Me desculpem começar assim, logo com um pronome oblíquo abrindo as alas do desrespeito à norma culta da última flor, ir logo metendo os pés pelas mãos, sem desviar do paralelepípedo semântico que me inchou o dedão, logo depois de chutar, sem mais, sem menos, uma resposta certa neste Enem existencial, quando se vê, sem o filtro do distanciamento, se os meninos viraram mesmo homens. Preferi buscar palavras no bornal que escondo debaixo da cama e ao qual recorro sempre que quero um termo mais exato, uma palavrinha mais ensaborrilhada, dessas que encaixam perfeito, como o clique das mãos dos namorados, diante dos perigos do mundo. O fato é que não adiantou o domingo estar completamente azul, se havia nele uma ausência que era maior que todos os azuis tristes que conotam o “blue” em língua inglesa, maior que todos os poemas de saudade, maior que a maior das medidas. Preferi passar por morto, que era mais ou menos próximo do que eu era mesmo então. Vítima de uma queda de pressão súbita e incontornável, achei melhor deitar-me nas esperanças que me serviam de maca naquele momento. Esperei que uma ambulância vermelha dos bombeiros viesse me recolher, o recém quase defunto, para longe daqueles olhos perfeitos, para algum lugar aonde não chegassem cartas ou e-mails, uma sala ampla e clara. No local, perpassar-me-iam tubos translúcidos, em meio ao bip nervoso de alguma máquina que desse suporte à vida que ainda me restava, líquida, na tubulação venosa. Achei que estava num daqueles espaços intermediários que algumas religiões decantam: a porta entreaberta entre a vida e a não-vida, esta sim pior que a morte propriamente dita, que deve ser uma ausência de tudo, creio. O processo já se iniciava, e ainda pude ver, de relance, alguns rostos conhecidos me olhando com preocupação no corredor do que me parecia um enorme hospital: Rachel, Ross, Will, Morgan, Clint... de onde estava, pude perceber que uma enfermeira colocava meus pertences numa espécie de bolsa plástica e, entre eles, vislumbrei meu celular, tão mudo, tão sem função... para quem ligaria? Para ela - uma fotografia na parede da memória que, como naquele poema de Drummond, dói. Era ela, rindo e dizendo “até parece...”, depois de qualquer bobagem romântica de minha parte, e que são muitas. Era ela, entre tic-tacs e um celular com barulho d’água, entre letras e bytes, livros e Elvis. A meu favor, havia a surpresa de minha quase morte súbita, cuja notícia, entreouvida, não raro, num lugar inesperado, fatiariam o coração da referida em alguns mil pedaços que boiariam no molho quente da incredulidade e do susto. Porém, se assim fosse, eu nem saberia sequer se ela sentiria a minha falta, se o órgão propulsor de seus sentimentos bateria um tambor movido à mais poderosa Duracell, ou seria apenas um som fraco, abafado, quase inexistente, como uma tosse no meio da noite. Esta dúvida era pior do que a sensação de ausência de vida, eu lhes garanto. Tudo ia mal, muito mal, quando, de inopino, ela me surge dobrando a esquina da memória e mudando o rumo das nuvens. Eu não tinha mais como dar a volta. Eu avançava pela calçada no passo acelerado de quem segue movido por “Every breath you take”. Ela ajeitava os óculos. Eu sentia o vermelho do sangue se evaporar de minhas veias. Ela era uma festa de brincos e sarais retrôs. Eu ia me dissolvendo como um homem de areia, de joelhos, num ciclone. Ela parecia flutuar, como uma fada faria. Logo, eu estava a quatro passos de entrar numa cena de felicidade em que já estivera por longo tempo. Passei a provocar o coração para que ele decidisse rápido – faltavam apenas dois passos, e ela já se cansara de procurar o celular na bolsa, e eu temia que o mundo acabasse se ela me olhasse nos olhos e não me reconhecesse, se eu sorrisse e recebesse de volta apenas aquele olhar que damos quando vemos um bêbado caído na sarjeta, um olhar de que gostaria-de-fazer-alguma-coisa-mas-não-posso; e então ouvi a voz de um anjo bom me dizendo no ouvido para que acreditasse no amor, pois a distância tem dessas coisas. A imaginação funciona numa direção, mas a realidade pode ser muito diferente, até oposta. Por isso, quase sempre optamos pelo drama. O copo d’água ganha, então, sua tempestade. Tornamo-nos romeus aos pés de julietas, lindas e perfeitas, mas distantes, altas e inatingíveis como torres. Todos os sucos de pêssego do mundo seriam insuficientes para edulcorar o enredo. No entanto, o anjo insistia, deve haver, bem lá dentro da alma, alguma coisa essencial que não pode se perder e que só tem sentido com aquele outro que agora não está..., mas deveria.

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