segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 8

Eu tenho uma amiga que ficou um pouco desconcertada com o fim do mundo que não veio no dia 21 e tentou não deixar que ninguém percebesse tal decepção repetindo que não acreditaria nunca em crendices apocalípticas ou coisas do gênero. Na verdade, eu sei – porque a conheço a fundo – que ela não queria mesmo era passar as festas de final de ano com a cabeça em outro lugar, pensando coisas que nem às paredes confessaria. Ecoando em suas paredes internas, havia um desejo sem objeto, uma vontade de desejar e o temor de querer que a torturavam. Como ela é chegada a uma onda retrô, eu poderia descrever-lhe a dor imprecisa como um disco falhado que repete infinitamente uma frase musical, que de bela se torna odiosa pela simples e inexplicável repetição. Dez, cem vezes, as mesmas notas se sucedem, se entrelaçam, se confundem, e delas fica um som único, obsedante, terrível, implacável. Sente-se que um minuto só dessa obsessão será a loucura, mas o minuto passa, a obsessão continua e a loucura não vem. Em vez disso, a lucidez redobra, multiplica-se. Abandoná-la, quebrando o som, esmagá-lo sob o silêncio, seria a tranquilidade e a paz que não se compram em farmácias. Mas as palavras, as frases, os gestos erguem-se embaixo do silêncio e giram silenciosamente sem fim. No suposto fatídico dia 21, minha amiga, vendo mesmo que nada de mais ia acontecer com o mundo, foi às compras, fez as unhas, calibrou o corte do cabelo castanho e resolveu ocupar os compartimentos da memória não com o que havia passado, mas com o que ainda haveria de acontecer, conforme me disse entre um e outro gole de água mineral. Aí, então, eu lhe disse que ela estava se transformando para mim numa personificação da Literatura, pois o seu coração parecia estar sempre em outro lugar. Na zona de silêncio que a constitui e sustenta, a Literatura tem um centro vazio. É como uma rosca de alguma padaria fashion, um donuts semântico, cujas bordas saboreamos. A minha amiga me olhava com um jeito doce, sem dizer nada. A Literatura em mim se alimentava desse silêncio. Ou melhor: ela era a face visível deste silêncio. Se ela, linda e radiante, tinha desejado que o fim do mundo realmente acontecesse, tudo era possível. Todos carregamos um ruído incompreensível no peito. Não chegamos a ouvi-lo e nem temos certeza de onde exatamente ele vem. Muitas vezes, não passa de um murmúrio. Talvez seja o vestígio do silêncio, de que a Literatura se alimenta e que agora fazia minha amiga se integrar na minha vida, inevitavelmente.

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