Assim como o Joaquim, eu tenho
uma amiga que resolveu construir um novo self para si mesma e se trancou em casa
por semanas até chegar a conclusões do tipo viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado,
errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais
uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estamos
errados. Ela se reconhece como uma mulher"vazia de si". Reconhece a
eterna luta humana para chegar a seu centro. Reconhece, ao mesmo tempo, o
fracasso dessa luta. Por fim, é capaz de reconhecer que esse fracasso, em vez
de improdutivo, é produtivo. É dele, e da teimosia em resolver o que não se
resolve, que tiramos alguma coisa. É assim, ela me diz, ao pé da minha orelha
esquerda, que continuamos vivos. Acreditei. Não se duvida da palavra de uma
mulher, assim, tão decidida, tão segura de suas convicções, ainda mais quando te mira com tais olhos de cristais. Sempre tento
transmitir isso em minhas tentativas literárias: que não devemos acreditar em nossas
certezas. A literatura não é feita de certezas, mas de incertezas. A escrita é
uma espécie de cola (inoperante) com que tentamos vedar o desacordo entre o que
pensamos ser e o que somos. Conseguimos isso? Não. Mas o esforço nos move e nos
leva a escrever. A viver. É o que importa. Escrever não é encher-se (de si),
mas esvaziar-se. Como eu, esta mulher também escreve para viver mais
duplamente; por isso, estamos acostumados a falar a respeito do esgotamento
infernal _ como o sugar de um vampiro _ que o trabalho da escrita nos provoca. É
a rotina da escrita que nos descobre o duplo: há um desgaste, e mais outro, e
ainda outro. O que interessa, talvez, não seja o texto, mas o processo. O
caminho. O texto é um resto do que se tentou dizer e não se conseguiu dizer.
Uma ficção é, sempre, outra coisa. Como uma fotografia, que nunca consegue
expressar a experiência de uma viagem. Mas tentamos. E ela então me falou de um
texto, escrito para um amor que ela supunha esquecido, expurgado, exilado,
alguém que ela não queria mais em sua vida. "Isso não é meu", ela
insistia. "Mas foi
você quem escreveu", eu respondi, na minha profunda ignorância sobre a
alma feminina. "Não importa, não é meu, não me pertence", retrucou. Disse
que, se aceitasse a ideia de que fora a autora de uma carta tão amorável,
passaria a acreditar em fantasmas, em vozes do além e em extra-terrestres. Estaria,
então, empenhada em contactar a origem longínqua das palavras, seus mistérios,
suas infinitas possibilidades de transmitir o indizível – um amor que se perdeu
no tempo, como lágrimas na chuva. Não precisava ir tão longe, hoje eu consigo
pensar. Bastaria que se debruçasse sobre o mundo dos sentimentos, o grande rio
que nos arrasta para longe de nós. Esse arrastar - essa flutuação inexorável,
mas bela - é a aceitação da existência paradoxal de tudo o que poderia ter sido
e não foi.

Nando Querido, nunca tinha parado para pensar que escrever é justamente isso: "não é encher-se (de si), mas esvaziar-se". Lembrou-me o filme do Jean-Claude Lauzon: Léolo. O pequeno personagem dizia que não era louco justamente porque escrevia.
ResponderExcluirPS: Gostei da foto. A felicidade é azul! :-)