sexta-feira, 5 de outubro de 2007

MULHER RECEBENDO FLORES


Subiu as escadas com as flores que acabara de ganhar. Eram três buquês coloridos, tantas flores que quase não enxergava os degraus. Estava feliz. Pelas flores, pela surpresa de as receber assim no fim da noite, quando muita gente já não espera mais que nada aconteça para alegrar a vida, para semear esperança. Enquanto subia cuidadosamente as escadas, também sentiu uma felicidade diferente por poder carregar tantas flores assim, depois de um dia cansativo de trabalho estressante e os inevitáveis afazeres domésticos. Poder carregar tantas flores não apenas fisicamente, mas poder merecê-las, poder aninhá-las junto ao peito e incorporá-las à vida. Uma vida repleta de flores. Assim ele, que as entregou, quisera para ela.
Depositou os buquês sobre a mesa da sala. Buscou, rápido, na memória, onde estava a jarra maior. Súbito, se deu conta que há muito não enchia aquela jarra com flores. Vazia por tanto tempo era, por assim dizer, um símbolo do nada que invadira insidiosamente sua vida, sua rotina, seus planos. Desfez o laço vermelho e retirou o plástico que protegia os caules. Cortou, cuidadosamente, as extremidades, na diagonal, como sempre fizera, para que sobrevivessem por mais tempo. Colocou água na jarra, junto com um pouco de açúcar. Ao fazer isso, lembrou-se que ele, um dia, ao vê-la na mesma função, havia estranhado a água açucarada e que tinha até dito que, por mais que tal procedimento ajudasse a sobrevida das flores, era uma providência desnecessária: bastaria às flores o toque daquelas mãos delicadas, por cujas pontas dos dedos, através de misteriosa transmutação, vertiam uma substância similar ao mais dulcíssimo mel - especialmente quando lhe acariciavam o rosto, dando-lhe a sensação de que uma seda finíssima se lhe tocava a pele. Ela sentiu a lembrança entrecortando-lhe o coração em duas partes – uma com aquele homem que sempre amou e outra, sem ele. Por um instante, então, estremeceu.
Arrumou as flores no jarro e o colocou no centro da mesa de madeira escura da sala. Tantas eram as flores, as cores, os aromas, que ela se sentiu mesmo num jardim. A casa, em silêncio, pois já era mais de meia-noite, parecia mesmo um castelo e a moça de olhos de cristal se permitiu sentir como se fosse uma princesa de verdade, dona de um vasto reino de carinho, amada por um plebeu. Não se importou com o horário daquelas flores noturnas. Eram bem-vindas, não importava a hora, não importava quando, não importava porque. Lembrou-se que havia uma flor rara, dessas que passam para o nível mitológico, que só floresce à noite, só aparece na primeiras horas e madrugada. Na infância, entre os contos de fadas que mais gostava, havia uma história de uma princesa que dedicava sua vida, dedicava sua jovem energia, a procurar esta misteriosa flor noturna que supostamente nasceria num vale distante e perigoso. Segundo um feitiço encomendado por princesas rivais e invejosas, caberia a esta princesa perseguir a flor até o fim dos seus dias, sem poder encontrá-la, num suplício parecido com o de Tântalo, gerando sofrimento e frustração.
Ficou emocionada ao dar-se conta que, ao receber aquelas flores numa hora tão improvável, ela devia se sentir como a tal princesa que buscava a flor rara e, por fim, a encontrava – feliz e completa. E mais: não tinha apenas uma flor, mas várias, inúmeras, que ela agora contemplava como um tesouro redescoberto. Nem precisou sair de casa – aquele homem que a amava as trouxe diligentemente, incondicionalmente, de longe, como um mensageiro da paz que ela merecia. Ele, com seu romantismo quase infantil e anacrônico, já a havia comparado a uma princesa antes. Ela, sem dúvida, gostava, e balançava a cabeça como se dissesse “ele não tem jeito mesmo”. Mas agora, no meio da noite, naquele momento em que chegamos a duvidar se somos ou não amados de verdade, ela dispunha de várias provas, várias pétalas, vários perfumes assegurando-lhe que sim, ele a amava, e seria capaz de lhe trazer flores a qualquer momento, inesperadamente, para que não pairasse dúvida sobre o que sentia.
Dando a última arrumação nos buquês, ela sorriu e, mordendo levemente o lábio, balançou a cabeça e pensou: ele não tem jeito...
Apagou a luz da sala e foi dormir com a sensação única que o amor não é mesmo ruidoso. Seu acolhimento é tranqüilo e silente. Sutil, se movimenta lentamente por trás das portas da percepção, nos desvãos das palavras escritas, entre as cortinas da saudade e, de repente, explode.

Nenhum comentário:

Postar um comentário