sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 5

Eu tenho uma amiga que me disse quase chorando que esteve muito doente este ano e que a doença tinha nome, sobrenome, CPF, RG e endereço certo e consabido. Ela disse que sofreu, pois não sabia se havia remédio que a curasse nem esperança que a aliviasse da dor de achar que tudo aquilo não ia mais acabar. Essa minha amiga é muito bonita. Tirou as sandálias como se fosse a coisa mais natural do mundo e destampou o garrafão da narrativa. Olhei-a, à medida que escandia as sílabas. Feição por feição, a análise concluiria por aquele tipo de fisionomia que está tão perto da beleza como da felicidade. Uma coisa. Ela chorava um pouco e, neste momento, não a prejudicava estar pintada. Tinha o rosto luzidio, típico das pessoas que sofreram silentemente, um olhar que mirou batalhas que ela não tinha que lutar. Mas de toda ela se desprendia uma sedução absorvente que se misturava ao castanho-escuro dos olhos, os cabelos pretos, presos, num coque, por uma caneta (ela nunca saberá como eu achava isso lindo...). O rosto tinha, em momentos de cansaço, uma dureza que não combinava com ela, especialmente ao redor da boca e no contorno dos olhos, mas que ela sabia, com uma ligeira transformação, torná-lo acariciante e sedutor. Segurei-a com os braços esticados, afastando-a um pouco – minha amiga pertencia ao tipo de mulheres que atraem pelas formas do corpo e, da cabeça aos pés, irradiava sensualidade. Era bastante hábil para provocar em si própria um frêmito que deixava-nos, nós, os homens, sem raciocínio, impossibilitados de nos defender daquilo que supúnhamos ser natural, daquela onda dissimulada em que nos afogávamos, julgando-a verdadeira. Minha amiga sabia. Tudo eram cartas de seu jogo – e seu corpo, trêmulo e arfante, delgado como um junco e vibrante como uma vara de aço, o seu maior trunfo, juntamente com a inteligência rápida, meio desconcertante. Mas havia ainda o vestígio da dor imensa que 2012 lhe proporcionou em doses generosas e, convenhamos, injustas. A doença que não ousava dizer seu nome a castigou a ponto de perder as referências mais caras, as inesquecíveis. Deixou-a sozinha, descrente, perdida. Não raro, sentia o coração como um sorvete de sangue amargo derretendo-se dentro de si mesma, enquanto, para o mundo exterior, se via obrigada a espargir palavras doces, que chegavam a provocar filetes de mel que se lhe escorriam pela boca perfeita. Minha amiga tomou todos os remédios disponíveis para debelar a doença que tinha nome e sobrenome que lhe consumia os dias e, principalmente, as noites, quando os fantasmas se redimensionam e os medos nos engolem com suas bocarras banguelas. Mesmo assim, essa minha amiga me contou tudinho, todos esses detalhes tão pequenos que são coisas muito grandes de esquecer, enquanto contemplava, sorrindo sutilmente, os pés descalços (e perfeitos), assentes no tapete.

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