sexta-feira, 29 de março de 2013

A CAMISA

Domingo à tarde. Saiu para o jogo, com a confiança de quem, no final, ia ser o vencedor. Desceu a ladeira enlameada da favela, com o coração cheio de esperança e o bolso nem tanto – só havia a conta exata para o ônibus e para a entrada no Maracanã. Deixaria a cerveja para outro dia, com os amigos do morro, só para esticar mais um pouco o deleite pela vitória do Flamengo. Faria hora-extra, se fosse o caso, e assim teria uma grana para comemorar a vitória do rubro-negro. Bem, isso se tivesse emprego fixo – mas, o que uma conquista do Mengão não faria por ele? Era bem capaz de arranjar um bom emprego logo na segunda-feira cedinho, sem esforço. Só tinha uma coisa faltando e não era de hoje: nunca havia conseguido comprar uma camisa do seu time de coração. Isso era uma frustração apenas amenizada por tantos gols de Zico que ele testemunhara ali bem de pertinho, da geral do Mário Filho. Mas, tudo bem. Hoje, fazia um calorão dos diabos, e ele logo providenciou seu traje de torcedor: sandália de dedo, um bermuda surrada, que já fora uma calça jeans um dia, e uma camiseta de propaganda política, com um furo aqui e ali, que ele enrolou na cabeça, para se proteger do sol de fevereiro. Porém, faltava a camisa do Flamengo, né? É, faltava, e a falta se fazia maior quando chegou ao asfalto, entrou no ônibus e, da janela, ficou vendo seus futuros companheiros de torcida, mais abastados, vergando o Manto Sagrado e seguindo na mesma direção. Aí, até que ele entendia: a maior torcida do Brasil tem representantes em todas as classes sociais. Até ele - pobre, negro, sem emprego, mas orgulhoso da honestidade e dos valores que pregava, em casa, para a prole que não parava de crescer, diabos! Sua alegria, fora a família, era ver o Flamengo jogar. Era ver o Flamengo vencer. Era ter, um dia, uma camisa dez rubro-negra, para sair por aí e dizer ao mundo que naquele homem morava uma paixão em preto e vermelho. No trajeto para o estádio, viu o que lhe parecia uma vertigem nas duas cores amadas: torcedores devidamente uniformizados com a camisa do Flamengo pareciam brotar de todos os lugares, carregando bandeiras e um orgulho de fazer parte de uma nação maior que o próprio país. Os carros passavam lotados: todos vestiam o Manto. Era tal festival flamenguista pela cidade, que parecia que não ia haver jogo – apenas o Flamengo entrando em campo e saudando os torcedores emocionados a gritar: Flamengo, eu te amo! Preto e vermelho, preto e vermelho, preto e vermelho, o mundo era assim, rubro-negro, de corpo e alma. Então, sentiu, com certa amargura, que, apesar de amar o clube até morrer, talvez não fizesse mesmo parte daquela torcida que, devidamente encamisada, parecia enfrentar o mundo sem medo de nada, pois nada lhe faria mal desde que estivesse dentro daquele círculo magnético que pulsava em preto e vermelho. Este momento de tristeza e frustração foi interrompido com um tumulto dentro do ônibus – alguém que não gostava da vida, não gostava de mulher, não gostava nem de futebol, sacou uma arma e anunciou um assalto e que lhe dessem já o que tinham de valor. O que faria ele, se não tinha nem o que considerava seu bem mais precioso – uma camisa listrada em preto e vermelho, para lhe salvar a vida? Sentiu o cano frio do revolver a lhe cutucar a nuca suada. Como não tinha nada? Não adiantou balbuciar algumas desculpas – o assaltante disparou quatro tiros no seu peito descamisado, o mesmo peito que abrigava o maior amor do mundo que, com ele caído no chão do 763, jorrava, na cor vermelha, listas que misteriosamente se harmonizavam, em fios paralelos, com sua pele negra. Finalmente, o manto sagrado lhe cobria o corpo.    

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