Aquele homem anda rápido em
direção a lugar nenhum. Carrega consigo um bornal cheio de recordações, e há
cartas de amor no bolso da calça jeans desbotada, igualzinha àquela de
Detalhes. Poder-se-ia dizer que é um homem de sentimentos, que quase chora ao
se dar conta da saudade daqueles momentos em que, distraído, tropeçou na
felicidade e se deu conta de que ela até existe. Há os que se entregam à bebida, ou que
preferem levantar peso com alteres improvisados, só para esgarçar a manga da
camiseta Hering, quando fazem um L com o braço musculoso e o antebraço de
Popeye, ao segurar a “long neck” que é a chave do paraíso dos comerciais de TV.
Há os que se escondem em casa, num auto-exílio de cortar o coração em fatias
isométricas como com aquelas facas guinzo 2000, e ficam horas em um silêncio
mais profundo do que certos decotes em cujos interiores muita vida já se
perdeu. Aquele homem está nas ruas, nas estradas brancas de nevoeiro, nas
esquinas dos sofrimentos sem sentido e consentidos, pois não se pode ter uma
vida completa sem uma dose exata de dor trincando sonhos e planos. Talvez
já tenha aprendido que sábado costuma ser o mais cruel dos dias para quem tem a
solidão no DNA ─ sobretudo para quem gosta de Clarice Lispector e Rubem Braga e
que acha possível substituir o beijo molhado e a língua atrevida por uma página
ou duas de puro lirismo. Até dá, mas não por muito tempo.

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