quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A FOTO


Olho uma foto minha, não muito antiga, na qual me vejo feliz, cercados de amigos, numa festa, já nem me lembro direito.  Súbito, me dou a consciência de que você não existia em minha vida quando alguém clicou aquele momento feliz; eu não sabia quem você era, o que fazia, como pensava, o cheiro bom dos seus cabelos. Parece incrível, mas houve um momento, vários, aliás, em que você era apenas meu futuro, então não existia para mim, e não provocava meu sorriso nem punha lenha na caldeira das minhas vontades. Até ver aquela foto, não tinha me dado conta de que houve uma vida, muito boa por sinal, antes de você acontecer como um big bang de risos, beijos, pernas, mãos e pés entrelaçados. Naquele momento da foto, eu tinha bons motivos para ficar alegre – uma piada, uma brincadeira, uma emoção que tem a ver com a lua e as estrelas – e, de fato, eu estava feliz e alguém fez questão de preservar este instante na retina que me observava, tão incrédulo como eu, agora, ao constatar que já houve um outro eu, íntegro, radiante, sem saber que você já existia no mundo e que, talvez, estivesse à distância de uma porta, de uma parede, e que nem nos demos conta disso, como naquela cena de Amarcord, em que duas pessoas que se amam, ou que se amarão, não me lembro bem, acabam por se desencontrar por um átimo; ele passou pela porta segundos antes de ela entrar e o encontro não aconteceu, e eles não sabiam da existência do outro e nem por isso foram menos felizes. Mas foi preciso uma foto tirada numa data incerta, para eu ter certeza de que já fui por inteiro e posso voltar a sê-lo, independentemente da agora consciência de que você existiu um dia, na minha vida, pois, então, eu não sabia, e era plenamente feliz, sem ao menos desconfiar de que, num futuro nem tão longe dali, sentiria como se minha própria alma me faltasse. Abateu-se sobre mim a certeza de que posso entrar novamente naquela foto nem tão antiga assim e sentir a imensa satisfação de estar completo, sem lutar para me convencer do contrário. Posso, novamente, reencontrar a sensação de pertencimento que pareci perder no torvelinho dos fatos mais recentes e ser profundamente, imensamente, incontrolavelmente feliz como naquele dia, num retângulo 15X10, dentro do qual não havia o menor indício de que você já andava pelo mundo a ponto de não me afetar em absolutamente nada nem me impedir de derramar um ponto final numa história que já não existe mais. 

Um comentário:

  1. Nando Querido, como gostei de ler esta crônica... A saudade que ainda sinto do Sabiá da Crônica foi aplacada. Obrigada pelo presente da leitura.

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