Eu tenho uma amiga que me
disse querer ter uma máquina de apagar memórias de amor (e também memórias de
toda natureza), sem saber que ela já está instalada na mente de cada um de nós,
e que somos senhores de seu funcionamento, seja num âmbito racional, seja por
forças das maquinações do inconsciente sob o abalo das emoções. Essa minha
amiga ainda não sabe que, durante a vida, há momentos que decidimos, mais ou
menos lucidamente, esquecer o outro. Ela ainda não sabe, mas o trabalho mais
efetivo é o que se faz a partir da decisão de expulsar, na forma de sublimação,
aquilo que de mais doloroso existe numa relação, e também o que há de mais
belo, até o ponto de se matar a existência do amado algoz que, ao fim do
processo (quando se consegue encontrar um fim), torna-se uma não pessoa. Ela
virá a saber, em breve, muito breve, que os sonhos simplesmente acabam por
falta de verba ou cacife emocional, que os momentos de profunda emoção sofrem
erosão progressiva; um rosto que foge, transfigura-se, derrete-se como cera; um
corpo que foge do alcance, que escorrega por rochas e é limado do cardápio
afetivo, que corre através de labirintos ora alcançáveis, ora diabólicos, num
jogo intermitente que nos faz acordar com o peito pesado de angústia e de medo
de esvaziar-se o próprio alimento da alma. Até que um dia, acorda-se com uma
estranha paz, uma paz de anestesia, que acusa a existência da ferida, sem que
se saiba a sua localização. Como uma pontada numa cicatriz que não mais existe. A ferida, contudo, jamais cessa por completo, o que
nos expõe (ela deve ser informada disso também) ao assalto da materialização
espectro-quântica em pleno dia ou, pior, no meio da noite, dos fantasmas
afetivos de seu passado. Isto é um alerta para o maior dos riscos: o de
replicarmos, involuntariamente, o amor que demonizamos e exorcizamos, para o
recebermos de volta vertido em monstro, reconfigurando todo o drama que se
acreditou sepultado em algum lugar dentro de nós mesmos. Assim, há o risco de
ampliar-se o drama, repetido indefinidamente como eco polifônico de culpas e
humilhações, num teatro que sabe à eternidade. Essa minha amiga que agora sofre
há de se dar conta que, se por um lado somos senhores do processo de perda da
memória, ou das distorções que tornam o passado mais ou menos doloroso, por
outro, não somos senhores de nada, pois a memória acaba voltando na
arrebentação do mar da saudade, mas sob a forma liliputiana de uma pequena vaga
ecoando a dor outrora vivida. Ela, que gosta de dormir com uma camisola de
seda, sentirá na pele a maciez do tecido como também as travas perfurocortantes
do mistério que não explica como iniciamos o apagamento que sublima uma dor, ao
mesmo tempo que nos transformamos em mestres de seu retorno, os senhores do
solitário masoquismo que termina por nos isolar da realidade para nos lançar
nas profundezas do real indizível, do horripilante fosso vazio da existência,
ali onde nada se explica e tudo faz sentido, no esforço sobre-humano de
entender que a dor pode terminar se, paradoxalmente, celebrarmos o alívio de
nos vermos livres de um amor que também nos maltratou injustamente.

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