Olho uma foto minha, não muito
antiga, na qual me vejo feliz, cercados de amigos, numa festa, já nem me lembro
direito. Súbito, me dou a consciência de
que você não existia em minha vida quando alguém clicou aquele momento feliz;
eu não sabia quem você era, o que fazia, como pensava, o cheiro bom dos seus
cabelos. Parece incrível, mas houve um momento, vários, aliás, em que você era
apenas meu futuro, então não existia para mim, e não provocava meu sorriso nem punha lenha na caldeira das
minhas vontades. Até ver aquela foto, não tinha me dado conta de que houve uma
vida, muito boa por sinal, antes de você acontecer como um big bang de risos, beijos, pernas,
mãos e pés entrelaçados. Naquele momento da foto, eu tinha bons motivos para ficar
alegre – uma piada, uma brincadeira, uma emoção que tem a ver com a lua e as
estrelas – e, de fato, eu estava feliz e alguém fez questão de preservar este
instante na retina que me observava, tão incrédulo como eu, agora, ao constatar
que já houve um outro eu, íntegro, radiante, sem saber que você já existia no
mundo e que, talvez, estivesse à distância de uma porta, de uma parede, e que
nem nos demos conta disso, como naquela cena de Amarcord, em que duas pessoas
que se amam, ou que se amarão, não me lembro bem, acabam por se desencontrar
por um átimo; ele passou pela porta segundos antes de ela entrar e o encontro
não aconteceu, e eles não sabiam da existência do outro e nem por isso foram
menos felizes. Mas foi preciso uma foto tirada numa data incerta, para eu ter
certeza de que já fui por inteiro e posso voltar a sê-lo, independentemente da
agora consciência de que você existiu um dia, na minha vida, pois, então, eu não sabia, e era
plenamente feliz, sem ao menos desconfiar de que, num futuro nem tão longe dali, sentiria como se
minha própria alma me faltasse. Abateu-se sobre mim a certeza de que posso
entrar novamente naquela foto nem tão antiga assim e sentir a imensa satisfação
de estar completo, sem lutar para me convencer do contrário. Posso, novamente,
reencontrar a sensação de pertencimento que pareci perder no torvelinho dos
fatos mais recentes e ser profundamente, imensamente, incontrolavelmente feliz
como naquele dia, num retângulo 15X10, dentro do qual não havia o menor indício
de que você já andava pelo mundo a ponto de não me afetar em absolutamente nada nem me impedir de derramar um ponto final numa história que já não existe mais.

Nando Querido, como gostei de ler esta crônica... A saudade que ainda sinto do Sabiá da Crônica foi aplacada. Obrigada pelo presente da leitura.
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