Eu tenho uma amiga que faz
aniversário no dia 19 de dezembro. No entanto, o tempo, para ela, está sempre à
frente, nunca no mesmo dia em que ela está, tornando-a quase impossível de
tocar e só quase possível de ver, como as estrelas, mesmo aquelas que já morreram há
bilhões de anos, mas que ainda mantêm o brilho que nos engana e encanta viajando através
do universo tão longo quanto este período que acabei de escrever. Esta minha
amiga é um enigma. Faz-se presente na mais completa ausência e agudamente
ausente na mais onipresente presença. Dentro da sua órbita magnética, ri muito,
toma os melhores vinhos, aglutina as pessoas, mas também poderia fazer parte do
grupo de Elliot Ness, Os Intocáveis. É sofisticadamente simples e, no confronto
com o sexo masculino, vez por outra, solta uma daquelas frases habilmente
orquestradas para demolir a vaidade de um homem: “Para de me mandar estes
torpedos eróticos, hein?”, logo na lata, cobra semântica que sufoca antes da
mordida real. Para quem a escreve/descreve, o que pensa a dor de não tê-la, nesta busca de contato
com este outro mundo, com esta outra história onde ninguém entra sem licença da dona, esta minha
amiga se apresenta com um álibi (literalmente, em Latim, “estar em outro lugar”)
existencial, que pode ser lido deste modo: “Eu não sou aquela que é
atualmente...”. Usuária de interjeições, aqueles blocos femininos que vêm com
entonação especial e fazem a mulher também rebolar também na língua, ela
apresenta um discurso lógico e, ao mesmo tempo, contraditório, deixando o
interlocutor – geralmente eu – tendo que apelar para os neurônios no banco de
reserva e dar novos tratos à bola. Sim, pois tudo é um jogo, ou se parece como
tal, mas com regras que só ela sabe e que só confessou a quem desconfiava o que
se lhe passava no coração. Faz-nos ver, delicadamente, esta minha amiga, que
amar uma leoa é não poder amá-la – é aceitar o gozo da distância. Gosta de
sentar-se no sofá, cruzar as longas pernas, intercalar vinho tinto com goles d’água,
falar de cinema, de livros e ouvir quieta enquanto ouve um poema de Vinicius e faz planos para ver a árvore de Natal da Lagoa. No fim
da noite, costuma deixar claro que já não há mais lugar para as grandes
ilusões, mas ainda existe um espaço para os pequenos sonhos, que talvez sejam
muito mais devastadores e, por isso mesmo, devam ser manipulados com extremo
cuidado, como quem lida com orquídeas. Esta minha amiga sabe o poder que tem e
também sabe estabelecer limites no território do seu corpo e na vastidão de sua
alma. Seus blindados a protegem, seu radar a avisa, seus agentes secretos a
previnem de qualquer plano de penetrá-la – a segurança total é uma quimera
feminina constituinte de uma boa dose de experiência e desconfiança. É imperativo,
portanto, resguardar as partes boas, prezando o prazer da vida e a posse das
rédeas da mesma, embora sem deixar de observar, nas eventuais fraturas desta
grande muralha existencial, os riscos de um grande amor acontecer.

Nenhum comentário:
Postar um comentário