se uma não pessoa. Ela virá a saber, em breve, muito breve, que os sonhos simplesmente acabam por falta de verba ou cacife emocional, que os momentos de profunda emoção sofrem erosão progressiva; um rosto que foge, transfigura-se, derrete-se como cera; um corpo que foge do alcance, que escorrega por rochas e é limado do cardápio afetivo, que corre através de labirintos ora alcançáveis, ora diabólicos, num jogo intermitente que nos faz acordar com o peito pesado de angústia e de medo de esvaziar-se o próprio alimento da alma. Até que um dia, acorda-se com uma estranha paz, uma paz de anestesia, que acusa a existência da ferida, sem que se saiba a sua localização. Como uma pontada numa cicatriz que não mais existe. A ferida, contudo, jamais cessa por completo, o que nos expõe (ela deve ser informada disso também) ao assalto da materialização espectro-quântica em pleno dia ou, pior, no meio da noite, dos fantasmas afetivos de seu passado. Isto é um alerta para o maior dos riscos: o de replicarmos, involuntariamente, o amor que demonizamos e exorcizamos, para o recebermos de volta vertido em monstro, reconfigurando todo o drama que se acreditou sepultado em algum lugar dentro de nós mesmos. Assim, há o risco de ampliar-se o drama, repetido indefinidamente como eco polifônico de culpas e humilhações, num teatro que sabe à eternidade. Essa minha amiga que agora sofre há de se dar conta que, se por um lado somos senhores do processo de perda da memória, ou das distorções que tornam o passado mais ou menos doloroso, por outro, não somos senhores de nada, pois a memória acaba voltando na arrebentação do mar da saudade, mas sob a forma liliputiana de uma pequena vaga ecoando a dor outrora vivida. Ela, que gosta de dormir com uma camisola de seda, sentirá na pele a maciez do tecido como também as travas perfurocortantes do mistério que não explica como iniciamos o apagamento que sublima uma dor, ao mesmo tempo que nos transformamos em mestres de seu retorno, os senhores do solitário masoquismo que termina por nos isolar da realidade para nos lançar nas profundezas do real indizível, do horripilante fosso vazio da existência, ali onde nada se explica e tudo faz sentido, no esforço sobre-humano de entender que a dor pode terminar se, paradoxalmente, celebrarmos o alívio de nos vermos livres de um amor que também nos maltratou injustamente.  

terça-feira, 27 de novembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 3

Eu tenho uma amiga que vive brincando de esconder comigo e que sempre que chega o final de ano, me pede para escrever uma coisinha para ela poder usar na véspera de Natal, entre o peru com farofa, vinhos e rabanadas. Eu nunca faço, mas resolvi tentar alguma coisa que aplaque este espírito inquieto e cravar a pergunta certa que me ajudará a chegar a seus pés e curar as chagas de tantas buscas vãs. Onde se escondeu tamanha especiaria do gênero feminino? Em que edição de antologia poética se aninhou esta mulher que a todas as outras tornaria desnecessárias, pois traria em si não o pó, mas o pé compacto da felicidade e o esmalte com o brilho e a cor certos para o homem se mesmerizar, sinalizando casa ocupada, cama arrumada, felicidade conjugada em todos os verbos terminados em ar, er, ir e or? O que a torna merecedora de tamanha glória, se caminha com as mesmas duas pernas como todas as outras mulheres, se trabalha inspirando e expirando o mesmo ar com o mesmo conjunto trivial de brônquios e pulmões? Onde está aquela mulher que se anunciou simplesmente a tal, mas não apareceu no momento em que era mais precisa e essencial? Será ela a fulana com sorriso 24 horas e toda compreensão para as fraquezas masculinas, aquela com a pulsação perfeita dos desejos propulsores da máquina da felicidade dos homens? Investigo, com olho clínico, aquela que se queda sobre uma bancada de livraria, as mãos céleres percorrendo páginas de thrillers policiais e de suspense, certo que ela um dia pressentirá o esforço e, generosa que é e com pena de minhas extensas e consabidas limitações sobre o entendimento da alma com saias e salto alto, sinalizará – ei, aqui, sou eu – na direção deste que expôs em público a esperança de realizar o encontro com que todos sonham, mas que poucos admitem. Ela chegará com as festas de fim de ano, embrulhada no mais brilhante papel de presente e sem a notinha para trocar em no máximo 15 dias? Travestiu-se de anjo? Virou uma cor? Fez-se invisível em meio a algum fim de tarde e, atrás do meu coração, se escondeu para nunca mais? Em que pergunta ela se fará afirmativa e presente? Não sou o único a procurá-la – outros olhos masculinos a perseguem sem, no entanto, entendê-la na sua infinita complexidade que, ao mesmo tempo, fascina e assusta. Como encontrá-la, em meio a tantas que flanam pelas ruas, olhando vitrines, experimentando sapatos, tomando café no Grão? Paga-se bem, na moeda em que uma bênção dessas estabelecer como a justa. Apesar de tudo, creio na sua existência – onde se pôs esta que querem me convencer como uma impossibilidade entre os homens? E se ela se deixar achar, como um Graal numa caverna de Indiana Jones? Ou melhor, se ela quiser me encontrar e decida sair do esconderijo das fadas vitoriosas e fazer um desfile provocador para todas as rivais, uma cena que no futebol equivale à volta olímpica, quando o vencedor passa na frente da torcida adversária exibindo o troféu conquistado? Aí, meu irmão, só me resta passar Perfex na alma e lustrar o sorriso com um Veja Multiuso e cair matando, evitando as pedras que Drummond espalhou para a língua ser justa e sem amaciante Confort – por mais que em algum momento achasse ter chegado a essa mulher que usará este texto meu como brincos reluzentes na noite de Natal, custar-me-ia achar-me merecedor desta ceia de prazeres calórico-amoráveis quando, depois de um estalar diferente de um beijo, de um sorriso eternamente justaposto entre lábios, eu me der conta que ela havia atirado a flecha e que eu abrira a jaqueta jeans para me deixar flechar. .  

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 2

Eu tenho uma amiga que jura não acreditar em horóscopos e coisas do gênero, mas que ficou cismada com um destes cartazes presos aos postes, em que certa Madame Valéria prometia trazer a pessoa amada em até três dias. Missão impossível? Gostaria que não fosse. Não deu tempo para ver quanto ela cobrava por consulta – ela estava no trânsito, o sinal abriu, e teve que seguir em frente, sem saber se acreditava ou não na promessa que fascina pela impossibilidade, por si só, há tanto tempo. Com o pé no acelerador, continuou cismada e me confidenciou outro dia: eis uma profissão que, se lhe fosse dada a chance de escolher, ela levaria a sério. Muito a sério Não se pode brincar com a esperança dos outros. Muito menos com a dor da solidão. Se prometesse trazer a pessoa amada, em qualquer prazo estipulado, dependendo do grau de dificuldade do amor perdido em questão, fá-lo-ia com toda a sua energia e respeito. Alguém tem que trazer a pessoa amada de volta, alguém tem que fazer este trabalho. Se possível em apenas um dia, pois, sabemos, 24 horas a mais é uma eternidade insuportável para quem espera. Para tanto, ela me contou que teria uma equipe enorme de especializados agentes da CIA (Central de Investigação Amorável), buscando, vasculhando cada cantinho da cidade, onde o amor perdido poderia ser descoberto e reendereçado ao faltante amante desamparado. A polícia, em convênio afetivo, efetivamente colaboraria, colocando à sua disposição, blitzes nas principais rodovias, a fim de que o amor querido não fuja do amor querente, num desses carrões reluzentes, de vidros escuros, onde amores perdidos costumam se esconder, carentes. Acionaria vizinhas desocupadas, amigas fofoqueiras de bom coração e porteiros com vocação para Sherlock – todos lhe enviariam detalhados relatórios sobre os movimentos supostos da pessoa procurada, seus hábitos hodiernos, seus horários, suas usuais companhias. Não perderia tempo e logo hackearia suas conexões virtuais, indo das redes sociais a simples e-mails inocentes. Tudo valeria para aplacar a dor do consulente, aquele (ou aquela) que fez de tudo e viu que não dava mais para segurar a onda, que não aguentaria o tranco, que entregava os pontos e, sem pestanejar, assinaria o contrato para que ela movesse mundos e fundos, até que a pessoa amada fosse devidamente achada e trazida para onde, segundo quem procura, nunca deveria ter saído. Seria um desses empregos dos sonhos esse seu, ela diz, num suspiro: estaria sob sua responsabilidade devolver a felicidade e o sorriso a quem quer voltar a ser amado, a quem quer redescobrir os caminhos do amor sincero. Sim, pois, não sei como, mas ela haveria de achar um jeito de a pessoa amada também voltar a amar aquele que a ama, já que, como sói acontecer nestes casos, houve um desencontro amoroso, produzindo a perversa dinâmica de se ter um abandonante fortalecido e, por conseguinte, um abandonado fragilizado. No pacote proposto na assinatura do contrato, haveria esta garantia essencial: a pessoa amada voltaria, sim, e voltaria amando mais e melhor do que antes, porque em negócios que envolvem os sentimentos dos outros, a reciprocidade é cláusula intocável que não se pode desconsiderar, e deveria ser por todas as leis protegida, por mais impossível e absurda que seja a missão de trazer de volta, como se fosse a primeira vez, o amor. Uma fofa, essa minha amiga.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

MINHAS AMIGAS


Assim como o Joaquim, eu tenho uma amiga que resolveu construir um novo self para si mesma e se trancou em casa por semanas até chegar a conclusões do tipo viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estamos errados. Ela se reconhece como uma mulher"vazia de si". Reconhece a eterna luta humana para chegar a seu centro. Reconhece, ao mesmo tempo, o fracasso dessa luta. Por fim, é capaz de reconhecer que esse fracasso, em vez de improdutivo, é produtivo. É dele, e da teimosia em resolver o que não se resolve, que tiramos alguma coisa. É assim, ela me diz, ao pé da minha orelha esquerda, que continuamos vivos. Acreditei. Não se duvida da palavra de uma mulher, assim, tão decidida, tão segura de suas convicções, ainda mais quando te mira com tais olhos de cristais. Sempre tento transmitir isso em minhas tentativas literárias: que não devemos acreditar em nossas certezas. A literatura não é feita de certezas, mas de incertezas. A escrita é uma espécie de cola (inoperante) com que tentamos vedar o desacordo entre o que pensamos ser e o que somos. Conseguimos isso? Não. Mas o esforço nos move e nos leva a escrever. A viver. É o que importa. Escrever não é encher-se (de si), mas esvaziar-se. Como eu, esta mulher também escreve para viver mais duplamente; por isso, estamos acostumados a falar a respeito do esgotamento infernal _ como o sugar de um vampiro _ que o trabalho da escrita nos provoca. É a rotina da escrita que nos descobre o duplo: há um desgaste, e mais outro, e ainda outro. O que interessa, talvez, não seja o texto, mas o processo. O caminho. O texto é um resto do que se tentou dizer e não se conseguiu dizer. Uma ficção é, sempre, outra coisa. Como uma fotografia, que nunca consegue expressar a experiência de uma viagem. Mas tentamos. E ela então me falou de um texto, escrito para um amor que ela supunha esquecido, expurgado, exilado, alguém que ela não queria mais em sua vida. "Isso não é meu", ela insistia. "Mas foi você quem escreveu", eu respondi, na minha profunda ignorância sobre a alma feminina. "Não importa, não é meu, não me pertence", retrucou. Disse que, se aceitasse a ideia de que fora a autora de uma carta tão amorável, passaria a acreditar em fantasmas, em vozes do além e em extra-terrestres. Estaria, então, empenhada em contactar a origem longínqua das palavras, seus mistérios, suas infinitas possibilidades de transmitir o indizível – um amor que se perdeu no tempo, como lágrimas na chuva. Não precisava ir tão longe, hoje eu consigo pensar. Bastaria que se debruçasse sobre o mundo dos sentimentos, o grande rio que nos arrasta para longe de nós. Esse arrastar - essa flutuação inexorável, mas bela - é a aceitação da existência paradoxal de tudo o que poderia ter sido e não foi.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A FOTO


Olho uma foto minha, não muito antiga, na qual me vejo feliz, cercados de amigos, numa festa, já nem me lembro direito.  Súbito, me dou a consciência de que você não existia em minha vida quando alguém clicou aquele momento feliz; eu não sabia quem você era, o que fazia, como pensava, o cheiro bom dos seus cabelos. Parece incrível, mas houve um momento, vários, aliás, em que você era apenas meu futuro, então não existia para mim, e não provocava meu sorriso nem punha lenha na caldeira das minhas vontades. Até ver aquela foto, não tinha me dado conta de que houve uma vida, muito boa por sinal, antes de você acontecer como um big bang de risos, beijos, pernas, mãos e pés entrelaçados. Naquele momento da foto, eu tinha bons motivos para ficar alegre – uma piada, uma brincadeira, uma emoção que tem a ver com a lua e as estrelas – e, de fato, eu estava feliz e alguém fez questão de preservar este instante na retina que me observava, tão incrédulo como eu, agora, ao constatar que já houve um outro eu, íntegro, radiante, sem saber que você já existia no mundo e que, talvez, estivesse à distância de uma porta, de uma parede, e que nem nos demos conta disso, como naquela cena de Amarcord, em que duas pessoas que se amam, ou que se amarão, não me lembro bem, acabam por se desencontrar por um átimo; ele passou pela porta segundos antes de ela entrar e o encontro não aconteceu, e eles não sabiam da existência do outro e nem por isso foram menos felizes. Mas foi preciso uma foto tirada numa data incerta, para eu ter certeza de que já fui por inteiro e posso voltar a sê-lo, independentemente da agora consciência de que você existiu um dia, na minha vida, pois, então, eu não sabia, e era plenamente feliz, sem ao menos desconfiar de que, num futuro nem tão longe dali, sentiria como se minha própria alma me faltasse. Abateu-se sobre mim a certeza de que posso entrar novamente naquela foto nem tão antiga assim e sentir a imensa satisfação de estar completo, sem lutar para me convencer do contrário. Posso, novamente, reencontrar a sensação de pertencimento que pareci perder no torvelinho dos fatos mais recentes e ser profundamente, imensamente, incontrolavelmente feliz como naquele dia, num retângulo 15X10, dentro do qual não havia o menor indício de que você já andava pelo mundo a ponto de não me afetar em absolutamente nada nem me impedir de derramar um ponto final numa história que já não existe mais. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

TORVELINHO


Na difícil procura do amor, a gente se machuca, chora, chama pela mãe, bate o telefone, procura o melhor amigo e depois briga com ele porque ele não entendeu nada, faz terapia, escreve o dia na agenda e depois rabisca, liga a televisão e não vê, deixa de estudar para a prova, conta piada para fingir que está tudo bem, chora por qualquer coisa, se desespera, espera o telefone tocar e quando ele toca não atende ou demora para atender, toma coca com vodka, relê cartas antigas e as queima, escreve novas e não as manda, compra roupa, inventa um passatempo sem graça – porque a vida está sem graça – come cebola com beterraba e acha ótimo, rói as unhas, implica com o irmão mais novo (quando o tem), fala mais que devia e se arrepende depois, arruma o armário, dá vexame no restaurante, perde o sonho, desaprende a sonhar, vende o almoço para comprar a janta, não tá nem aí para nada, tá aí para tudo, pega chuva, toma sorvete, fica gripado, tira poeira da capa do Batman, marca e não vai, acha tudo errado, faz fofoca, ri na cara, briga com a tia, bate a porta, chuta os livros, ouve James Taylor o dia inteiro, tenta fazer arroz e queima (e come assim mesmo), gasta dinheiro, recorta jornal, fala em código, manda um torpedo inesperado, recebe uma resposta mais inesperada ainda, escreve um texto imenso e então deleta tudo, usa óculos escuros mesmo dentro do elevador, sente raiva de lembrar de tanta coisa inútil, fica na dúvida sobre a dosimetria da saudade específica, revê pela enésima vez Um Lugar Chamado Notting Hill, vibra com a reeleição de Obama, toma água com bolinha, come nuggets com molho barbecue, joga papel pedra tesoura Spock, acha que não dá e perde as esperanças para, depois, enfim, as redescobrir num canto inesperado do coração, subitamente vago por algum aluguel vencido no ultimate fighting de a manter na morada, e entende finalmente que o sofrimento só existe porque teimamos a não aceitar os fatos...