sábado, 10 de maio de 2008

ARTUR

Eu tinha dezoito anos e uma curiosidade desmedida. Juntamente com um amor adolescente, descobrira a Literatura e seus caminhos imponderáveis. Lia muito jornal. E, no jornal, lia muito Artur da Távola. Meus ímpetos juvenis me levaram a descobrir o telefone de sua casa e ligar para ele, mas não me prepararam para o susto ao ser atingido pelo convite que mudou minha vida: “Pois venha jantar aqui em casa na semana que vem”. Eu nunca havia ido ao Rio sozinho, mas senti que não podia titubear, nem recusar, mesmo que fosse com a intenção de adiá-lo, o generoso convite que Paulo Alberto me fazia, sem me conhecer, apenas lendo na minha voz sincera um autêntico desejo de me dedicar às letras e conhecer o escritor que admirava. Fui. Não sei como, mas fui. Também não sei como, me vi diante do prédio na Rua Prudente de Moraes, em Ipanema, às 8 horas da noite, tremendo de emoção. Entrei no apartamento como um estranho e logo fui recebido como um velho amigo por ele, pela esposa e pelos filhos. Conversamos numa sala ampla, repleta de livros, como eu imaginara nas montanhas. Paulo Alberto, até então, fisicamente, era uma abstração literária construída através dos livros e da sua voz nos Debates Populares, do programa do Haroldo de Andrade, que ouvia todos os dias. versado na távola do Arthur, o de Pedragon, achava que encontraria alguém como o Príncipe Valente, de armadura, escudo e espada. Ele riu da minha expectativa e escreveu no livro que acabara de me dar: “Para Fernando, que me idealiza num equívoco que num fundo gratifica e faz bem, o abraço amigo do Artur da Távola”. Ele parecia entender o que levava um rapaz provinciano sair da sua cidade do interior e vir à cidade grande para encontrar com o autor que o fazia insistir, todos os dias, numa modesta Olivetti Lettera verde, nas ilusões literárias que mantenho até hoje. A notícia de sua morte, num frio final de tarde de maio, reforça uma das coisas que Paulo Alberto costumava me dizer quando, desorientado e perdido nos caminhos das palavras, o procurava pedindo ajuda:”Nem entender, nem desistir...”. E é assim mesmo que me sinto agora - sem entender o fato de nunca mais me encontrar com esse amigo que me acolheu como um velho conhecido, e sem desistir de acreditar que, literariamente, jamais deixarei de tê-lo comigo.

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quinta-feira, 1 de maio de 2008

MADRASTA

Outro dia, li no Sérgio Rodrigues um comentário sobre o abastardamento da palavramadrasta”, cuja conotação pesada vinha perdendo a dimensão de pavor e perseguição adquirida no inconsciente coletivo dos contos de fada. Concordo. Com o realinhamento dos novos padrões de relação das famílias, a presença de uma madrasta na vidinha dos miúdos não provocava a neura de antigamente. Mesmo que disfarçada de “namorada do pai”, a nova integrante tinha as mesmas características, que agora azeitadas pela doçura e compreensão das mentes abertas e psicanalizadas. Rafael Bluteau, em seu dicionário do início do século 18, registrava os seguintes adágios portugueses: “Madrasta e enteada sempre andam em baralha” (isto é, em conflito, em joguinhos de intrigas); e o genialmente sucintoMadrasta, o nome lhe basta”. Na década de 60, Roberto Carlos gravou um bela canção que tinha o título de “A Madrasta”, composição de Renato Teixeira e Beto Ruschell, que era uma declaração de amor e de identificação com as dores do mundo: “Aceite o afeto de quem sempre andou tão na vida...”. Madrasta saiu do latim popular matrasta, de significado idêntico: a nova mulher do pai. Trata-se de uma das derivadas de mater, vinda por sua vez da imemorial raiz indo-européia matr-, ancestral tanto do sânscrito mata quanto do inglês mother. Constata-se que a raiz, com todas as características benevolentes, acabou produzindo tambémmadrasta”, um produto pejorativo e depreciativo de mater. Daí, o significado oposto do sentido original: aquilo que maltrata: sorte madrasta, por exemplo. Em inglês, o substantivo “stepmother”, formado pelo prefixo “step”, de origem alemã, tem o sentido de órfãoou seja, confirma a idéia de alguém que supre a ausência física da mãe verdadeira. A madrasta de Isabela Nardoni, pelo menos até agora, voltou a personificar a vilã que conhecemos de Cinderela, com a agravante lingüística da coincidência com o pré-nome composto da mãe biológica, alterado pela mística, e nem sempre bem-vinda, repetição do n, décima terceira letra do alfabeto.

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