Entre
as pessoas da rua da cidade cinza, ela nem percebeu direito quando letras de
mel, assopradas sem desassombro por um vento súbito, afagaram-lhe os cabelos.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
O CÉU SOBRE BERLIN
Ele
sai do cinema com a sensação de que o chão fugia aos seus pés. Tinha acabado de
assistir, mais uma vez, a “Asas do Desejo”, de Wim Wenders. O sol frio da
memória ilumina as ruas da cidade, então vazias e silenciosas, como se tivessem
sido varridas por uma bomba de nêutrons. Ao fundo da mente, ao mesmo tempo
confusa e aliviada, Elton canta a sua canção, enquanto quadros do filme se diluem
em cenas como na qual um anjo apaixonado, Damiel, arrasta uma asa por uma
trapezista de circo, Marion, e paga um preço alto por este amor: a mortalidade.
Seus colegas anjos são visíveis apenas por crianças e, vestindo longos
sobretudos pretos, voam por uma Berlim Ocidental em preto e branco, seguindo
seus habitantes e ouvindo-lhes os pensamentos. Quando estes se tornam muito
sombrios, os anjos intervêm, e um toque providencial de suas mãos muda o rumo
do monólogo interior. É exatamente assim que Damiel é capturado pelo coração de
Marion. Ele a escuta refletir: “Dizem que o tempo cura, mas e se o tempo for a
doença?”. Um pensamento assim, tão doído, é mesmo de arrepiar as penas, e
Damiel começa a sentir que só pode mesmo amar aquela mulher. Enquanto decide
seu destino de mortal, uma cena corta para o interior de um vagão de metrô,
onde vários pensamentos são entreouvidos. Um último passageiro pensa em
desistir. Os pais o abandonaram, o amigo mudou-se de Berlim, a mulher o deixou
e os filhos fazem chacota de sua gagueira. Damiel toca o ombro do pobre homem,
e ele subitamente pensa: “Posso sair desta situação, só depende de mim”. A cena
é linda e não sai do seu perímetro de consciência, enquanto passa pelas pessoas
na rua, todas incapazes de saber como ele se sente naquele momento. As
sequências do filme se misturam à realidade monocromática da cidade tão cinza
quanto a Berlim de Wenders. O sinal abre. Súbito, pessoas atravessam a rua e
uma delas, uma mulher, passa por ele falando ao celular. Emparelham o tempo
suficiente para ouvi-la dizer “...eu já te implorei...” Ele estanca, como um
sangue que, vermelhamente, parasse de pulsar. Que tipo de conversa pediria uma
súplica deste nível? Que situação levaria alguém a este pedido tão sofrido?
Como alguém havia deixado de lhe dar atenção? Ou seria apenas um recurso
retórico, um modo de dar seriedade a um pedido desimportante? O sinal fecha, e
ele para do outro lado da rua, observando a moça ao celular em forma de
lágrima, lamentando não ser um anjo que a acalmasse e lhe dissesse, na orelha
disponível, que há uma grande probabilidade de a vida ser assim mesmo, uma
grande e contínua solidão, e que o temor que sentimos de perder o afeto das
pessoas se atuará muito quando formos realmente capazes de ficar sós. E se
houvesse sinal e bateria suficientes, ainda lhe faria sentir que a dor aguda
que ela está sentindo agora vai se atenuar com o passar do tempo e que é
possível dizer adeus para uma pessoa com quem se imaginou ficar junto a vida
inteira. Assim, dialogamos com a mortalidade.
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