quarta-feira, 12 de junho de 2013

ATÉ PARECE...

Até parece. Ela deve estar chegando na sua vida. É a mulher do terceiro milênio. Tem “approach”, sustança e uma capilaridade que vou te contar. Gosta das palavras da moda e tem borogodó suficiente para usar as antigas, engomadas, passadas a ferro, nos trinques. Ela não sabe o que é virar uma laje sob o sol de fevereiro nem apertar um parafuso em casa, mas tem conteúdo para explicar direitinho a referência pavloviana num dos primeiros TAHM e a diferença entre “ficar a distância” e “ficar à distância de”, sem pestanejar a suave sobrancelha feita outro dia mesmo, num salão perto de onde o Rei Arthur deixou a Excalibur para ser amolada entre picanhas e asas de galinha. Não liga para modas inventadas por suas amigas e prefere o suave ronronar das felinas que lhe apalpam a cama para um momento meg-especial, tetê-à-tête, só as três. As gatas se entendem, bicho. Estou com ela e não fecho. Portanto, relaxe essa tensão semântica no céu da boca e vitupere gostoso o prazer do quase impronunciável. É assim que ela ri e diz “até parece...”, sorrindo a frase “cool”, desenhada com gosto, cheia de decotes, como um espasmo dos sentidos neste momento de ausência profunda, como a se desculpar por ter dito a coisa certa, no instante certo, diante do menino que a olhava, sem se acostumar com sua beleza, sem que ninguém tivesse dado a ele qualquer pista de que, naquele momento, o destino estava se manifestando na tepidez daqueles nacos de carne bronzeada.  Ela tem, na ponta da língua rubra, os versos que Affonso Romano de Santanna uma vez dedicou ao mar e naquele instante embutiu o nome amado no verso, quando falado em voz alta: o amor às vezes coincide com o namoro, às vezes não; o amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não; o amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não; e o amor às vezes coincide com o amor e, às vezes, não... Sendo assim, ela sabe que o lócus da felicidade é individual e que o discurso amoroso supostamente adulto, com suas tentativas de criar dependência emocional e afetiva, é uma metáfora da realidade dos primeiros anos da vida da pessoa, e que não leva a nada, posto que é inútil. Cita Vinicius e Cecília quando analisa sua condição de cultora das palavras e de seus significados, mesmo sabendo-as insuficientes em alguns momentos-chave da vida, como quando o impalpável nos preenche, como se as lacunas nada mais fossem do que as dobras de um traje que já não serve mais. Com a frase-grife da sua percepção do mundo – até parece ! -, faz todos os lugares se parecerem com a Macondo de Márquez, ou a Penny Lane de Paul, e os indivíduos que estão em seu campo magnético passam por um pon farr inesperado, ao mesmo tempo corpóreo e etéreo, livre das distrações biológicas que afligem as formas de vida baseadas em carbono, como disse Sheldon. Até as pedras das ruas sabem que ela possui um universo que se expande com a intensidade de mil sóis e que quando eu a vi, pela primeira vez, havia clarões na minha íris, como se fosse mais um dos anéis de Saturno. E que o amor nunca foi fácil. Nunca foi linear. A não ser quando não era amor. Até parece que eu posso, assim com este ajuntamento de palavras, com esse repuxo de lembranças que cintilam na noite fria, com essa audácia que só a poesia é capaz de sustentar, tentar caminhar sobre minhas próprias pegadas – de preferência, aquelas que ainda cheiram a sangue queimado, sobre a brasa incandescente, aquelas que, pelas sensações radicais, de ódio ou de amor, fazem a gente se lembrar de quase tudo e perguntar franzindo a testa, como Leonard Hofstadter: quando foi a primeira vez que você tocou meu coração? Até parece que serei capaz de escrever, descrever, descrer e ver tudo que se me acontece na aorta pulsante do músculo literário, de onde vaza um filete de sangue que não consigo estancar. Até parece que tenho este direito. Até parece que ela vai ouvir, mas a ilusão que me perpassa os canos hidráulicos hematopoéticos internos funciona como uma descarga de anestesia como a que me paralisou o braço direito na última segunda feira e que, depois de liberada pelo garrote que me comprimia a veias do ombro, fez um tour feliz pelo sistema circulatório do meu corpo, deixando tudo por dentro calmo, sereno, como se ali não mais pudesse haver qualquer vestígio de dor. Recomendo. Vale o risco, pois a sensação só é comparável a sentir nas pernas o suave deslizar daqueles dedos do pé, sob lençóis, uma coisa! A moça em questão, se um dia souber que ousei escrever isso, sorrirá, apertando levemente os olhos, e dirá com um jeito mais simples que um átomo de hidrogênio: “Até parece...”


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