Não vou
escrever que me sinto triste, pois não quero que você saiba disso, embora este
sentimento meio down espreite, com seus olhos pouco felizes, por trás das
palavras que pululam, em pixels e sistemas binários, na luminosidade
quadrangular da tela em minha frente. Não é isso que vou escrever, porque não
quero que se torne público que me sinto tão pequeno diante de meus limites como
ser humano. Como ser? Como não ser? Nunca revelarei que a noite me dá medo de
perder minhas poucas certezas, minhas esperanças, o meu amor. Negra e fria, ela
me engole com sua saliva ácida de abandono. E nada posso fazer, a não ser
esconder que, por motivos que aqui não importam, eu de modo algum devia estar
sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Culpo-me tão violentamente por
tantas coisas que fiz e deixei de fazer, que ninguém poderia sequer desconfiar
desta minha insegurança, que se divide em muitas outras subcategorias, como a
covardia, o desespero, a inabilidade e o terrível medo de ferir tocando. O que
eu queria e não posso é, por exemplo, que tudo o que me acontecesse de bom e
azul, dentro de mim, eu pudesse dar àquilo e a alguém que eu pertencesse. Mas
não falarei, nem adianta insistir. Mesmo que você considere esta confissão
pública demais, aberta demais, despudorada demais, continuarei em silêncio, sem
dar uma pista. Nada, nem os mais grossos muros, tampouco os vidros blindados,
me protege com tanta segurança como este silêncio por escrito. Na verdade, o
silêncio não está na escrita que me brota nos poros, mas no ato de debruçar
sobre o que não quero dizer. Ou escrever. Ou falar. Ou pensar. Como escapar do
medo de não amar ou de não ser amado, bem como o temor seja fútil ou mal
compreendido. Este dissentir é um paradoxo que me permito, posto que está frio
lá fora e aqui dentro. Não lhe chamo a atenção para a pergunta para a qual não
há resposta imediata: quem poderá calcular o calor e a violência de um coração
de poeta, quando preso no corpo de uma mulher? E respondo, mentido: não tenho
ideia, não sei, não posso... É desnecessário dizer que gostaria de encontrar
uma palavra que exprimisse mais que sozinho. Inútil repetir que não acho a
definição do que sinto por dentro quando sei que uma quantidade inimaginável de
pessoas experimenta a felicidade, num bar, onde só se ouvem risadas e
tilintares de copos e garrafas alegres. Longe de mim querer achar-me certo
diante do mundo. Apenas sobrevivo. Contudo, nem direi que não se sobrevive por
inteiro, e a parte de nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do
tempo, que não flui, e da aridez de uma existência que estanca quando os sonhos
e fragmentam em pequeníssimas fagulhas de esperança. É um não saber o que fazer
de si mesmo, creia, sem me dar muito crédito. Não vou me deter no aspecto da
existência do mundo que me fascina – o literário, o lírico, o leve –
aliterando-se conforme a vida me acontece sem ensaio, sem preparação, sem
avisos de cuidado. Não serei barthesiano ao me dar conta que saber que as
coisas que vou escrever não me farão nunca mais amado por aquela que amo, que a
Literatura não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí
onde você não está, isso tudo é o começo, é o destampar o garrafão da escritura
e beber até que as artérias se rompam sob a pressão do alto teor vocabular
nelas injetado. Por que dizer que quanto mais toco na ferida, mais ela sangra?
Em tempo algum lhe direi que são muito mais numerosas as horas em que não sei o
caminho, que me perco, que me firo, firo e me refiro pedestremente, como se
tomado pela mais baixa frequência de mediocridade, mas tudo com a mais
impiedosa consciência dos meus limites humanos. É inconfessável: como gostaria
de não ser humano. Ser, apenas, pois a humanidade carreia um sem número de
defeitos aos atos do ser, aquele que existe com o outro, para o outro, com uma
única e nobre finalidade: amar. Por isso, não falo sequer da minha frustração
de existir defeituosamente no mundo, pois no mundo há as pessoas e elas podem
se ferir em função do mau andamento de minha existência sartriana que tanto me
assusta e fascina. Custa-me informar a todos que possam estar interessados que
os argumentos da razão são infelizes e insuficientes quando se trata de captar
a lógica do itinerário do coração, e ainda mais insatisfatórios quando tentam
alterar seu curso. Por isso, e mais que a poesia não ousa, não te direi que meu
tesouro és tu, eternamente tu, e que não há passos divergentes para quem quer,
enfim, se encontrar...

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