quinta-feira, 8 de novembro de 2012

TORVELINHO


Na difícil procura do amor, a gente se machuca, chora, chama pela mãe, bate o telefone, procura o melhor amigo e depois briga com ele porque ele não entendeu nada, faz terapia, escreve o dia na agenda e depois rabisca, liga a televisão e não vê, deixa de estudar para a prova, conta piada para fingir que está tudo bem, chora por qualquer coisa, se desespera, espera o telefone tocar e quando ele toca não atende ou demora para atender, toma coca com vodka, relê cartas antigas e as queima, escreve novas e não as manda, compra roupa, inventa um passatempo sem graça – porque a vida está sem graça – come cebola com beterraba e acha ótimo, rói as unhas, implica com o irmão mais novo (quando o tem), fala mais que devia e se arrepende depois, arruma o armário, dá vexame no restaurante, perde o sonho, desaprende a sonhar, vende o almoço para comprar a janta, não tá nem aí para nada, tá aí para tudo, pega chuva, toma sorvete, fica gripado, tira poeira da capa do Batman, marca e não vai, acha tudo errado, faz fofoca, ri na cara, briga com a tia, bate a porta, chuta os livros, ouve James Taylor o dia inteiro, tenta fazer arroz e queima (e come assim mesmo), gasta dinheiro, recorta jornal, fala em código, manda um torpedo inesperado, recebe uma resposta mais inesperada ainda, escreve um texto imenso e então deleta tudo, usa óculos escuros mesmo dentro do elevador, sente raiva de lembrar de tanta coisa inútil, fica na dúvida sobre a dosimetria da saudade específica, revê pela enésima vez Um Lugar Chamado Notting Hill, vibra com a reeleição de Obama, toma água com bolinha, come nuggets com molho barbecue, joga papel pedra tesoura Spock, acha que não dá e perde as esperanças para, depois, enfim, as redescobrir num canto inesperado do coração, subitamente vago por algum aluguel vencido no ultimate fighting de a manter na morada, e entende finalmente que o sofrimento só existe porque teimamos a não aceitar os fatos...

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