Talvez
tenha sido você, não sei. Eu estava do outro lado da rua e, de repente, no meio
de um torvelinho de pessoas que andavam freneticamente de um lado para outro,
vi um sorriso que poderia ser seu.
Alguém se virou, falou alguma coisa em voz alta, e a dona do sorriso apenas riu
mais um pouco, só para terminar o assunto, como se prescindisse das palavras.
Uma outra onda de seres robotizados se precipitou sobre a minha linha de visão
e perdi o sorriso de vista; e aí devo ter me sentido como um náufrago antigo
que, de um momento para o outro, no meio de um oceano gelado, como aquele que
engoliu o Titanic, se perde dos botes salva vidas para ficar abandonado no meio
do nada, o coração adormecido, sem entender a morte surgindo tão perto da vida.
Mas, para certas coisas da vida não há mesmo explicação.
Parei numa banca de jornal e fingi
que lia as notícias do dia. Era um subterfúgio. Queria apenas me apoiar na
realidade jornalística e esquecer o sonho que me atingira, há pouco, em plena
via pública. Essas epifanias deviam ser proibidas por alguma lei sensata.
Ninguém deveria ter sua vida alterada pela simples visão alucinatória de uma
parte qualquer do corpo da mulher amada, num dia de semana, num dia comum de
trabalho que deveria ser calmo e tranqüilo, sem estas excitações que só
confrangem e debilitam os corações. Eu, portanto, assim no meio de estranhos e
da poluição do centro da cidade, não deveria lembrar, sem o pronto pagamento de
uma multa elevadíssima, que um dia aquela mulher entrou definitivamente na
minha vida sorrindo desta mesma maneira e se instalou no meu coração da mesma
forma leve e suave com que sentava sobre as pernas, na poltrona da sala,
descalça, sorrindo, usando a única peça de roupa disponível depois do embate amoroso:
minha camisa desabotoada. Foi, então, que percebi que nenhum sonho é autêntico;
realizá-lo é que é.
Sim, talvez tenha sido aquela mulher
que procuro, no meio daquelas pessoas, naquele burburinho incessante do centro
da cidade. E, de nós dois, talvez tenha sido eu o de mais sorte, pois vi alguém
que achei que era você e, de repente, me dei conta do belo reino que recuperei.
Imediatamente, fiquei rico de você e tive mesmo a impressão que as pessoas que
passavam por mim me observavam com inveja e espanto de ver alguém tão simples e
comum ostentar nos olhos o brilho inequívoco e raro de quem reencontrou, mesmo
que por um breve instante, o futuro amor de sua vida...

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