sábado, 22 de dezembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 7


Eu tenho uma amiga que acha que pode vivenciar uma paz fabricada.Para tal, toma alguns cuidados, além dos que já tem com a pele e os cabelos: não assiste mais a qualquer episódio de Friends, emoldura o espelho do banheiro com notas adesivas que a lembram que ela é maravilhosa e não tem por que sofrer, evita um nome próprio bem comum e qualquer outro que lhe possa remeter a ele, não passa em algumas ruas e se esforça (como confessou) para esquecer certas pessoas, certas atitudes, alguns dias do calendário de sua vida. Ela me disse que pode, sim, construir esta paz tão sonhada à sua volta, até mesmo dentro dela, por uma simples razão de sobrevivência emocional. Ou constrói este bunker de tranquilidade ou a vida se complica de vez. Simples assim. Perguntei-lhe se uma paz assim não seria o resultado de um esquecimento que só viria com o tempo. Ela riu e olhou para cima (faz parte do processo) e respondeu que, claro, não sabia se viria a esquecer o que devia. Ninguém sabe se esquece antes de esquecer. Se fosse possível sabê-lo antes, muitas coisas de solução difícil a teriam fácil. Cutuquei a onça com vara curta: e se ela não conseguisse fabricar esta paz perfeita, sem prazo de validade e seguro contra roubo? Percebi que minha amiga se alterou: suas mãos se moveram, com algum nervosismo, em direção à bolsa, onde guardava coisas. A meio do movimento, porém, retraíram-se, perderam-se – como se esqueceram do que iam fazer. E não só as mãos denunciavam perplexidade. Com meus olhos tristes, vi perfeitamente a imagem do rosto de alguém que chegou a uma encruzilhada onde não há indicações ou onde os letreiros estão escritos numa língua desconhecida. Ao redor, o deserto, ninguém que lhe dissesse “por aqui...”. Minha amiga certamente tinha medo de não atingir a paz que idealizara, pois dela dependem o amor e o desamor. Ambos apostam num roteiro de premissas analíticas. Ambos têm frases calcadas numa relação de causa e efeito. Ambos sugerem que o esquecimento é uma equação de improbabilidades, na qual o valor de X a ser descoberto é a possibilidade de um final feliz para uma história nem tanto. Esta minha amiga, na realidade, não tem motivo para se preocupar. Terá a sua paz desejada, em breve, muito breve, pois transita íntima entre as deusas gregas e em qualquer concurso apaixonado, terá dez no decote, dez no contorno dos quadris e dez sobre os atrativos físicos e intelectuais de uma das mais belas e perspicazes fêmeas da cidade.

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