
A mulher passando perfume é um acontecimento precedido por outro que ninguém vê, que é o próprio banho. Enxuga-se minuciosamente, quase bailando com a toalha, trazendo-a para junto à pele com uma firmeza delicada, resguardando certas visões, certos ângulos que são só dela neste momento. Não tem pressa. Contempla o corpo no espelho do banheiro à procura de imperfeições que não existem, e conclui com autocrítica implacável que ainda precisa emagrecer aqui, engordar ali, empinando-se meio de lado e equilibrando-se nas pontas dos pés. Assim, esguia, lembra uma bailarina e chega mesmo a fazer um movimento clássico, que lhe acontece naturalmente e que ela reconhece como uma pose já incorporada ao seu repertório de gestos.
Está linda assim nua. Súbito, junta a toalha com as mãos e a traz apertada junto ao peito, roçando de leve o tecido com o queixo. Interrompe esse diálogo íntimo consigo mesma para começar a se vestir. Desejará colocar a roupa ali mesmo, no banheiro, e não no closet, onde costuma passar horas escolhendo o que irá usar. Mas não se importa – faz daquele cômodo apertado um amplo espaço para a operosa tarefa de aperfeiçoar a perfeição. Sim, constata, sem desânimo, que a beleza, às vezes, cansa.
Instintivamente, enrola-se na toalha e faz um movimento surpreendente: num átimo, abre os braços como se fosse pegar alguma coisa de grande volume. Mas logo se vê o seu verdadeiro intuito: passa rapidamente os dedos longos entre os cabelos molhados e chega a considerar a possibilidade de deixá-los assim, meio rebeldes, com a assimetria umedecida e inesperada. “Acho que vou cortar mais um pouco”, pensa, enquanto sacode os fios negros com incomum presteza.
(Ponho-me a pensar: o que guardam essas mulheres lindas nos cabelos? O que acariciam? O que desabrocham? Que companhia se fazem através de seus cabelos? Quantas horas do dia, da vida, dedica uma mulher a tecer e destecer paixões e esperas nesses fios...?)
Está tão serena e tão profundamente concentrada que, se estivéssemos no tempo dos antigos gregos, certamente transformar-se-ia numa deusa única e, em torno de si, nasceria um mito. Rivalizaria com Afrodite nos domínios do amor e da beleza e criaria uma nova instância estético-mitológica: a deusa se perfumando.
Pois é exatamente aí que esta mulher, flutuando entre a divindade e o traço feminino das mortais, torna-se a senhora de todas as essências. Estica o longo braço alvo até o armário e, de lá, tira um frasco cujo conteúdo asperge sobre o corpo com movimentos rápidos e precisos. As pequenas gotas caem sobre a pele como chuva num um jardim, produzindo uma sensação olfativa que se mistura com lembranças de uma praia, de uma música, de uma voz ao telefone, de uma cor que ela não saberia definir, mas que seria como a cor de um sonho bom do qual não se quer acordar.
Com os dedos, percorre o rosto, a nuca, o pescoço, os seios, as pernas, até chegar ao côncavo atrás dos joelhos. Estremece. Ainda envolvida pela cortina invisível do perfume, olha-se no espelho e distingue fragrâncias diferentes no ar. Franze a testa levemente, como a classificar mentalmente a origem de tantos perfumes que pareciam perdidos no tempo. Primeiro, reconhece o cheiro da infância e as brincadeiras com os irmãos naquela antiga casa em Olaria; depois, vem-lhe o cheiro das bonecas e da roupa de cama ao se deitar à noite. Chega a ouvir, durante este mosaico de aromas, sua mamãezinha lhe dizendo “Durma com Deus, minha filhinha!”, enquanto a olha ternamente nos olhos negros e lhe acarinha os cabelos com a mão sábia. Sente o cheiro do café buscando-a na calçada e, então, o bolo sobre a mesa da cozinha se materializa numa fragrância quase palpável. Vêm, gradativamente, o perfume alegre das festas e o aroma protetor do pai que, num abraço demorado, resguarda dos perigos do mundo, seu único e mais precioso dengo. Uma profusão de cheiros antigos passa a visitar-lhe a memória: cheiro de livro novo, cheiro de goiaba, cheiro de cachorro molhado, cheiro de chuva, cheiro de férias, cheiro de flores, cheiro de chocolate, cheiro de esmalte e até um certo cheiro de saudade que costumava vir dentro de cartas antigas. Então, de repente, percebe que, entre essas cartas, Deus – ou isso a que chamamos assim tão descuidadamente de Deus – havia lhe enviado um presente raro: a possibilidade do amor. Ou isso a que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. Com aquelas palavras escritas, sentia-se protegida: a vida toda, esses pedacinhos desconexos se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal lhe aconteceria, tinha certeza, enquanto tivesse dentro do campo magnético daquela pessoa que costumava terminar suas cartas com apenas uma letra: F.
A mulher volta-se para os perfumes da realidade. Olha para o espelho e compõe mentalmente o momento poético em que se transforma diariamente: as pulseiras, os anéis, os brincos delicados. O que faz com que, entre milhares de pulseiras que ela vê diariamente nas matérias das revistas de moda, nas lojas e nos pulsos das outras, ela escolha exatamente aqueles aros de prata para adornar as mãos lindas? O que possuem aquelas pulseiras a mais do que todas as outras que as tornam capazes de se encaixar com perfeição no intricado quebra-cabeça do desejo? Ela é assim: uma mistura harmoniosa de cheiro bom e cintilações, uma mulher que quer possuir os átomos do tempo e que sabe que o amor é como um brinquedo desejado cuja magia misteriosa tentamos decifrar desmontando-o.
Deixa-se cercar pelos silêncios da casa. Contempla-se no espelho: de onde viria aquele equilíbrio de luzes no seu rosto? Relê, com os olhos da memória, a carta de F. Diante da fria superfície refletida, sente o perfume amado e retoma esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente a seus olhos, há tanto tempo incapazes de ver: a possibilidade do amor.
Está linda assim nua. Súbito, junta a toalha com as mãos e a traz apertada junto ao peito, roçando de leve o tecido com o queixo. Interrompe esse diálogo íntimo consigo mesma para começar a se vestir. Desejará colocar a roupa ali mesmo, no banheiro, e não no closet, onde costuma passar horas escolhendo o que irá usar. Mas não se importa – faz daquele cômodo apertado um amplo espaço para a operosa tarefa de aperfeiçoar a perfeição. Sim, constata, sem desânimo, que a beleza, às vezes, cansa.
Instintivamente, enrola-se na toalha e faz um movimento surpreendente: num átimo, abre os braços como se fosse pegar alguma coisa de grande volume. Mas logo se vê o seu verdadeiro intuito: passa rapidamente os dedos longos entre os cabelos molhados e chega a considerar a possibilidade de deixá-los assim, meio rebeldes, com a assimetria umedecida e inesperada. “Acho que vou cortar mais um pouco”, pensa, enquanto sacode os fios negros com incomum presteza.
(Ponho-me a pensar: o que guardam essas mulheres lindas nos cabelos? O que acariciam? O que desabrocham? Que companhia se fazem através de seus cabelos? Quantas horas do dia, da vida, dedica uma mulher a tecer e destecer paixões e esperas nesses fios...?)
Está tão serena e tão profundamente concentrada que, se estivéssemos no tempo dos antigos gregos, certamente transformar-se-ia numa deusa única e, em torno de si, nasceria um mito. Rivalizaria com Afrodite nos domínios do amor e da beleza e criaria uma nova instância estético-mitológica: a deusa se perfumando.
Pois é exatamente aí que esta mulher, flutuando entre a divindade e o traço feminino das mortais, torna-se a senhora de todas as essências. Estica o longo braço alvo até o armário e, de lá, tira um frasco cujo conteúdo asperge sobre o corpo com movimentos rápidos e precisos. As pequenas gotas caem sobre a pele como chuva num um jardim, produzindo uma sensação olfativa que se mistura com lembranças de uma praia, de uma música, de uma voz ao telefone, de uma cor que ela não saberia definir, mas que seria como a cor de um sonho bom do qual não se quer acordar.
Com os dedos, percorre o rosto, a nuca, o pescoço, os seios, as pernas, até chegar ao côncavo atrás dos joelhos. Estremece. Ainda envolvida pela cortina invisível do perfume, olha-se no espelho e distingue fragrâncias diferentes no ar. Franze a testa levemente, como a classificar mentalmente a origem de tantos perfumes que pareciam perdidos no tempo. Primeiro, reconhece o cheiro da infância e as brincadeiras com os irmãos naquela antiga casa em Olaria; depois, vem-lhe o cheiro das bonecas e da roupa de cama ao se deitar à noite. Chega a ouvir, durante este mosaico de aromas, sua mamãezinha lhe dizendo “Durma com Deus, minha filhinha!”, enquanto a olha ternamente nos olhos negros e lhe acarinha os cabelos com a mão sábia. Sente o cheiro do café buscando-a na calçada e, então, o bolo sobre a mesa da cozinha se materializa numa fragrância quase palpável. Vêm, gradativamente, o perfume alegre das festas e o aroma protetor do pai que, num abraço demorado, resguarda dos perigos do mundo, seu único e mais precioso dengo. Uma profusão de cheiros antigos passa a visitar-lhe a memória: cheiro de livro novo, cheiro de goiaba, cheiro de cachorro molhado, cheiro de chuva, cheiro de férias, cheiro de flores, cheiro de chocolate, cheiro de esmalte e até um certo cheiro de saudade que costumava vir dentro de cartas antigas. Então, de repente, percebe que, entre essas cartas, Deus – ou isso a que chamamos assim tão descuidadamente de Deus – havia lhe enviado um presente raro: a possibilidade do amor. Ou isso a que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. Com aquelas palavras escritas, sentia-se protegida: a vida toda, esses pedacinhos desconexos se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal lhe aconteceria, tinha certeza, enquanto tivesse dentro do campo magnético daquela pessoa que costumava terminar suas cartas com apenas uma letra: F.
A mulher volta-se para os perfumes da realidade. Olha para o espelho e compõe mentalmente o momento poético em que se transforma diariamente: as pulseiras, os anéis, os brincos delicados. O que faz com que, entre milhares de pulseiras que ela vê diariamente nas matérias das revistas de moda, nas lojas e nos pulsos das outras, ela escolha exatamente aqueles aros de prata para adornar as mãos lindas? O que possuem aquelas pulseiras a mais do que todas as outras que as tornam capazes de se encaixar com perfeição no intricado quebra-cabeça do desejo? Ela é assim: uma mistura harmoniosa de cheiro bom e cintilações, uma mulher que quer possuir os átomos do tempo e que sabe que o amor é como um brinquedo desejado cuja magia misteriosa tentamos decifrar desmontando-o.
Deixa-se cercar pelos silêncios da casa. Contempla-se no espelho: de onde viria aquele equilíbrio de luzes no seu rosto? Relê, com os olhos da memória, a carta de F. Diante da fria superfície refletida, sente o perfume amado e retoma esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente a seus olhos, há tanto tempo incapazes de ver: a possibilidade do amor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário