
Da minha janela, vejo, no outro lado da rua, um casal num apartamento. O apartamento é novo, assim como os dois. Ela é morena e linda e, mesmo à distância, posso ver a luz intensa de seus olhos de fogo. Ele, alto e magro, com jeito de professor, acompanha com atenção os passos da companheira, que examina cuidadosamente cada centímetro do novo lar.
É uma tarde de domingo, o sol reina no céu límpido e eu observo, de longe, aquele casal arrumando prateleiras e esvaziando caixas, numa tarefa que nada tem de árdua e é simplesmente a preparação, em conjunto, da vida, juntos. Num dos quartos, ela, sentada na cama ampla de casal, dobra as peças que, há pouco, estufavam malas e bolsas. Está tão serena, tão concentrada, que nada parece existir à sua volta e só tem olhos – e mãos – para a arrumação das roupas da família nos cabides e gavetas. Vez por outra, ela pára e olha com atenção um par de meias ou uma blusinha, avaliando com olho prático se vale a pena mesmo guardar isso ou aquilo. Vejo-a colocando, com suavidade e sem pressa, cada item em seu lugar no grande armário que toma quase toda a parede. Parece que assim ela quer sua vida – tudo arrumado, limpo, passado e perfumado, nenhuma bagunça, nenhuma confusão. Ela está tão certa disso que, por um momento, contempla as roupas postas em ordem diante de si, e se deixa cair na cama, de costas, como se, enfim, tivesse a certeza que o pior já passara e que ela finalmente conseguiu o que tanto sonhava.
O homem, agora, faz o trabalho mais pesado de puxar móveis e montar estantes onde, em breve, ficarão seus livros e suas autênticas ousadias literárias. Já vislumbrou um canto para o computador, que ainda não veio, e sua mente criativa certamente começou a esboçar a história do primeiro livro escrito ali, no novo apartamento. Este livro, como os outros, será dedicado a ela que, no fundo, ele sabe, e todos sabemos, é a verdadeira autora da família.
Como sei disso? Bem, é só vê-la atravessando ligeiramente o corredor em direção à cozinha para logo inventar uma nova disposição para a geladeira e o freezer para obter mais espaço e luz. E consegue. Depois, vai para o quarto da filha, põe a mão no queixo por uns instantes e faz, dali, mais que um quarto de dormir: com uma nova iluminação e uma certa combinação de cores, constrói, como mágica, um reino fantástico onde a pequena haverá de sonhar e estudar.
Há qualquer coisa de comovente neste casal construindo o lar. Sim, pois a casa já estava construída muito antes, mas ainda não era um lar. Ela ajeita os quadros na parede e limpa minuciosamente a grande mesa da sala de jantar, no centro da qual colocará um jarro com flores do campo. Noto que a felicidade dela depende da ciência na escolha de cada objeto da moradia nova. Ao tirar as louças dos seus embrulhos de jornal, ela mentalmente vai eliminando os excessos do passado que não quer na nova morada e os substitui por novos planos, novos instrumentos que ainda vão ser comprados para compor o concerto da vida que agora, juntos, vão iniciar.
Os dois se empenham na colocação das luminárias, dos estendedores na área de serviço, na montagem da mesa de centro, aparafusando, apertando, nivelando. Mas há no homem algo de transitório que o faz assumir, meio sem querer, um ar de superficialidade de quem está com a cabeça nos negócios, no trabalho, no dia seguinte, em outro lugar. Ela, por sua vez, está empenhada até o último fio dos cabelos, e seu envolvimento com a casa a transforma num ser diferente do companheiro, pois ela sabe que as providências deste primeiro dia serão muito importantes no novo apartamento, onde se vai nidificar por um período apenas ou para sempre.
Vez por outra, ele vai à janela e faz um gesto chamando-a para contemplar a vista do oitavo andar. Ela vem, abraça-o com ternura, como se entendesse a necessidade dele de olhar para fora e para além das janelas do apartamento. Na maioria das vezes, os homens são assim mesmo: pensam na casa olhando-a de dentro para fora; enquanto a mulher, mais consciente de que a vida cotidiana se faz na intimidade, na minúcia, entre eles e só eles, tem os olhos para dentro, para cada pequeno detalhe interior, sem cujo bom funcionamento ela, na sua infinita sapiência feminina, sabe que nada funcionará. Mas assim também são os outros bichos da natureza: a fêmea parece sempre ser a criatura mais completa, mais íntegra, mais responsável pelo processo, que muitos julgam natural e quase banal, de construir uma família de verdade. É só ir ao zoológico e observar, por exemplo, os leões em suas jaulas – enquanto ele, meio indiferente e preguiçoso, dorme a um canto, a leoa rodeia a família, com um olho nos filhotes e outro, incrivelmente inteligente e crítico, nos curiosos que espiam do lado de fora das grades.
Posso sentir daqui o cheiro de pintura nova, da cola do carpete recém colocado e até do café que ela faz na cozinha já montada. Com esmero, vai colocando, com delicadeza indubitável, sobre a mesa ainda improvisada, o pão, as frutas, os biscoitos e os pequenos potes de geléia que refletem a luz do sol, como pequenas cores aprisionadas. Sorri, pois sabe que logo, logo, vai alimentar o amado, a filha e os sonhos; e seu sorriso é tão doce e de paz que me convenço sem demora que essa é uma família feliz que viverá uma vida simples e alegre, dessas a que chamamos de uma vida tranqüila, num apartamento pequeno, onde caberá todo o grande amor que houver nesta vida.
De repente, o homem se levanta e parece discutir com a mulher. Esforço-me para não deixar que o silêncio, que fazia daquela cena uma peça renascentista, se quebre com aquele inesperado e distante altear de voz. A mulher parece atônita diante daquele extravasamento de incompreensão e hostilidade que não combinava com o universo que ela havia imaginado. Antes, o trincava, assustadoramente. Pude ver, então, que num mundo tão barbárico e pragmático de hoje, em que os sentimentos estão em descrédito, não precisamos transitar nas trevas, ou evocar espíritos, para nos depararmos com o estranho. A qualquer momento, em qualquer lugar, se não estivermos atentos, a felicidade tão desejada pode entrar em irremissível e desastrosa falência.
070926


