MINHAS AMIGAS - 2
Eu
tenho uma amiga que jura não acreditar em horóscopos e coisas do gênero, mas
que ficou cismada com um destes cartazes presos aos postes, em que certa Madame
Valéria prometia trazer a pessoa amada em até três dias. Missão impossível?
Gostaria que não fosse. Não deu tempo para ver quanto ela cobrava por consulta
– ela estava no trânsito, o sinal abriu, e teve que seguir em frente, sem saber
se acreditava ou não na promessa que fascina pela impossibilidade, por si só,
há tanto tempo. Com o pé no acelerador, continuou cismada e me confidenciou outro dia:
eis uma profissão que, se lhe fosse dada a chance de escolher, ela levaria a
sério. Muito a sério Não se pode brincar com a esperança dos outros. Muito
menos com a dor da solidão. Se prometesse trazer a pessoa amada, em qualquer prazo
estipulado, dependendo do grau de dificuldade do amor perdido em questão,
fá-lo-ia com toda a sua energia e respeito. Alguém tem que trazer a pessoa
amada de volta, alguém tem que fazer este trabalho. Se possível em apenas um
dia, pois, sabemos, 24 horas a mais é uma eternidade insuportável para quem
espera. Para tanto, ela me contou que teria uma equipe enorme de especializados
agentes da CIA (Central de Investigação Amorável), buscando, vasculhando cada
cantinho da cidade, onde o amor perdido poderia ser descoberto e reendereçado
ao faltante amante desamparado. A polícia, em convênio afetivo, efetivamente
colaboraria, colocando à sua disposição, blitzes nas principais rodovias, a fim
de que o amor querido não fuja do amor querente, num desses carrões reluzentes,
de vidros escuros, onde amores perdidos costumam se esconder, carentes.
Acionaria vizinhas desocupadas, amigas fofoqueiras de bom coração e porteiros
com vocação para Sherlock – todos lhe enviariam detalhados relatórios sobre os
movimentos supostos da pessoa procurada, seus hábitos hodiernos, seus horários,
suas usuais companhias. Não perderia tempo e logo hackearia suas conexões
virtuais, indo das redes sociais a simples e-mails inocentes. Tudo valeria para
aplacar a dor do consulente, aquele (ou aquela) que fez de tudo e viu que não
dava mais para segurar a onda, que não aguentaria o tranco, que entregava os
pontos e, sem pestanejar, assinaria o contrato para que ela movesse mundos e
fundos, até que a pessoa amada fosse devidamente achada e trazida para onde,
segundo quem procura, nunca deveria ter saído. Seria um desses empregos dos
sonhos esse seu, ela diz, num suspiro: estaria sob sua responsabilidade
devolver a felicidade e o sorriso a quem quer voltar a ser amado, a quem quer
redescobrir os caminhos do amor sincero. Sim, pois, não sei como, mas ela
haveria de achar um jeito de a pessoa amada também voltar a amar aquele que a
ama, já que, como sói acontecer nestes casos, houve um desencontro amoroso,
produzindo a perversa dinâmica de se ter um abandonante fortalecido e, por
conseguinte, um abandonado fragilizado. No pacote proposto na assinatura do
contrato, haveria esta garantia essencial: a pessoa amada voltaria, sim, e
voltaria amando mais e melhor do que antes, porque em negócios que envolvem os
sentimentos dos outros, a reciprocidade é cláusula intocável que não se pode
desconsiderar, e deveria ser por todas as leis protegida, por mais impossível e
absurda que seja a missão de trazer de volta, como se fosse a primeira vez, o
amor. Uma fofa, essa minha amiga.
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