sexta-feira, 23 de novembro de 2012

MINHAS AMIGAS


Assim como o Joaquim, eu tenho uma amiga que resolveu construir um novo self para si mesma e se trancou em casa por semanas até chegar a conclusões do tipo viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estamos errados. Ela se reconhece como uma mulher"vazia de si". Reconhece a eterna luta humana para chegar a seu centro. Reconhece, ao mesmo tempo, o fracasso dessa luta. Por fim, é capaz de reconhecer que esse fracasso, em vez de improdutivo, é produtivo. É dele, e da teimosia em resolver o que não se resolve, que tiramos alguma coisa. É assim, ela me diz, ao pé da minha orelha esquerda, que continuamos vivos. Acreditei. Não se duvida da palavra de uma mulher, assim, tão decidida, tão segura de suas convicções, ainda mais quando te mira com tais olhos de cristais. Sempre tento transmitir isso em minhas tentativas literárias: que não devemos acreditar em nossas certezas. A literatura não é feita de certezas, mas de incertezas. A escrita é uma espécie de cola (inoperante) com que tentamos vedar o desacordo entre o que pensamos ser e o que somos. Conseguimos isso? Não. Mas o esforço nos move e nos leva a escrever. A viver. É o que importa. Escrever não é encher-se (de si), mas esvaziar-se. Como eu, esta mulher também escreve para viver mais duplamente; por isso, estamos acostumados a falar a respeito do esgotamento infernal _ como o sugar de um vampiro _ que o trabalho da escrita nos provoca. É a rotina da escrita que nos descobre o duplo: há um desgaste, e mais outro, e ainda outro. O que interessa, talvez, não seja o texto, mas o processo. O caminho. O texto é um resto do que se tentou dizer e não se conseguiu dizer. Uma ficção é, sempre, outra coisa. Como uma fotografia, que nunca consegue expressar a experiência de uma viagem. Mas tentamos. E ela então me falou de um texto, escrito para um amor que ela supunha esquecido, expurgado, exilado, alguém que ela não queria mais em sua vida. "Isso não é meu", ela insistia. "Mas foi você quem escreveu", eu respondi, na minha profunda ignorância sobre a alma feminina. "Não importa, não é meu, não me pertence", retrucou. Disse que, se aceitasse a ideia de que fora a autora de uma carta tão amorável, passaria a acreditar em fantasmas, em vozes do além e em extra-terrestres. Estaria, então, empenhada em contactar a origem longínqua das palavras, seus mistérios, suas infinitas possibilidades de transmitir o indizível – um amor que se perdeu no tempo, como lágrimas na chuva. Não precisava ir tão longe, hoje eu consigo pensar. Bastaria que se debruçasse sobre o mundo dos sentimentos, o grande rio que nos arrasta para longe de nós. Esse arrastar - essa flutuação inexorável, mas bela - é a aceitação da existência paradoxal de tudo o que poderia ter sido e não foi.

Um comentário:

  1. Nando Querido, nunca tinha parado para pensar que escrever é justamente isso: "não é encher-se (de si), mas esvaziar-se". Lembrou-me o filme do Jean-Claude Lauzon: Léolo. O pequeno personagem dizia que não era louco justamente porque escrevia.
    PS: Gostei da foto. A felicidade é azul! :-)

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