quinta-feira, 26 de agosto de 2010

MORTE


Obs: o texto abaixo foi o resultado de um desafio, lançado pela professora Marina Higgins, de escrever um texto, tendo o terror como tema, sem usar a letra A.

Noite, pouco depois dos sinos mudos diluírem seu silêncio no bosque: um ruído escorre lento no escuro. O homem se detém. Seus olhos colhem indícios, riscos, perigos, porém, só existe um eco duvidoso em seu redor. Ele persiste no trecho entre o longo muro do mosteiro sombrio e o pútrido e fétido conjunto de troncos sem viço, esquecidos pelos guerreiros empós o conflito medonho e cruel, ocorrido num ontem terrível. O homem tem o intuito de descobrir onde seu destino, em milésimos de segundo, é fluidez ou vínculo sólido com o sensível.

De novo, o ruído o estremece. Quem? O quê? O perigo, proveniente do ser sozinho que ele é neste momento, perto do ser gótico escondido sob o silêncio noturno dos muros, lhe é desconhecido. De repente, o monstro incide sobre o homem que, sem tempo de fugir, só sente no pescoço o furo dos dentes finos do homem-morcego e o vermelho quente escorrendo-lhe pelo corpo semimorto. No frio intenso do momento, o homem tem o último gesto de repúdio e foge do monstro com o que existe nele de melhor e eterno: o sonho. Por isso, meio vivo, impele-se pelo terreno úmido, ferido, vertendo o viscoso e rubro líquido quente proveniente do ferimento imposto pelo disforme ser sedento de sumo movediço feito de glóbulos rubros e de cor de leite.

Persiste no esforço de fugir do imenso perigo e esconde-se num humilde e discreto tugúrio, onde vê seu sonho no feitio de um indivíduo do sexo feminino, jovem, esguio, belo, sorrindo com o se o éden fosse o comprimento do segmento existente entre os dois corpos. Sente-se sem riscos iminentes, seguro, percebe-se, e um frêmito divide-lhe o músculo dentro do peito.

Descobre que um sentimento novo surge nele como um tremor sísmico. O ferimento, súbito, detém-se como se fosse feitiço. Sem dor, é um novo homem que conhece, enfim, o que é ser feliz, no momento em que o corpo tenro lhe envolve com sutil e lírico poder de seduzir. Ele permite que o fluxo de vigor voluptuoso domine seus sentidos e entrevê deleites indizíveis. Reconhece o munificente e feérico torpor que os dedos femininos lhe promovem no toque no corpo redivivo e concede o ingresso do seu rosto febril no ninho feito de colo e perfume. O fôlego dos dois se insurge em torrente sem controle, como um tempestuoso ímpeto. Um beijo é um soneto de Proust; um suspiro - um pôr do sol de Renoir; o sorriso - um tesouro possível... os dois se prendem num vínculo sólido, compondo um momento sem defeitos ou deslustre. Dentro do cubículo, os dois se fundem em um número perfeito: um.
Longe, esquecido, o monstro percebe que perdeu o espólio de seu sustento e regride em rumo do esquife frio e terroso.

Livre do perigo, o homem se vê imerso no universo feminino do divertimento luxurioso sobre o móvel de dormir. O tempo corre e eles querem repouso. É noite, de novo. Ele se move em meio do sono e põe os olhos no externo cômodo, com rigor de um monge: tem que descobrir o puro evento que o põe em cerco. O sonho de contornos femininos sumiu. Só, ele se põe de pé. Com sede, bebe o líquido do copo sobre o móvel. Um gosto de fel interrompe o resto de luz que neste momento, sobrevive em seus olhos sem brilho, sem nitidez. O veneno estende-se pelo corpo mortiço, que rui, com um som brusco, defronte do vulto misterioso, vestido de luto e delírio de morte.
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LIVRO: O AMOR LÍQUIDO - A Fragilidade dos Laços Humanos. A modernidade líquida – um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível – em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos, um amor líquido. Zygmunt Bauman, um dos mais originais e perspicazes sociólogos em atividade, investiga nesse livro de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais "flexíveis", gerando níveis de insegurança sempre maiores. Veja e ouça Bauman: http://www.youtube.com/watch?v=X4YGdqgCWd8&feature=related

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A UNHA QUEBRADA


Foram Isabela e Priscila que me pediram, eu prometi e, agora, deito-lhes sobre as mãos finas e bem cuidadas, o texto sobre o desastre, a catástrofe e o horror de se ter uma unha lascada às vésperas de um final de semana, quando não há mais tempo para resolver, sanar, remendar, refazer as extremidades pelas quais elas, e milhões de outras mulheres, haverão de tecer planos e armadilhas amoráveis, seja pela caneta que escreverá um bilhete dando Total Access aos seus corações, seja pelo simples gesto de levar o indicador aos lábios, numa atitude que a gente nunca sabe se é de dúvida ou de certeza de que vai conseguir o que – e quem - se quer.
Sim, uma unha quebrada, depois de todo o trabalho de marcar hora, ir ao salão e ficar horas matutando a melhor estratégia para alcançar o “ficante” naquela festa im-per-dí-vel!, é o desespero de qualquer mulher moderna que sabe que o esmalte certo que lhe vai nas extremidades digitais pode ser o fator determinante para que o mundo se encaixe perfeitamente nas suas expectativas. Pois o esmalte da moda deixou de ser apenas um acessório e hoje faz parte da composição do look, assim como os sapatos, brincos, casacos e maquiagem.
O certo é que a vaidade feminina está cada vez mais intensa nas pontas dos dedos. Antigamente, a moda das mãos era mais discreta e padronizada, com tons mais leves para o verão e outros fechados para o inverno. Agora, observo com perplexidade, o mundo fashion permite cores mais ousadas, que passam por azul, verde e até neon, sem falar em todos os matizes possíveis. É só dar uma passadinha na web para se achar blogs e redes sociais nos quais meninas, mulheres e mulherões pegam um esmalte recém-lançado, testam, falam, discutem, se informam sobre tendências. Vejo-as, diante dos frascos, pensando que “este vai melhor com meu cabelo e meus sonhos; aquele combina mais com minhas expectativas e a sandália preta de salto que ele adora; este tem tudo a ver com a roupa e o amor que escolhi”. É um ritual solene, que só os escolhidos a dedo podem testemunhar.
Desta forma, Isabela e Priscila, sei que vocês, lindas e inteligentes que são, se preocupam com este drama da mulher moderna: a unha meticulosamente quebrada naquele lugar que todas as pessoas (especialmente as invejosas) vão ver e achar um horror, mesmo tendo à disposição mais nove unhas perfeitas e harmoniosas, pintadas com o esmero, a arte e a dedicação de um mestre Renascentista. Não, não se pode admitir que o verniz escolhido tão cuidadosamente trinque bem na hora em que todas as cartas do jogo amoroso estão na mesa, à vista de todos. Pois não se subestime o poder dos gestos femininos, delicados, mas firmes, com os quais vocês, mulheres, podem fazer o homem sorrir como um bobo ou chorar de dar dó. O esmalte equaliza a sinfonia regida pelas mãos da mulher que conduz, quando pensamos todos que ela é a conduzida. Assim, a unha bem desenhada, esculpida, delineada, depois de horas de lixa e paciência, deve estar perfeita para que o pincel macio espalhe um Risqué Damasco ou um Arezzo nails Forest Green sobre sua superfície que não pode e não deve se fragmentar, pois uma unha partida dói tanto quanto um coração idem, e as mulheres sensíveis como vocês deveriam ser poupadas de tal sofrimento, a todo custo.
Chega uma hora em que é preciso estar com as unhas afiadas – e pintadas – para agarrar a chance que só vai passar uma vez: a oportunidade de seduzir, através de leves arranhados no braço e no rosto do alvo amado, aquele ainda não foi, mas será, em muito breve. Há algo de felinamente selvagem, em vocês, nestas horas.
Por mais que eu simpatize com a causa, devo deixar registrado em cartório que sou a favor dos esmaltes claros, sempre, embora entenda o fervor com que vocês se jogam na procura de cores fortes para emoções também, como o tom mais escuro do cinza, preferido por Isabela, e um Orly cremoso que faz sucesso nas mãos de Priscila.
Confesso: sou um admirador dessas mulheres que têm certeza do esmalte que querem usar e com elas me solidarizo quando este tsunami de proporções cataclísmicas - que é quebrar a unha na última hora - põe sua sexta à noite em risco de não acontecer. Pior do que enxaqueca, pior do que TPM, pior do que ver o ex com outra, a unha lascada é o teste supremo para a imensa força feminina que lhes habita o coração. Portanto, saibam que eu as entendo neste esforço supremo de manter as unhas perfeitas, sem jaça, inconsúteis, mesmo que o mundo se aproxime do fim ou que qualquer tragédia anunciada se abata sobre seus caminhos. Reluzentes, luminosas, radiantes, sei-as todas, por inteiro. É assim que me sinto perto de vocês: um relâmpago diante de um grande sol.
E por fim, Isabela e Priscila, não percam de vista que, se há algo imprescindível na difícil conceituação de ser feliz, é o seu caráter de permanência. Uma unha quebrada se refaz com o tempo. Um coração também. A definição consciente exige colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura do que é felicidade, e chegar à conclusão de que ela, de tão perto e óbvia, pode estar mesmo nas pontas dos dedos.
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DVD: Paul McCarney Good Evening New York - Paul volta ao Shea Stadium para uma belíssima apresentação de seus grandes sucessos. Destaque para a canção "Here Today", que ele compôs para John Lennon, cantada só ao violão, durante a qual Paul chora, emocionado. Os extras são ótimos, com entrevistas e curiosidades sobre a turnê. Veja um trecho do show: http://www.youtube.com/watch?v=co-yucte14Q&p=5E131D09E6C5968E&playnext=1&index=8

terça-feira, 10 de agosto de 2010

THE ROAD


Seven thirty in the morning. My winter heart is still beating slowly. I am getting ready to face the long walk, surrounded by silence. A backpack check is vital: I must have everything—or just about—that is needed to start my reading expedition. The hike across the literary town is supposed to be a comeback to some sort of roots, therefore I need to downgrade.
This is going to be a long day—there's a forty-kilometer hike out there waiting for my steps. The very last minute is dedicated to all that I must not have: no money, no mobile phone, no maps—all of this is resting on the wooden table that my dad built decades ago.
The only gear I furnish myself with is a personal camera and my notebook—and in my notebook I cherish a single public dream-like transport ticket for my return, later on tonight. For that is my only link with urban life—the only pass for I return after I reach the summit at the end of my long trip through a cold and sunny August day.
Daybreak today was beautiful; the frozen humidity piercing my bones was a reminder of my old self as a small-town boy, of days when urban life could be easily transformed into a faraway kind of adventure—away from everything and everyone, away from the creepy sense of pacing in a cage that later spurred me to come live in the mountains up Rio de Janeiro state.
This is all due to the fact that I used to enjoy the warmth rising from the streets in Friburgo, it all looked magnificent at the end of July, in the deep frozen winter with the sun so huge on the horizon and the sky as our road. As I crossed the main avenue and dived into the backstreets of the south side of town, that big yellow star exploded like a giant crashing stone, it danced on the tarmac leading to the apartment in the street, the long sentimental road that lead me to you.
There must be some hidden beauty down there, where I am heading right now, toward the fragments of the sun still dancing in the sky and through the haze: a Star, a world beyond a world that used to be. Something that might happen again. Or that might not.

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DVD: UM BOM ANO (A GOOD YEAR, USA 2006) - Max Skinner (Russell Crowe) é um investidor inglês, sem muitos escrúpulos, que vive somente para ganhar cada vez mais dinheiro. Quando seu tio Henry (Albert Finney), seu parente mais próximo, morre, ele herda sua vinícola na França. Quando viaja ao local para ajustar detalhes a fim de vendê-lo, Max acaba passando uma temporada no local, e encontra o caminho do coração. Veja o trailer: http://www.youtube.com/watch?v=k-B6FsAAvmM

domingo, 8 de agosto de 2010

A JANELA


Reparou pela primeira vez naquele apartamento quando passava de carro, indo em direção à praça. Pelas cortinas entreabertas, conseguia apenas ver uma parede, banhada pela luz indireta do abajur. Mas nessa parede havia uma estante, que me chamou a atenção pela solidez: estava repleta de livros. As lombadas coloridas davam vida ao ambiente silencioso que ele adivinhava lá de fora.
Não havia uma vez sequer que passasse por ali sem querer subir e conhecer por dentro o apartamento dos livros. Claro, uma mulher morava ali. Sabia disso pelo modo como as cortinas brancas estavam , a cada dia, ainda mais brancas; pelo vidro limpíssimo da janela; pela luz discreta e suave que iluminava as esquinas das paredes; até pelo silêncio que transbordava pela verticalidade das cortinas das janelas dos dois cômodos. A estante com livros estava na sala, cuja cortina estava sempre entreaberta no mesmo ângulo, o abajur aceso, o silêncio enorme que escorria sem manchar as paredes nem, talvez, o chão. Para ele, aquele apartamento era apenas isso: uma parede, uma estante e seus livros. Jamais conseguiu ver o resto da sala. Nunca viu, tampouco, alguém na janela. Contudo, a mulher continuou existindo, por muito tempo, em sua imaginação, com uma clareza quase sobrenatural. Começou a gostar dela, de sua solidão delicada, dos seus fins de tarde à meia-luz, na companhia dos livros. Porque, embora não a visse, sabia que estava ali. Não raro, quando dobrava a esquina, pressentia dois enormes olhos de vidro – as janelas – observando seus movimentos e as intenções que se lhe aconteciam no coração e na mente. Chegou a ficar encabulado.
Mas, desde então, sempre que passava por aquela rua ao cair da noite, mesmo em velocidade mais alta, aproveitava para espiar. Só dava certo se estivesse escuro. Apenas à noite pode-se observar coisas assim, pois é exatamente quando a luz agressiva do dia se dissolve e surgem, através das janelas, as salas e os quartos com sua iluminação própria, fragmento radiante das mãos de quem ali habita. Só então é possível observar, captar fragmentos, compor histórias e, aos poucos, penetrar suavemente nas vidas das pessoas, conhecê-las sem o isolamento das paredes.
Hoje, contudo, passou de novo pela rua e viu o apartamento fechado, às escuras, triste. As cortinas brancas tinham desaparecido. Teve o ímpeto de parar, subir as escadas e abrir a porta. Imaginou ver uma parede nua, onde restariam apenas cicatrizes das prateleiras, sobre as quais, por tanto tempo, viveram os únicos amores da mulher que havia partido e de cujo cabelo ele jamais sentiria o perfume.
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LIVRO: "Os Espiões", de Luiz Fernando Verissimo. Com Os espiões, pela primeira vez o escritor Luis Fernando Verissimo lança um romance que não foi escrito por encomenda. Até então – desde a sua estreia em narrativas longas, com a publicação de O Jardim do Diabo em 1988 –, o autor gaúcho só tinha enfrentado ao gênero por causa do convite das editoras para integrar coleções temáticas, onde o impulso inicial da criação já estava definido. Vale a pena, especialmente num domingo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A COMMENT ABOUT “LOVE IN THE TIMES OF CHOLERA”


I saw a movie the other day, Love in the times of Cholera, by Mike Nell,in which I caught the following dialogue: “What’s wrong with love?”. Now I appreciate a piece of lyricism when I hear one, so if you’re interested in what makes a contemporary man interested in this kind of literature, you will have to turn to someone else. The original story, by Gabriel Garcia Marquez, mesmerized us in such a way that it is hard to describe it in one single language. All I can say is: it’s like this and it’s like that—there are traditionalists for whom the story is paramount and so they resort to a straightforward narrative style and technique (Graciliano Ramos, João Cabral de Mello Neto), and there are writers who, committed to a specific subject, return to it book after book, and whose writing is characterized by highly wrought, polished styles and a worldview, sometimes even a dramaturgy, that is distinctly their own (Cortázar, Borges). Then there are the intrepid modernists, some of whom seem not to give a hoot about storylines, or stories for that matter, not even traditional literary forms—what’s more, not even grammatical rules—and for whom the act of writing is equal to the act of creating a new universe that did not exist before they set pen to paper. For them, not thoughts, but words are the stuff of prose (or poetry), or as Marquez has said, “My stories are made of the raw flesh of language.” Also, a while back I asked Arthur da Távola why he put something in a certain way, and he gave his famous smiling shrug and said, “I have no idea. That’s what the sentence wanted.” All of which implies that these modernists and postmodernists (oh, how they hate being called that!) conceive of literature in a radically new way. Once you read their works, life will move to a different rhythm, it will take on a different tone and hue, and you will be enriched by a new type of reading experience which calls for an interaction with the text that is often quite intense, if at times baffling. It is from this group of writers that I have chosen nine, hoping that their works will provide readers with a sense of what one exciting face of contemporary literature is like, and that once they have read these pieces and proceed to read others like it, they will be able to cry out, “Ah, if this isn’t Marquez-like, I’ll eat my hat!” I am, in short, hoping to present one exciting face of contemporary Colombian literature by having chosen and translated pieces that will speak for themselves and, as you read, will reveal their nature, and divulge what it is they share. Where they come from, and why, mainly.
I claim no form or standard of objectivity, except for one, which I shall leave for last, for when all is said and done, almost nothing is really objective. Which, considering that we are human beings, is nothing to hang our heads about. Subjectivity is the noblest form of self-expression, and informed subjectivity is the surest guarantee that we are pursuing the right path. That’s how we should understand the love story between Florentino ariza and Fermina Daza and how Marquez interwoven the lines ins a such delicate way that, by the end of the book, for those who can feel, the best thing to do is to cry for having or for not having lived such a beautiful and sweet story.
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LIVRO: "O Amor nos Tempos do Cólera", de Gabriel Garcia Marquez. É o livro mais lindo que já li, além de excepcionalmente bem traduzido pelo mestre Antonio Callado. Para quem não tem medo do amor. Veja: http://www.youtube.com/watch?v=6diEygozpXk&feature=related

ROTEIRO


13h30min. A chuva fina cobria as árvores da praça com um véu quase imperceptível, como se um grande copo de leite aguado tivesse sido derramado sobre a paisagem. Éramos cinco. Contudo, os pensamentos se interligavam de maneira tão intensa, que, por vezes, parecíamos uma só mente somente. Cinco autores, àquela altura, à espera de uma idéia, de um personagem, de uma solução que deslindasse os desafios que havíamos levado para o almoço. Súbito, uma luminosidade solar corta as gotículas de chuva: Martha chega. “Martha, my dear...”, cantarola mentalmente um dos autores, fã dos Beatles. Ela abre a bolsa e escolhe cuidadosamente a chave apropriada. Gira com cuidado. O som seco do metal partido ressoa líquido na tarde chuvosa. De imediato, percebemos que não teríamos como continuar. Estávamos diante da impossibilidade concreta de uma porta que não se abria para o alinhamento das ideias que manipulamos durante toda a manhã. A longa estrada sinuosa apontava para outras landas. Naquele momento, a porta imóvel era o monolito que os astronautas de 2001 encontraram no espaço. Vencê-la – e isso também significava entendê-la – nos levaria às respostas que formulamos horas antes. Diante disso, cada um de nós, como se tomado por uma força inexplicável, começou a escrever na superfície plana daquela porta, o roteiro definitivo de uma história impossível.
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LIVRO: "Papéis Inesperados", de Julio Cortázar. O livro foi construído a partir de escritos nunca antes coligidos, encontradas por Aurora Bernárdez, viúva do escritor. Leiam o texto no qual a água deseja ser neve. É lindo!