sábado, 30 de março de 2013

AQUELE HOMEM


Aquele homem anda rápido em direção a lugar nenhum. Carrega consigo um bornal cheio de recordações, e há cartas de amor no bolso da calça jeans desbotada, igualzinha àquela de Detalhes. Poder-se-ia dizer que é um homem de sentimentos, que quase chora ao se dar conta da saudade daqueles momentos em que, distraído, tropeçou na felicidade e se deu conta de que ela até existe.  Há os que se entregam à bebida, ou que preferem levantar peso com alteres improvisados, só para esgarçar a manga da camiseta Hering, quando fazem um L com o braço musculoso e o antebraço de Popeye, ao segurar a “long neck” que é a chave do paraíso dos comerciais de TV. Há os que se escondem em casa, num auto-exílio de cortar o coração em fatias isométricas como com aquelas facas guinzo 2000, e ficam horas em um silêncio mais profundo do que certos decotes em cujos interiores muita vida já se perdeu. Aquele homem está nas ruas, nas estradas brancas de nevoeiro, nas esquinas dos sofrimentos sem sentido e consentidos, pois não se pode ter uma vida completa sem uma dose exata de dor trincando sonhos e planos. Talvez já tenha aprendido que sábado costuma ser o mais cruel dos dias para quem tem a solidão no DNA ─ sobretudo para quem gosta de Clarice Lispector e Rubem Braga e que acha possível substituir o beijo molhado e a língua atrevida por uma página ou duas de puro lirismo. Até dá, mas não por muito tempo.
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário