quinta-feira, 25 de novembro de 2010

LAVÍNIA

O título se refere a Lavínia, a Lavínia longilínea, oligopiônica, linda, que aparece na calçada e, mais tarde, nos meus sonhos, sem pedir muita licença, só entrando, devagar, mas com tudo, lânguida Lavínia, a que sorri com olhos de gata e nem pede licença – vai logo aboletando as longas coxas no lado quente da cama e enfia os pés delicados entre as mãos ossudas numa sem-cerimônia que emociona e leva às lágrimas este seu fiel servo, este adorador primitivo que, assim como Althemar, sentimental eu sou demais.
O problema, se há-o, é mesmo falar com ela. Ela precisa saber que uma lavínia assim pode muito bem acabar com a guerra na Rocinha e o conflito que se arrasta no Iraque, pois nada pode continuar como está depois que ela chega e sorri seu sorriso de 380 graus, deixando qualquer um desarmado e pronto para refazer seus conceitos, bélicos ou não, seus planos, profissionais ou não, seus sonhos, amoráveis ou não. Mas como falar com ela?
O que me falta na Terra? Muita coisa. Mas, nestas noites tépidas do outono mascarado dos trópicos, o que me falta mesmo é Lavínia e seu sobrenome quase impronunciável; faltava não só escutá-la de novo, mas sentir como seria a temperatura de sua mão ossuda... Seria úmida como a minha agora? E o cheiro da sua boca? O cheiro bom de pantera, eu pensava, como seria este gosto? De pantera também? E os seus pés, tão bem formados, devem ser macios e a sensação que tenho, esta sensação absurda de moço velho, é que nunca haverei de ser docemente pisado por um pé assim, nunca haverei de dar um abraço apertado nela, um abraço que tendesse à eternidade...
Assim como o regime militar provocou um imenso atraso na evolução da cultura política brasileira, com seus casuísmos e interesses mesquinhos, esta mulher e seu biquíni, à beira da piscina, é capaz de me deixar mais sem sono do que o costume e me levar à elucubração de estratégias mirabolantes para atingi-la com minhas palavras, até me dar conta que, diante deste problema sem solução, assim como ao poeta, só me resta tocar um tango argentino.
Mas Lavínia, mais do que Itabira, é muito mais do que um retrato na parede – quando fala, e fala bastante, e contempla um pôr do sol ou uma orquídea, ela não está apenas olhando: ela está sendo tudo isso em que se concentra. Ela é o pôr do sol, o próprio sol, a orquídea, todas as flores, o vento, o besouro, o silêncio. É disso que ela precisa saber, pois esta consciência é um dos aspectos da felicidade, aquela placa de sinalização à beira da estrada, que diz: vire à esquerda e mantenha-se à direita, seguindo em frente. Sorria, você está na felicidade. Falo, portanto, para ela.
Como ela saberá que, se for verdade que um minuto antes da morte desfilam todos os personagens e acontecimentos importantes da nossa vida, é possível que no instante prévio à paixão, como num flash, passe o trailer da história de amor que vamos protagonizar? Ela deve entender que minha situação é delicada, preciso falar-lhe, pois se ela é mesmo a moça que passa e fica que Vinicius versejou, estou a manquitolar entre o picaresco e o sublime destas landas literárias até encontrá-la.
A Lavínia precisa saber que há coisas que não são claras mesmo e que devemos adotar a postura zen-budista de não entender nem desistir para continuar a montar este quebra-cabeça chamado vida, cujas peças estão espalhadas desde que, canhestramente, chutamos o tabuleiro no primeiro tropicão que demos na tentativa de andar de pé. Pois você não vai entender, Lavínia, se eu não te contar, baixinho, na sua orelha fria, que nada se renova, inova, expande e se faz de verdade sem um momento de silêncio e reflexão. A solução existe, para quase tudo, se soubermos procurá-la e, sobretudo, reconhecê-la, neste torvelinho de inconsciências que fazemos da vida. Preciso, por algum motivo imponderável, te dizer que, passado o primeiro horror da perda grave, na treva da impotência e inconformidade, a gente começa a vislumbrar vestígios de uma sensação feliz que ainda não se acabou. Por isso, quero falar com ela, pois o amor que dialoga é um hábito a ser exercido diariamente, sob pena de não mais nos encontrar.
Da primeira vez que a vi, andava carregada de flores no cabelo e parecia ter pernas mais longas, sem ter idade para saber que poderia muito bem ter sido uma das certinhas do Lalau – não o juiz, mas o Stanislaw – ou mesmo um verso vivo da fase mística de Vinicius. Ser-lhe-ia uma definição perfeita, um dístico do poeta, de par com suas pernas longas, seus olhos amendoados, suas finas mãos ossudas. Não haveria de charlar em sua presença coisas pretensamente culturais, mas não me furtaria de sugerir que fizesse, numa próxima montagem, a Desdêmona, de Othelo, em função dos meus futuros ciúmes quando, ao querer falar com ela novamente, e pela nonagésima vez naquele mesmo dia, o celular estivesse fora de área.
Não haveria de acontecer mais um 11 de setembro para que ela se desse conta que não perdemos os grandes amores de nossas vida – nós é os roubamos de nós mesmo. Por inveja. Por cobiça. Por não entender mesmo. Por isso, aproveito este tempo que tenho, meu tempo agora, para falar que ela talvez seja um bom motivo para se sair do recolhimento amoroso, depois de um luto num período sensato. Cansei que me pedissem alegria sem trégua, coisa que interferia na minha dor, esse corpo estranho a uma sociedade que não permite fracassos de nenhuma natureza, embora seja, neste cipoal de paradoxos, tramada pelos desencontros mais inexplicáveis, mais inesperados, com os quais não nos conformamos até que esbarramos no imponderável e, finalmente, voltamos a ter direito a uma vida razoavelmente normal, com altos e baixos, dor e prazer, perdas e descobertas.
Lavínia, é sobremodo pertinaz que você me ouça, agora. Largue o que estiver fazendo e admita para si própria que só há um bom motivo para eu continuar vivendo: um minuto de sua atenção já!, sem medo, imediatamente, assim com chutzpah, essa palavrinha importada do iídiche, que tem o sentido de cara-de-pau, pois te quero, Lavínia lânguida, latílabra, lassa, lasciva, lanugenta, lariforme, latejante e todas as aliterações possíveis, para descobrirmos, juntos, algo que nem as pesquisas com células-tronco, nem aquelas que levaram ao descobrimento de um planeta extra na via-láctea conseguiram: que não podemos mesmo, em nenhuma hipótese, viver longe um do outro.
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A SUPERMULHER

Pois é, o ano ainda está longe de terminar e ela já é considerada a mulher do mesmo, com toda a razão, diga-se a bem da verdade. Entendo que isso é homenagem que a põe num patamar bem mais alto do outras que fazem sua existência modesta acontecer sob os mesmos auspícios desses 365 dias. A vida, concordo, deu projeção, mas ela é muito mais do que um personagem descoberto pelo Autor. Ela dá corpo – se me permitem a expressão um tanto óbvia no caso – ao que se pode chamar de “beleza inteligente”, pois basta olhar com um pouco de atenção para ver que ela resolve fácil a antiquíssima divisão entre o físico e o imaterial. Se os filósofos especulam sobre a beleza, enquanto os cientistas afirmam que ela é resultado de um aumento de fluxo sanguíneo na base do lobo frontal, não vou bater de frente com ninguém.

Assim como o cérebro é esculpido pela música, as áreas mais sensíveis à beleza são formadas a partir da visão que temos dela. Explico: quando alguém observa uma obra de arte, diversas áreas do cérebro se ativam em sincronia. Chamam isso de neuroestética, palavra meio feia para o que ela representa, eu sei, e acredito que Vinicius de Moraes não a teria acolhido sob as barbas brancas. Mas teimo. Esses seres femininos que habitam o mundo e o imaginário dos homens têm seus mistérios e suas ilogicidades. Querem, não querem. Sabem, não sabem. Chegam, indo. Fazem-se profundamente ausentes na mais sólida presença. Por isso, ela persiste em todas as capas de revistas, nos programas de televisão, nas conversas com cheiro de esmalte dos salões cheios de mulheres que parecem ter só pés e mãos, nas esquinas, nos bares, na alma. A melhor de todas as tropas de elite pode ser explicada pela cor da pele, ou o formato sonoro do sorriso. Mas é mais. Tem aquilo que meu avô chamava de borogodó, sem cortes, mantendo a unidade espacial e temporal. Tem também, certamente, mais de um milhão de citações numa busca simples por seu nome no Google dos sonhos. É o exemplo perfeito de que são as imagens que nos captam. Lacan, sempre ele, dizia que antes de olhar, somos olhados. Ela nos olhava diariamente, sem nos ver, sabendo que estávamos de olho nela. Agora, a temos queimada, como a imagem eterna e sem jaça de um blu-ray idem, na memória daquilo que consideramos lindo. Vai descansar a beleza longe dos que a absorviam, nem sempre com bons olhos.

A existência humana requer uma dose de anonimato. Clark Kent tem a segurança de seus óculos, exatamente quando vê sem querer ser visto. Como Super-Homem, ele está sendo olhado sempre por todos e por tudo. Não pode ser assim o tempo todo, nem para o filho de Jor-El. Destarte, ela também precisa sair do foco, descansar no backstage, pendurar por uns tempos os saltos altos. Chega de ser a Supermulher, demiurgo que a exposição exacerbada da mídia tornou quase que obrigatório ao nosso cotidiano mortal. Missão dada é missão cumprida. Há de existir, alhures, sua fortaleza de gelo, onde, sem ninguém do showbiz por perto, poderá dizer: “Sou feliz!”.

Ela sabe que, sem compromissos firmes e sem sacrifício pessoal, o amor verdadeiro é inimaginável. A esperança para quem desiste das relações estáveis é a de que a quantidade substitua a qualidade. Toda relação amorosa é frágil, então é melhor ter muitas relações amorosas, porque assim sempre haverá alguém em algum lugar que estará disponível para lhe dar a mão, para compreendê-la e para com ela simpatizar. Eis porque muitas pessoas tentam, hoje, reprimir seus sentimentos. Mas os sentimentos são teimosos, eles não são fáceis de apagar como, por exemplo, os contratos jurídicos.

Em sua viagem pela vida, esta mulher absorveu glórias e tragédias, representadas pelo êxtase e pela saudade insuportável. Por isso, quando a vejo assim, de longe, distraída diante da vitrine de uma loja no Cadima Shopping, percebo que ela traz consigo alguma coisa infinitamente sensível e unânime, simples e natural, que se esvai ao ser tocada. Alguma coisa infinitamente acima da compreensão dos homens.