quarta-feira, 26 de setembro de 2007

MULHER ARRUMANDO APARTAMENTO



Da minha janela, vejo, no outro lado da rua, um casal num apartamento. O apartamento é novo, assim como os dois. Ela é morena e linda e, mesmo à distância, posso ver a luz intensa de seus olhos de fogo. Ele, alto e magro, com jeito de professor, acompanha com atenção os passos da companheira, que examina cuidadosamente cada centímetro do novo lar.
É uma tarde de domingo, o sol reina no céu límpido e eu observo, de longe, aquele casal arrumando prateleiras e esvaziando caixas, numa tarefa que nada tem de árdua e é simplesmente a preparação, em conjunto, da vida, juntos. Num dos quartos, ela, sentada na cama ampla de casal, dobra as peças que, há pouco, estufavam malas e bolsas. Está tão serena, tão concentrada, que nada parece existir à sua volta e só tem olhos – e mãos – para a arrumação das roupas da família nos cabides e gavetas. Vez por outra, ela pára e olha com atenção um par de meias ou uma blusinha, avaliando com olho prático se vale a pena mesmo guardar isso ou aquilo. Vejo-a colocando, com suavidade e sem pressa, cada item em seu lugar no grande armário que toma quase toda a parede. Parece que assim ela quer sua vida – tudo arrumado, limpo, passado e perfumado, nenhuma bagunça, nenhuma confusão. Ela está tão certa disso que, por um momento, contempla as roupas postas em ordem diante de si, e se deixa cair na cama, de costas, como se, enfim, tivesse a certeza que o pior já passara e que ela finalmente conseguiu o que tanto sonhava.
O homem, agora, faz o trabalho mais pesado de puxar móveis e montar estantes onde, em breve, ficarão seus livros e suas autênticas ousadias literárias. Já vislumbrou um canto para o computador, que ainda não veio, e sua mente criativa certamente começou a esboçar a história do primeiro livro escrito ali, no novo apartamento. Este livro, como os outros, será dedicado a ela que, no fundo, ele sabe, e todos sabemos, é a verdadeira autora da família.
Como sei disso? Bem, é só vê-la atravessando ligeiramente o corredor em direção à cozinha para logo inventar uma nova disposição para a geladeira e o freezer para obter mais espaço e luz. E consegue. Depois, vai para o quarto da filha, põe a mão no queixo por uns instantes e faz, dali, mais que um quarto de dormir: com uma nova iluminação e uma certa combinação de cores, constrói, como mágica, um reino fantástico onde a pequena haverá de sonhar e estudar.
Há qualquer coisa de comovente neste casal construindo o lar. Sim, pois a casa já estava construída muito antes, mas ainda não era um lar. Ela ajeita os quadros na parede e limpa minuciosamente a grande mesa da sala de jantar, no centro da qual colocará um jarro com flores do campo. Noto que a felicidade dela depende da ciência na escolha de cada objeto da moradia nova. Ao tirar as louças dos seus embrulhos de jornal, ela mentalmente vai eliminando os excessos do passado que não quer na nova morada e os substitui por novos planos, novos instrumentos que ainda vão ser comprados para compor o concerto da vida que agora, juntos, vão iniciar.
Os dois se empenham na colocação das luminárias, dos estendedores na área de serviço, na montagem da mesa de centro, aparafusando, apertando, nivelando. Mas há no homem algo de transitório que o faz assumir, meio sem querer, um ar de superficialidade de quem está com a cabeça nos negócios, no trabalho, no dia seguinte, em outro lugar. Ela, por sua vez, está empenhada até o último fio dos cabelos, e seu envolvimento com a casa a transforma num ser diferente do companheiro, pois ela sabe que as providências deste primeiro dia serão muito importantes no novo apartamento, onde se vai nidificar por um período apenas ou para sempre.
Vez por outra, ele vai à janela e faz um gesto chamando-a para contemplar a vista do oitavo andar. Ela vem, abraça-o com ternura, como se entendesse a necessidade dele de olhar para fora e para além das janelas do apartamento. Na maioria das vezes, os homens são assim mesmo: pensam na casa olhando-a de dentro para fora; enquanto a mulher, mais consciente de que a vida cotidiana se faz na intimidade, na minúcia, entre eles e só eles, tem os olhos para dentro, para cada pequeno detalhe interior, sem cujo bom funcionamento ela, na sua infinita sapiência feminina, sabe que nada funcionará. Mas assim também são os outros bichos da natureza: a fêmea parece sempre ser a criatura mais completa, mais íntegra, mais responsável pelo processo, que muitos julgam natural e quase banal, de construir uma família de verdade. É só ir ao zoológico e observar, por exemplo, os leões em suas jaulas – enquanto ele, meio indiferente e preguiçoso, dorme a um canto, a leoa rodeia a família, com um olho nos filhotes e outro, incrivelmente inteligente e crítico, nos curiosos que espiam do lado de fora das grades.
Posso sentir daqui o cheiro de pintura nova, da cola do carpete recém colocado e até do café que ela faz na cozinha já montada. Com esmero, vai colocando, com delicadeza indubitável, sobre a mesa ainda improvisada, o pão, as frutas, os biscoitos e os pequenos potes de geléia que refletem a luz do sol, como pequenas cores aprisionadas. Sorri, pois sabe que logo, logo, vai alimentar o amado, a filha e os sonhos; e seu sorriso é tão doce e de paz que me convenço sem demora que essa é uma família feliz que viverá uma vida simples e alegre, dessas a que chamamos de uma vida tranqüila, num apartamento pequeno, onde caberá todo o grande amor que houver nesta vida.
De repente, o homem se levanta e parece discutir com a mulher. Esforço-me para não deixar que o silêncio, que fazia daquela cena uma peça renascentista, se quebre com aquele inesperado e distante altear de voz. A mulher parece atônita diante daquele extravasamento de incompreensão e hostilidade que não combinava com o universo que ela havia imaginado. Antes, o trincava, assustadoramente. Pude ver, então, que num mundo tão barbárico e pragmático de hoje, em que os sentimentos estão em descrédito, não precisamos transitar nas trevas, ou evocar espíritos, para nos depararmos com o estranho. A qualquer momento, em qualquer lugar, se não estivermos atentos, a felicidade tão desejada pode entrar em irremissível e desastrosa falência.

070926

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A AZEITONA



Tudo ainda está muito quieto. Ainda é cedo. Lentamente, as pessoas começam a passar. Acho isso bom. Neste imenso e líquido silêncio escuro em que me encontro há tanto tempo, é sempre bom ver movimento através, que seja, desta visão vítrea, supostamente fria, asséptica. A manhã irrompe com o barulho frenético do trânsito, da força dos elementos, do toque, por vez suave, por vez duro, das solas dos sapatos na poeira sem nome das calçadas. Aqui dentro, ainda faz o frio úmido das águas já turvas que rodopiam nesta parede circular. A primeira dona de casa se aproxima, me vê com um olhar vazio e segue adiante. Está mal vestida e parece ruminar dores antigas. Sua blusa precariamente ajambrada lembra um pano sujo sobre o qual se derramaram lágrimas de raiva. O senhor que ora flana pelos corredores pensa na filha que finge não o abandonar com ligações a cobrar para seu celular. Sei disso porque escutei uma conversa que ele teve com um conferencista, que também simulou interesse e sequer o ouviu. Foi outro dia, mas pareço rever a cena várias vezes cada vez que ele passa procurando nada que possa ser encontrado ali. Surge uma moça de cabelos claros que também gosta deste recanto. Já reparei: não raro, pára de repente e o olhar se perde de uma forma tão desabrigada, tão desprotegida, que lembra a protagonista cega de Luzes da Cidade, de Chaplin. Tenho ímpetos de lhe adoçar a boca e o mundo, mas minha natureza sabe a um travo não deve combinar com sua existência destemperada. Pena. Crianças correm. Alguém pergunta as horas. O dia avança. Súbito, uma outra forma feminina se aproxima. É séria. Os cabelos longos ainda a fazem mais alta, como se, de fato, não andasse ali como o fazem o restante dos seres humanos. Não pretende comprar. Os aromas e as cores não a seduzem. Apenas veio àquele lugar como se acorresse a um chamado misterioso, ao qual ela não ousaria desobedecer. Do outro lado da rua, percebo que alguém atravessa depressa, não sem antes hesitar por angustiantes momentos. Ele também a viu e decidiu, num átimo, se aproximar, mesmo temendo que ela não soubesse lidar com a grande janela de tempo que se fechara sobre seu jardim. Espreita, por trás de uma prateleira de biscoitos, a mulher séria e alta, a que está prestes a descobrir o que veio fazer ali. Ela flutua em direção à bancada de maionese, e ele finge escolher uma marca de cream crackers. Ainda estão a certa distância, mas o destino já os conduz pela mão ao longo do setor dos enlatados. Vão se achar, finalmente, no mais prosaico dos lugares – um supermercado simples, repleto de gente distraída que nunca imaginaria que duas pessoas que há muito tempo não se viam, mas que evidentemente não deixaram de se amar, iram se reencontrar. Por trás do vidro gélido, eu tudo via e me sentia importante. O desfecho daquela história certamente ficaria comigo para sempre e eu sentiria que valera a pena o confinamento, o vidro redondo, a tampa entarraxada e selada de fábrica. Alguns passos os separavam. Meu coração vegetal pululava de ansiedade...
_ Mãe! Achei as azeitonas!
O grito me soou ainda mais pavoroso quando percebi os dedos gigantes eclipsarem a cena que tinha diante de mim. Fui jogado, juntamente com meus pares, num carrinho cheio de compras que, guiado pelas mãos inocentes de uma criança, virou rápido para a seção de frutas e me subtraiu a melhor cena que eu poderia ter visto em toda minha vida.

070919

domingo, 9 de setembro de 2007

A RESPOSTA



As mulheres andam perguntando coisas cada vez mais difíceis de responder. Isso, certamente, se dá porque elas têm o radar interno mais calibrado, são controladoras do próprio vôo e não dependem de grooving para pousar em pista molhada. Perguntam porque logo percebem o que está rolando, e não raro, a intuição, que já lhes vem de fábrica, vai pondo uma pulga atrás do piercing e não há nada que não deixe um blip registrado na imensa tela de cristal líquido dos olhos. Indagam, pois sabem quando estão prontas para a resposta – e esse é o critério, seguramente intuitivo, que as orienta os passos e olhares – na hora em que se deparam com questões amorosas. Há um gosto de chocolate no que querem saber. Uma bela mulher perguntou: por que o amor, que é tão bom, pode se transformar num sofrimento tão grande? As mulheres sabem que há um momento em que elas podem questionar o amor e que ele não desabará. Às vezes, tiram-se-lhe as mãos e contempla-se-o ereto, em riste, incontornável; outras vezes, largado, o amor titubeia como joão-bobo e então é preciso colocar-lhe calços, descobrir-lhe suas zonas de desequilíbrio, de fragilidade. Por mais sem garantias que seja esse processo, é certo, entretanto, que um sentimento assim se dirija à sua própria completude, a seu acabamento, à sua definição. De nós, gente estranha, só se pode dizer que sejamos o avesso de tudo isso – imperfeitos, incompletos, indefinidos, indeterminados. Essa combinação, em níveis diversos, do precário e do sólido, do inacabado e do acabado, do aberto e do fechado, da luz e das sombras é que faz da pergunta feminina supracitada aquilo que, drummondianamente, poder-se-ia chamar de “claro enigma”. Esse oxímoro é o que seria a diferença profunda, da perspectiva teórica, dos pontos de vistas do homem e da mulher, esta muito mais sábia do que aquele, como sói acontecer na maior parte do tempo. Mas isso são palavras velhas que tonitroam semanalmente. Já sabemos. Elas, mais ainda. Querem distância das cicatrizes antigas que doem de repente, do telefone que não toca, das atitudes passionais que estragam tudo, do e-mail que não chega, do amor que rima com tristeza. Não há como fugir do caráter heterotélico do olhar amorável que se tem sobre as coisas, as pessoas, os gestos, cuja finalidade ou sentido está além ou fora de si. A resposta àquela pergunta tão difícil pode estar ao nosso alcance, pois temos o apetite da esperança que embriaga o revolucionário, temos o dom de entrar em contato com os astros e com os amplos silêncios que cingem os deuses, tal como fazem, sistematicamente, os monges profissionais. Porém, é assim, quase sempre: queima-se de saudade até que não reste mais alguma coisa além de cinzas de tudo aquilo que um dia foi-nos essencial e estranhamente sólido. Aí, se instala o outro problema: como sobreviver até lá?

070909

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

TÚNEL DO TEMPO



Eu entendi a frase interrogativa desde a primeira vez que ela, a mulher de olhos de cristal, sorriu dizendo aquelas palavras que ainda ardem na alma de quem as ouviu. Mas, modesto, achei que não era comigo. Ora, veja só, será que eu não me enxergava?
Há muito tempo que eu não entendo mais nada. Talvez tenha sido, sem saber, o primeiro membro do movimento “Cansei!”. Por isso, preferi ficar distante, fingir que estava prestando atenção a outra coisa, sair de fininho. Não deu. Ela estava ali, hierática, esperando a resposta, séria e compenetrada como uma Ellen Gracie antes de uma votação do Supremo, só que muito, muito mais bonita. O que a levava crer que eu sabia a resposta me era desconhecido. Já era tarde. Chovia. O mundo estava em paz - à exceção do Oriente Médio, claro - e não haveria motivo aparente para se levantar questões desta ordem, tão profundas, tão desconfortavelmente atormentadoras. Há coisas terríveis para as quais não se tem uma explicação satisfatória. Paciência, fazer o quê? São várias: receber uma ligação de uma antiga namorada depois de anos, por exemplo. Ser capturado por uma melancolia inesperada no final da tarde. Não conseguir dormir e queimar-se de saudade. Amar sem poder ser amado. Ser amado sem saber amar. Absurdamente, teimosamente, desesperadamente, olhar para o celular à espera de uma ligação ou torpedo que nunca vem. Receber uma mensagem no Dia do Amigo exatamente daquela pessoa que dorme de camiseta branca no seu coração. Essas coisas doem. Doem para sempre. Injetam na corrente sangüínea uma dose considerável de raiva e angústia. Perde-se, então, a vontade de sonhar. A ruptura com a felicidade se instala sem trégua. E não há analgésico que dê jeito – todo o corpo parece dilacerar-se em ondas de febril sofrimento. Por isso, a frase da tal mulher de olhos de cristal (fazia-se assim) bateu na trave do campo de futebol que tenho no coração - onde jogo mal e quase sempre perco - e entrou no fundo das redes, sem chance de defesa. Mal pude perceber que a sentença da quase-Gracie era uma pergunta, pois a moça disfarçou o suposto tom interrogativo com um drible de língua, daqueles que deixam os fonemas oclusivos no chão e os bilabiais da arquibancada de boca aberta. Numa imagem de esgrima, foi uma estocada verbal, com a classe de um florete levíssimo. Sangrei pouco, por timidez. Uma vez disparada, a frase-míssil executou uma parábola perfeita e fez piscarem as luzes que suponho existirem no córtex cerebral que me recheia o crânio. Assim como Tony Newman e Doug Phillips, me perdi num torvelinho de um túnel do tempo particular e fui jogado num mundo antigo, escondido num daqueles escaninhos empoeirados da memória. Súbito, uma mulher corre no jardim da minha infância, despenteando flores e desmontando o tempo; o sol vermelho, dardejante, encontra, enfim, morada nos seus olhos de fogo que, um dia, viram Seabiscuit e que, de tão sensíveis, notavam, sem dificuldade, a rotação da Terra. Vá entender os caminhos de rato da memória. A quase pergunta – pois era mais um pedido de socorro – reverberava ainda na capilaridade auditiva de meus tímpanos cansados de ouvir tanta explicação para nada, tanta distração para a angústia, tantas promessas que se perderam no tempo, como lágrimas na chuva. Entendi perfeitamente as 19 palavras que ela proferiu numa voz firme, mas com manchas de sangue coagulado. Cada um dos 19 vocábulos veio-me cinzelado pelo Escultor Divino, a quem sempre recorremos na hora do aperto. Por isso, pensei: “Meu Deus! O que digo?”. Sou tímido no lidar com as pessoas. Prefiro o eyekissing. Gostaria de ter respostas prontas. Sábias, de preferência. Na hora, não tinha nada, não sabia nada, não entendia nada, com toda a ênfase niilista que essas duplas negativas me proporcionavam. Perdi o chão. Desliguei o reverso das duas turbinas que me movem as engrenagens atrás dos olhos míopes e fiquei em silêncio, mesmo depois da terceira vez que ela usou o chicote de Indiana Jones para eu dizer alguma coisa:
- Fernando, como amar alguém que em vez de se afirmar pela presença, se eterniza em nossa vida pela ausência?
Não tenho a mínima idéia do que pensei na hora. Digitei mentalmente a palavra “help” no Google da alma e esperei a salvação. Que responder à moça de olhos de cristal que, agora, me fitava aflita com os mesmos? Só o fato de não ter sido acometido por uma fulminante catatonia já me enche de orgulho. Procurei emular Drummond, que dizia que um mundo confuso pede também um método confuso. Não me seria difícil. Quis lhe dizer - mas não soube como - que não há instrumento, não há força, nada que adiante. Resta a delicadeza. E, sobretudo, a atitude que justifica tanto sofrimento: a paciência de esperar.

070905