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Durante um colóquio sobre Língua Portuguesa, reunindo professores da rede estadual, discutiu-se, entre outras coisas, a atual situação do nosso idioma. As conclusões, que agora, parcialmente, apresento aqui, foram estarrecedoras. Isso porque, a educação em geral já é precária, e a imprensa ajuda a deseducar, pois basta uma olhada nos principais veículos de comunicação escrita do país, para encontrar os mais absurdos disparates em relação ao idioma de Camões.
O curioso é observar que só no Brasil a língua se esfacela. Em Portugal, o bom-senso continua prevalecendo, e os países africanos continentais e insulares de língua portuguesa seguem seu exemplo. Vale lembrar que não só Portugal, mas todos os países de língua culta do mundo há séculos mantêm critérios ortográficos coerentes. Infelizmente, parece ser apenas no nosso país que se brinca com esta irresponsável história de dupla ortografia: uma oficial e outra para os jornais. Desta forma, o Brasil caminha solitária e celeremente para deixar, pela porta de trás, o clube dos países civilizados de línguas de cultura.
Agora, no final da primeira década do século XXI, o português do Brasil está irremediavelmente comprometido como língua de cultura, porque não é língua de cultura com bagunça ortográfica. Não se pode pensar em termos culturais, sem a preocupação de preservar a etimologia e o contexto histórico que formou as palavras que usamos. Sintomaticamente, na atual campanha eleitoral, por exemplo, não encontramos nada muito concreto a respeito da cultura e da valorização do idioma que falamos. Pelo contrário: o que mais se vê são candidatos falando e escrevendo errado. Triste, mas real.
Um outro monstrengo que assombra a Língua Portuguesa é o mau uso do verbo repercutir. Aí, a imprensa da TV e do rádio são insuperáveis: teimam em dizer que seus repórteres “repercutem” a notícia, quando, claro, é a notícia que repercute e não o repórter, que apenas a reporta, como se pode deduzir pela palavra. O impressionante é que isso acaba “colando” no ouvido e virando lei, com respaldo daqueles que deveriam saber português para exercer uma atividade tão nobre.
As línguas não se fazem por decreto. As únicas leis que as regem são as da linguística – por isso existem as leis fonéticas, por exemplo. Como fato social que é a língua evolui com a sociedade que representa. Contudo, a observação do registro correto das palavras objetiva apenas a preservação da linguagem e de suas potencialidades. Se não, teremos, cada vez mais, o incorreto “queiroz” no lugar do escorreito “queirós”, plural de “queiró”, planta muito comum numa região de Portugal. Exemplo clássico de um sobrenome de origem geográfica, como tantos em nosso idioma. Vale dizer que Portugal, em matéria de ortografia, é um país cientificamente atualizado, diametralmente oposto ao que acontece no Brasil.
Devo dizer que o correto na língua é aquilo que é exigido pela comunidade linguística a que pertence. Existe um comportamento social regulado por normas em todos os campos, e a língua não pode ser excluída disto. Ninguém é a favor de uma linguagem monolítica, que não se assenta em uma realidade, mas sim de flexibilidade que não se perca em balbúrdia geral ou naquela teoria que os mais preguiçosos amam, a de “se todo mundo fala/escreve errado, por que vou falar/escrever de outra forma?”. Pela aceitação passiva de desvios degradantes como estes, a realidade da língua portuguesa e muito dramática hoje em dia.
Há sempre a melhor solução: ler e escrever, sempre e muito. Só há um jeito de começar a escrever: é começar agora. O conselho, mesmo que ninguém o peça embora o devesse, abre um livro excelente sobre a atividade escrita, “Oficina de Escritores” (Martins Fontes, 2008), de Stephen Koch. Cada escritor tem ao menos uma grande lição digna de nota. Em língua portuguesa, podemos aprender muito sobre como elaborar e apreciar bons textos se aproveitarmos a lição que a leitura dos mestres oferece.
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DVD: TOP HAT (USA, 1935): neste filme, Fred Astaire usa e abusa do direito de ser o melhor dançarino do cinema, como também um ótimo ator. Seus diálogos musicais com Ginger Rogers são belíssimos! Tudo é feito com muita elegância, ao som perfeito de Irwin Berlin. Confira!
Quer dançar de rosto colado? Aprenda, pois!
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