Ele vinha se preparando há meses. Além de reservar algum dinheiro extra, acompanhou todas as resenhas do Prosa & Verso e as entrevistas do Edney Silvestre na GloboNews, só para ficar por dentro dos lançamentos, dos novos autores. Achou bacana a participação de walter hugo mãe na Flip deste ano, repleta de referências sobre as mulheres brasileiras. Releu António Lobo Antunes e se convenceu de que pouquíssimos autores possuem metáforas tão incisivas. Continuou com os portugueses e aplicou mais Saramago na veia – afinal, tinha que estar preparado para qualquer impacto que porventura lhe atingisse durante uma leitura qualquer, em pleno universo literário da Bienal. Contudo, por que não voltar aos trechos marcados de amarelo nos livros do Rubem? Ainda havia muito que aprender sobre o lirismo da vida, sobre a consciência das pequenas delicadezas que nos atingem todos os dias, e que nem sempre percebemos, por tolos que somos e cegos que teimamos ser. Queria saber mais sobre os meandros da engenharia literária e leu, de cabo a rabo, “Como Funciona a Ficção”, de James Wood, e anotou algumas dicas, já que ousava algum conto, aqui e ali. E, claro, queria discutir com ela, a mulher de unhas vermelhas, a tese da possível influência da linguagem cinematográfica nos processos criativos literários, na construção dos personagens, enredo e estrutura de seus romances. Queria porque queria entender como isso funciona e qual seria a opinião que ela, a mulher a quem convidaria de surpresa para ir à Bienal, teria a respeito. Até porque imaginava sentar-se com ela num daqueles cafés literários do Riocentro, a mesa com uma pilha de livros recém comprados, apostando quem leria primeiro qual livro, e ela rindo e falando dos seus autores preferidos, das palavras de que mais gostava. E cruzariam informações sobre filmes que já tinham visto, até surgirem discussões acaloradas, mas afetuosas, sobre quem seria o melhor diretor de todos os tempos. E, daí, voltariam as conversas a respeito do melhor livro de Clarice, o poema mais pornográfico de Drummond, sem que deixássemos de detonar todos os livros de Paulo Coelho e as outras mediocridades do gênero. E seria uma felicidade, imagine. Um mundo perfeito feito de livros e filmes, uma bela mulher inteligente e culta, uma conversa com letras, sem números e equações, mas na qual só se somaria e multiplicaria. De longe, contemplaríamos os corredores da Bienal, sentindo no fundo a satisfação de ver tantos jovens interessados em ler alguma coisa, em descobrir uma novidade, em chegar perto de um autor querido, desses que, se pudéssemos, levaríamos para casa, junto com seus livros. E seria indizivelmente bom ter a sensação vívida da qual Quintana falava: tão importante quanto ler livros é viver entre eles. E lá estariam – estantes e mais estantes com lombadas coloridas, aquele cheiro indefinível de conhecimento e lirismo. Ela, a mulher com quem tomaria café, estaria ansiosa para continuar a peregrinação pelas alas das editoras e, com seu olho sábio, descobriria, onde menos se espera, graais de pura poesia. Os ingressos já lhe queimavam no bolso, antecipando a surpresa. Antevia-lhe o sorriso, o regozijo, o espanto diante da realização de um sonho supostamente comum e há muito aguardado. Passariam o dia entre os pavilhões do Riocentro. Comprar-lhe-ia uma antologia, um suspense do Garcia-Roza, um “nugget” literário qualquer garimpado num saldão da Companhia das Letras. Assistiram a palestras do Scott Turow, saboreando chocolate com Perrier. Faltava ainda uma semana, mas ele não se conteve e a procurou com as entradas para aquele universo de letras e derramamento líricos que a Bienal prometia. Subiu as escadas do prédio, tocou a companhia. Ela abriu a porta.
_ Meu amor, tenho uma surpresa para você..., disse docemente, sem perder um segundo daquele precioso tempo de amor às letras.
Sem parecer ouvi-lo, ela retrucou quase de imediato, num grito meio selvagem: “Eu também, querido! Venha, que quero lhe mostrar”. Puxando-o pela mão, levou-o à mesa da sala, sobre a qual repousavam, vermelhos, dois ingressos para o UFC Rio, para os quais ela apontou com um gesto largo: “Olha, a gente vai poder ver a luta do Anderson Silva e talvez até consigamos um autógrafo do Minotouro, já pensou? Dizem que a arena fica cheia de sangue ao final dos combates!!!! Imperdível, não?”

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