Eu tenho uma amiga que acha
que pode vivenciar uma paz fabricada.Para tal, toma alguns cuidados, além dos
que já tem com a pele e os cabelos: não assiste mais a qualquer episódio de
Friends, emoldura o espelho do banheiro com notas adesivas que a lembram que
ela é maravilhosa e não tem por que sofrer, evita um nome próprio bem comum e
qualquer outro que lhe possa remeter a ele, não passa em algumas ruas e se
esforça (como confessou) para esquecer certas pessoas, certas atitudes, alguns
dias do calendário de sua vida. Ela me disse que pode, sim, construir esta paz
tão sonhada à sua volta, até mesmo dentro dela, por uma simples razão de
sobrevivência emocional. Ou constrói este bunker de tranquilidade ou a vida se
complica de vez. Simples assim. Perguntei-lhe se uma paz assim não seria o
resultado de um esquecimento que só viria com o tempo. Ela riu e olhou para
cima (faz parte do processo) e respondeu que, claro, não sabia se viria a
esquecer o que devia. Ninguém sabe se esquece antes de esquecer. Se fosse
possível sabê-lo antes, muitas coisas de solução difícil a teriam fácil.
Cutuquei a onça com vara curta: e se ela não conseguisse fabricar esta paz
perfeita, sem prazo de validade e seguro contra roubo? Percebi que minha amiga
se alterou: suas mãos se moveram, com algum nervosismo, em direção à bolsa,
onde guardava coisas. A meio do movimento, porém, retraíram-se, perderam-se –
como se esqueceram do que iam fazer. E não só as mãos denunciavam perplexidade.
Com meus olhos tristes, vi perfeitamente a imagem do rosto de alguém que chegou
a uma encruzilhada onde não há indicações ou onde os letreiros estão escritos
numa língua desconhecida. Ao redor, o deserto, ninguém que lhe dissesse “por
aqui...”. Minha amiga certamente tinha medo de não atingir a paz que
idealizara, pois dela dependem o amor e o desamor. Ambos apostam num roteiro de
premissas analíticas. Ambos têm frases calcadas numa relação de causa e efeito.
Ambos sugerem que o esquecimento é uma equação de improbabilidades, na qual o
valor de X a ser descoberto é a possibilidade de um final feliz para uma
história nem tanto. Esta minha amiga, na realidade, não tem motivo para se
preocupar. Terá a sua paz desejada, em breve, muito breve, pois transita
íntima entre as deusas gregas e em qualquer concurso apaixonado, terá dez no
decote, dez no contorno dos quadris e dez sobre os atrativos físicos e intelectuais
de uma das mais belas e perspicazes fêmeas da cidade. sábado, 22 de dezembro de 2012
MINHAS AMIGAS - 7
Eu tenho uma amiga que acha
que pode vivenciar uma paz fabricada.Para tal, toma alguns cuidados, além dos
que já tem com a pele e os cabelos: não assiste mais a qualquer episódio de
Friends, emoldura o espelho do banheiro com notas adesivas que a lembram que
ela é maravilhosa e não tem por que sofrer, evita um nome próprio bem comum e
qualquer outro que lhe possa remeter a ele, não passa em algumas ruas e se
esforça (como confessou) para esquecer certas pessoas, certas atitudes, alguns
dias do calendário de sua vida. Ela me disse que pode, sim, construir esta paz
tão sonhada à sua volta, até mesmo dentro dela, por uma simples razão de
sobrevivência emocional. Ou constrói este bunker de tranquilidade ou a vida se
complica de vez. Simples assim. Perguntei-lhe se uma paz assim não seria o
resultado de um esquecimento que só viria com o tempo. Ela riu e olhou para
cima (faz parte do processo) e respondeu que, claro, não sabia se viria a
esquecer o que devia. Ninguém sabe se esquece antes de esquecer. Se fosse
possível sabê-lo antes, muitas coisas de solução difícil a teriam fácil.
Cutuquei a onça com vara curta: e se ela não conseguisse fabricar esta paz
perfeita, sem prazo de validade e seguro contra roubo? Percebi que minha amiga
se alterou: suas mãos se moveram, com algum nervosismo, em direção à bolsa,
onde guardava coisas. A meio do movimento, porém, retraíram-se, perderam-se –
como se esqueceram do que iam fazer. E não só as mãos denunciavam perplexidade.
Com meus olhos tristes, vi perfeitamente a imagem do rosto de alguém que chegou
a uma encruzilhada onde não há indicações ou onde os letreiros estão escritos
numa língua desconhecida. Ao redor, o deserto, ninguém que lhe dissesse “por
aqui...”. Minha amiga certamente tinha medo de não atingir a paz que
idealizara, pois dela dependem o amor e o desamor. Ambos apostam num roteiro de
premissas analíticas. Ambos têm frases calcadas numa relação de causa e efeito.
Ambos sugerem que o esquecimento é uma equação de improbabilidades, na qual o
valor de X a ser descoberto é a possibilidade de um final feliz para uma
história nem tanto. Esta minha amiga, na realidade, não tem motivo para se
preocupar. Terá a sua paz desejada, em breve, muito breve, pois transita
íntima entre as deusas gregas e em qualquer concurso apaixonado, terá dez no
decote, dez no contorno dos quadris e dez sobre os atrativos físicos e intelectuais
de uma das mais belas e perspicazes fêmeas da cidade.
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