Eu tinha dezoito anos e uma curiosidade desmedida. Juntamente com um amor adolescente, descobrira a Literatura e seus caminhos imponderáveis. Lia muito jornal. E, no jornal, lia muito Artur da Távola. Meus ímpetos juvenis me levaram a descobrir o telefone de sua casa e ligar para ele, mas não me prepararam para o susto ao ser atingido pelo convite que mudou minha vida: “Pois venha jantar aqui em casa na semana que vem”. Eu nunca havia ido ao Rio sozinho, mas senti que não podia titubear, nem recusar, mesmo que fosse com a intenção de adiá-lo, o generoso convite que Paulo Alberto me fazia, sem me conhecer, apenas lendo na minha voz sincera um autêntico desejo de me dedicar às letras e conhecer o escritor que admirava. Fui. Não sei como, mas fui. Também não sei como, me vi diante do prédio na Rua Prudente de Moraes, em Ipanema, às 8 horas da noite, tremendo de emoção. Entrei no apartamento como um estranho e logo fui recebido como um velho amigo por ele, pela esposa e pelos filhos. Conversamos numa sala ampla, repleta de livros, como eu imaginara nas montanhas. Paulo Alberto, até então, fisicamente, era só uma abstração literária construída através dos livros e da sua voz nos Debates Populares, do programa do Haroldo de Andrade, que ouvia todos os dias. Já versado na távola do Arthur, o de Pedragon, achava que encontraria alguém como o Príncipe Valente, de armadura, escudo e espada. Ele riu da minha expectativa e escreveu no livro que acabara de me dar: “Para Fernando, que me idealiza num equívoco que num fundo gratifica e faz bem, o abraço amigo do Artur da Távola”. Ele parecia entender o que levava um rapaz provinciano sair da sua cidade do interior e vir à cidade grande para encontrar com o autor que o fazia insistir, todos os dias, numa modesta Olivetti Lettera verde, nas ilusões literárias que mantenho até hoje. A notícia de sua morte, num frio final de tarde de maio, reforça uma das coisas que Paulo Alberto costumava me dizer quando, desorientado e perdido nos caminhos das palavras, o procurava pedindo ajuda:”Nem entender, nem desistir...”. E é assim mesmo que me sinto agora - sem entender o fato de nunca mais me encontrar com esse amigo que me acolheu como um velho conhecido, e sem desistir de acreditar que, literariamente, jamais deixarei de tê-lo comigo.
080509