Na difícil procura do amor, a
gente se machuca, chora, chama pela mãe, bate o telefone, procura o melhor
amigo e depois briga com ele porque ele não entendeu nada, faz terapia, escreve
o dia na agenda e depois rabisca, liga a televisão e não vê, deixa de estudar
para a prova, conta piada para fingir que está tudo bem, chora por qualquer
coisa, se desespera, espera o telefone tocar e quando ele toca não atende ou
demora para atender, toma coca com vodka, relê cartas antigas e as queima,
escreve novas e não as manda, compra roupa, inventa um passatempo sem graça – porque a
vida está sem graça – come cebola com beterraba e acha ótimo, rói as unhas,
implica com o irmão mais novo (quando o tem), fala mais que devia e se arrepende depois, arruma o
armário, dá vexame no restaurante, perde o sonho, desaprende a sonhar, vende o
almoço para comprar a janta, não tá nem aí para nada, tá aí para tudo, pega chuva, toma
sorvete, fica gripado, tira poeira da capa do Batman, marca e não vai, acha
tudo errado, faz fofoca, ri na cara, briga com a tia, bate a porta, chuta os
livros, ouve James Taylor o dia inteiro, tenta fazer arroz e queima (e come
assim mesmo), gasta dinheiro, recorta jornal, fala em código, manda um torpedo
inesperado, recebe uma resposta mais inesperada ainda, escreve um texto imenso
e então deleta tudo, usa óculos escuros mesmo dentro do elevador, sente raiva
de lembrar de tanta coisa inútil, fica na dúvida sobre a dosimetria da saudade específica, revê pela
enésima vez Um Lugar Chamado Notting Hill, vibra com a reeleição de Obama, toma
água com bolinha, come nuggets com molho barbecue, joga papel pedra tesoura Spock, acha que não dá e perde as esperanças para, depois, enfim, as redescobrir num canto
inesperado do coração, subitamente vago por algum aluguel vencido no ultimate fighting de a manter na morada, e entende finalmente que o sofrimento só existe porque teimamos a não aceitar os fatos...
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