
A frase me veio no fim da tarde, quando o sol resiste bravamente ao manto da noite, traduzindo sua luta silenciosa num imenso crepúsculo de sangue, como se um grande deus se houvesse suicidado. “Este é um momento de perfeição”, pensei com um sorriso.
A cena foi simples e ao mesmo tempo grandiosa. Mas sua beleza incomparável ficou ressoando em mim e me fez lembrar de todos os momentos de perfeição que vivemos juntos.
Isso foi ontem. Eu estava em Niterói, ao lado dos meus fraternos amigos Miranda e Bruno, esperando que você ligasse a qualquer momento e tentando controlar a natural ansiedade que sempre me acontece quando eu aguardo para ouvir sua voz. Não deixei de repartir com eles o que sentia e, com a mão trêmula, apontei-lhes o horizonte e repeti, agora em alto e bom som: “Este é um momento de perfeição!”.
A primeira sensação depois disso é que desperdiçamos os momentos de perfeição ao não percebê-los. Ou melhor, ao fingirmos que não os percebemos. É absolutamente necessário aprumar a antena da sensibilidade para captar esses momentos de forma plena, inteira, por completo. Sem falha ou defeito, explodindo em novos significados; plenos, porque se revestem de brilhos inconsúteis; inteiriços, porque nenhuma das partes que compõem o todo parecem desvinculadas e sem sentido.
Mas, conforme eu já lhe falei, pode ser que essa percepção venha, via de regra, de uma simples cena, na sua casa, no seu próprio quarto ou na sua sala de sua casa. As canetas, os CDs, os papéis sobre a mesa. As fotos e os recortes na cortiça. Os livros, os objetos pessoais e uma súbita sensação de que tudo está em seu lugar, e que, enfim, se vive um momento de intensa, enorme, paz.
Pode-se questionar que tal perfeição, emoldurada num desses momentos, seja apenas uma ilusão, um modo peculiar de ver o mundo. Esta concepção interna e pessoal varia de acordo com o cenário em que se vive: o orvalho sobre a relva da fazenda, os vales e as montanhas represando a neblina a manhã, um jardim, um avião decolando ou aterrissando diante do casal de namorados sentados num dos bancos do Museu de Arte Moderna no Rio.
Por exemplo, um jantar a dois num terraço, à luz de velas. O vinho na pequena mesa, junto à comida refinada. As árvores serenas em torno. As estrelas sobre as montanhas. E ao fundo um concerto barroco. Este é um momento de perfeição. Longe ficaram o ruído insano da cidade, a violência que nos rouba tempo de vida, os horários desumanos, as dores do mundo.
Há momentos de perfeição espalhados por aí. Mesmo em tempos difíceis. Nas horas mais improváveis. Uma vez, no meio do torvelinho da cidade de pedra, vi uma batida entre dois carros em plena Avenida Rio Branco, rush hour. No carro da frente, uma moça assustada. No detrás, um homem que, certamente, ao se dirigir a ela, faria valer do autoritarismo primitivo dos machos. Mas não. Para minha surpresa, ele se dirigiu ao carro da moça, abriu a porta com cavalheirismo e, com um sorriso sincero, perguntou-lhe se estava tudo bem com ela. Isso tudo em meio a uma sinfonia desagradável de buzinas e vozes que, ao fundo, vociferavam contra a interrupção do trânsito. E ali, diante de mim, rápido e inesquecível, um momento de perfeição acontecia.
No meio de uma aula, podem – e devem – ocorrer vários momentos de perfeição. É quando a comunicação aluno-professor, de repente acontece, sinalizada pelo brilho nos olhos de ambos. No frio das montanhas, um abraço, um olhar cálido, e sensação e calor na alma. Na praia, sol a pino, um picolé de limão. Chegar à casa exatamente na hora que o telefonema tão esperado vem. Ler o jornal num domingo de manhã junto à mulher amada. Achar o que – e quem – se procura. A menina na praia que mergulha o balde no mar e retira-o a escorrer luz por todos os lados. Uma joaninha passeando na lombada de um livro. A mulher que emerge do mar, após o mergulho, recolhendo o cabelo molhado como uma cauda, que aperta, acaricia, eqüestre e eqüinamente. O esplendor da rosa ao desabrochar plena e fugazmente. A chuva rápida que desaba no final da tarde, revelando um céu de azul tão claro, sem o capuz das nuvens, tão infinito, como os olhos da Mona Lisa. São instantes onde não há excessos, perfeitos.
Em relação à concepção externa, existem os pequenos momentos de perfeição que cada um vive consigo mesmo. É claro que a percepção do que é perfeito ou não depende do olhar poético do admirador. Assim, o que é perfeição para uns pode não ser para outros. Ar condicionado em dia de grande calor é o paraíso para nós, homens, primitivos e neanderthais, mas impõe o desconforto dos gélidos píncaros às lindas mulheres de pele macia e clara que nunca transpiram mais do que líquidas gotas de doçura.
Torna-se, então, crucial que se desenvolva a sensibilidade para certos momentos de perfeição menos óbvia. Curiosamente, muitos andam distraídos por aí e, com uma indiferença irritante, nem notam as perfeições que se oferecem. Parecem passear num jardim pisando nas flores ou contemplar o pôr do sol de costas para o crepúsculo. Não estão, nem nunca estarão, preparados para a perfeição.
As pessoas, também, têm seus momentos de perfeição e nem sabem. É o açougueiro que fatia a carne com destreza e rapidez, alternando movimentos tão suaves que parece estar modelando uma escultura. Ou a moça que abre a carteira com seus dedos longos e unhas alvas e assina o cheque com a atitude de quem pode comprar o mundo. Nem sempre estes momentos se caracterizam pelo glamour da ribalta – muitas vezes, ele acontece no longo silêncio da madrugada, quando, repletos de lirismo, pomos de lado o livro amado e passamos a existir em poesia.
Vivemos, com menor ou maior grau, num mundo selvagem. Faltam gentileza, entendimento, flexibilidade e gestos sensíveis que furem defesas e criem alianças para a eternidade. Estamos, pouco a pouco, nos distanciando do próximo que, assim, se transforma, sem a mínima cerimônia, no longínquo. Daí, a extrema importância, que se faz ainda mais urgente neste começo de século, de treinar o olho e o coração para testemunharmos, com mais e mais freqüência, dentro e fora de nós, os delicados e raros momentos de perfeição que nos dão essa sensação de unidade que só têm as coisas quando estão repousadas em si mesmas...
