segunda-feira, 26 de novembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 2

Eu tenho uma amiga que jura não acreditar em horóscopos e coisas do gênero, mas que ficou cismada com um destes cartazes presos aos postes, em que certa Madame Valéria prometia trazer a pessoa amada em até três dias. Missão impossível? Gostaria que não fosse. Não deu tempo para ver quanto ela cobrava por consulta – ela estava no trânsito, o sinal abriu, e teve que seguir em frente, sem saber se acreditava ou não na promessa que fascina pela impossibilidade, por si só, há tanto tempo. Com o pé no acelerador, continuou cismada e me confidenciou outro dia: eis uma profissão que, se lhe fosse dada a chance de escolher, ela levaria a sério. Muito a sério Não se pode brincar com a esperança dos outros. Muito menos com a dor da solidão. Se prometesse trazer a pessoa amada, em qualquer prazo estipulado, dependendo do grau de dificuldade do amor perdido em questão, fá-lo-ia com toda a sua energia e respeito. Alguém tem que trazer a pessoa amada de volta, alguém tem que fazer este trabalho. Se possível em apenas um dia, pois, sabemos, 24 horas a mais é uma eternidade insuportável para quem espera. Para tanto, ela me contou que teria uma equipe enorme de especializados agentes da CIA (Central de Investigação Amorável), buscando, vasculhando cada cantinho da cidade, onde o amor perdido poderia ser descoberto e reendereçado ao faltante amante desamparado. A polícia, em convênio afetivo, efetivamente colaboraria, colocando à sua disposição, blitzes nas principais rodovias, a fim de que o amor querido não fuja do amor querente, num desses carrões reluzentes, de vidros escuros, onde amores perdidos costumam se esconder, carentes. Acionaria vizinhas desocupadas, amigas fofoqueiras de bom coração e porteiros com vocação para Sherlock – todos lhe enviariam detalhados relatórios sobre os movimentos supostos da pessoa procurada, seus hábitos hodiernos, seus horários, suas usuais companhias. Não perderia tempo e logo hackearia suas conexões virtuais, indo das redes sociais a simples e-mails inocentes. Tudo valeria para aplacar a dor do consulente, aquele (ou aquela) que fez de tudo e viu que não dava mais para segurar a onda, que não aguentaria o tranco, que entregava os pontos e, sem pestanejar, assinaria o contrato para que ela movesse mundos e fundos, até que a pessoa amada fosse devidamente achada e trazida para onde, segundo quem procura, nunca deveria ter saído. Seria um desses empregos dos sonhos esse seu, ela diz, num suspiro: estaria sob sua responsabilidade devolver a felicidade e o sorriso a quem quer voltar a ser amado, a quem quer redescobrir os caminhos do amor sincero. Sim, pois, não sei como, mas ela haveria de achar um jeito de a pessoa amada também voltar a amar aquele que a ama, já que, como sói acontecer nestes casos, houve um desencontro amoroso, produzindo a perversa dinâmica de se ter um abandonante fortalecido e, por conseguinte, um abandonado fragilizado. No pacote proposto na assinatura do contrato, haveria esta garantia essencial: a pessoa amada voltaria, sim, e voltaria amando mais e melhor do que antes, porque em negócios que envolvem os sentimentos dos outros, a reciprocidade é cláusula intocável que não se pode desconsiderar, e deveria ser por todas as leis protegida, por mais impossível e absurda que seja a missão de trazer de volta, como se fosse a primeira vez, o amor. Uma fofa, essa minha amiga.

Nenhum comentário:

Postar um comentário