quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A SUPERMULHER

Pois é, o ano ainda está longe de terminar e ela já é considerada a mulher do mesmo, com toda a razão, diga-se a bem da verdade. Entendo que isso é homenagem que a põe num patamar bem mais alto do outras que fazem sua existência modesta acontecer sob os mesmos auspícios desses 365 dias. A vida, concordo, deu projeção, mas ela é muito mais do que um personagem descoberto pelo Autor. Ela dá corpo – se me permitem a expressão um tanto óbvia no caso – ao que se pode chamar de “beleza inteligente”, pois basta olhar com um pouco de atenção para ver que ela resolve fácil a antiquíssima divisão entre o físico e o imaterial. Se os filósofos especulam sobre a beleza, enquanto os cientistas afirmam que ela é resultado de um aumento de fluxo sanguíneo na base do lobo frontal, não vou bater de frente com ninguém.

Assim como o cérebro é esculpido pela música, as áreas mais sensíveis à beleza são formadas a partir da visão que temos dela. Explico: quando alguém observa uma obra de arte, diversas áreas do cérebro se ativam em sincronia. Chamam isso de neuroestética, palavra meio feia para o que ela representa, eu sei, e acredito que Vinicius de Moraes não a teria acolhido sob as barbas brancas. Mas teimo. Esses seres femininos que habitam o mundo e o imaginário dos homens têm seus mistérios e suas ilogicidades. Querem, não querem. Sabem, não sabem. Chegam, indo. Fazem-se profundamente ausentes na mais sólida presença. Por isso, ela persiste em todas as capas de revistas, nos programas de televisão, nas conversas com cheiro de esmalte dos salões cheios de mulheres que parecem ter só pés e mãos, nas esquinas, nos bares, na alma. A melhor de todas as tropas de elite pode ser explicada pela cor da pele, ou o formato sonoro do sorriso. Mas é mais. Tem aquilo que meu avô chamava de borogodó, sem cortes, mantendo a unidade espacial e temporal. Tem também, certamente, mais de um milhão de citações numa busca simples por seu nome no Google dos sonhos. É o exemplo perfeito de que são as imagens que nos captam. Lacan, sempre ele, dizia que antes de olhar, somos olhados. Ela nos olhava diariamente, sem nos ver, sabendo que estávamos de olho nela. Agora, a temos queimada, como a imagem eterna e sem jaça de um blu-ray idem, na memória daquilo que consideramos lindo. Vai descansar a beleza longe dos que a absorviam, nem sempre com bons olhos.

A existência humana requer uma dose de anonimato. Clark Kent tem a segurança de seus óculos, exatamente quando vê sem querer ser visto. Como Super-Homem, ele está sendo olhado sempre por todos e por tudo. Não pode ser assim o tempo todo, nem para o filho de Jor-El. Destarte, ela também precisa sair do foco, descansar no backstage, pendurar por uns tempos os saltos altos. Chega de ser a Supermulher, demiurgo que a exposição exacerbada da mídia tornou quase que obrigatório ao nosso cotidiano mortal. Missão dada é missão cumprida. Há de existir, alhures, sua fortaleza de gelo, onde, sem ninguém do showbiz por perto, poderá dizer: “Sou feliz!”.

Ela sabe que, sem compromissos firmes e sem sacrifício pessoal, o amor verdadeiro é inimaginável. A esperança para quem desiste das relações estáveis é a de que a quantidade substitua a qualidade. Toda relação amorosa é frágil, então é melhor ter muitas relações amorosas, porque assim sempre haverá alguém em algum lugar que estará disponível para lhe dar a mão, para compreendê-la e para com ela simpatizar. Eis porque muitas pessoas tentam, hoje, reprimir seus sentimentos. Mas os sentimentos são teimosos, eles não são fáceis de apagar como, por exemplo, os contratos jurídicos.

Em sua viagem pela vida, esta mulher absorveu glórias e tragédias, representadas pelo êxtase e pela saudade insuportável. Por isso, quando a vejo assim, de longe, distraída diante da vitrine de uma loja no Cadima Shopping, percebo que ela traz consigo alguma coisa infinitamente sensível e unânime, simples e natural, que se esvai ao ser tocada. Alguma coisa infinitamente acima da compreensão dos homens.


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