
Cheguei à sala pronto para mais uma aula. A matéria daquela noite era advérbio e os alunos já sabiam que deveriam preparar uma pesquisa sobre o assunto, vasculhar nas gramáticas, sites na Internet, coisas assim.
De repente, ela se vira para mim, ajeita os óculos com a mão esquerda, e manda o balaço:
_ Estou apaixonada por você!
Gelei. Há declarações que por si só esgotam o assunto, já dizem tudo, mas quando as palavras da moça reverberaram na minha caixa de som do lado direito, confesso que titubeei, perdi o rumo da prosa que nem ao menos havia começado, o chão sumiu, sinos bimbalharam em algum campanário distante de uma vila do M. Night Shyamalan e meu sexto-sentido logo fez piscarem luzes coloridas no painel da Ferrari. Eram os sinais. Pisei no freio. Recuperei o fôlego, empertiguei-me. O momento merecia. Ela me olhava.
As mulheres mudaram com o mundo e acompanham a tecnologia com uma desenvoltura muito mais acurada do que aquela que nós, homens, julgamos possuir. Um exemplo disso é o celular. Muitas – as mais belas – têm dois, pelo menos. E falam naquilo como se sussurrassem no ouvido amado um verso de Neruda, sem se incomodarem se o sinal está fraco, se estão ao volante, tomando café ou apenas caminhando numa das aléias do Jardim Botânico.
Elas também aprenderam a adotar o caminho mais curto para se aboletar no coração do sujeito, sem ficar naquela indiferença estudada que, em priscas eras, fazia a gente desistir até de sonhar. Hoje, preferem o papo reto, o olho no olho, deixando o medo no vibra call para atender depois. Confesso que gosto disso. Perde-se menos tempo, mas também se escrevem menos cartas, menos bilhetes e mandam-se menos flores... Mas quem tem tempo para mandar flores hoje em dia? A vida agora passa em feixes de fibra ótica, o timing é outro, sacou? É natural que os amavios se sofistiquem, que a coisa se resolva sem back up, sem intermediários, direto ao consumidor. Paga-se e pega-se à vista. Nada de doze meses sem juros e juras de amor eterno, pois o eterno custa caro na hora de pagar o analista.
As mulheres mudaram, meu chapa, isso é certo. Mudaram o cabelo, as roupas, a maquiagem, a cor dos olhos, o comprimento das unhas, os móveis da casa, mudaram o foco, partiram para dentro, chutaram para a arquibancada. Tem gente que se assusta mesmo com a Martha Medeiros dando uns toques legais toda semana na Revista de O Globo e a Laura Fiorentino dizendo, e mostrando como se faz em The Last Seduction. Isso sem falar da Kim Cattrall mostrando o sexo na cidade e deixando a pudicícia de lado, em cima, em baixo, tanto faz, se não doer, claro.
Por isso, e mais que a poesia não ousa, ela estava ali mesmo, mordendo o lábio sem culpa, deixando claro que os únicos advérbios possíveis eram o aqui e agora e que melhor seria uma proposição anteposta ao sujeito que, no caso, era eu. O tempo literário representado por todos estes parágrafos não correspondia aos segundos em que a cena acontecia. Meu olho esquerdo tremia, a pupila parecia ter sentado para descansar e achei que perdia a cena em tempo real. Havia muita gente, aquele alarido típico do começo da aula, um cachorro latia ao longe. Ela fizera uma declaração que também embutia uma pergunta afiada: E aí, ô cara? Como vai ser? Topas?
Pensei: melhor não falar nada agora. Mirei com o olho bom o ombro bronzeado e ainda quente, sob cuja superfície se via ainda aquela perturbadora faixa branca por onde passara, horas antes, a alça do biquíni. Lá pousei a mão, cuja temperatura variava de um metacarpo para o outro, e disse sério: “Este é um assunto para ser discutido em outro lugar, numa outra hora”. Ela apertou os olhos e os óculos fizeram um movimento vertical. Senti que era hora de botar um espartilho nas palavras e afinar o jogo de cintura. “Você sabe, há muita gente aqui, não vamos poder conversar direito...”. Ela recuou e eu pude respirar, me segurando nas cordas e esperando o segundo assalto. Que veio: “Quando? Onde?”.
“O que o Sean Connery diria numa situação dessas?”, pensei imediatamente, começando a me achar ridículo, para logo ter certeza. O velho Sean já deve ter passado por coisas assim e certamente saberia o que fazer. Daria um sorriso escocês, on the rocks, mandava logo um “come on, bonny quean” e tudo se resolveria sem maiores problemas, agregando valor ao produto, entende?
Mas logo veio outro jab curto, que não chegou a surpreender: “Qual seu celular?”.
“Não tenho”.
“Mas como não tem?”.
Alguns impasses podem acabar apontando soluções mais rápidas para certas situações graves. “Como não tem celular???”, aqueles olhos pareciam gritar, e me senti ridiculamente sem saber o que dizer ou calar, como se estivesse num dos episódios de Seinfeld, batendo uma bola quadrada com o Constanza numa roda de bobinho juntamente com o Kramer. Inseri no slot facial, um olhar cético, sublinhei com o dedo sobre os lábios um jeitão de quem já tinha visto o diabo nesta vida e tentei – em vão, claro – naturalizar o fato de não ter celular. Serve o fixo? Serve, claro. É mister e monsieur informar que a dita cuja, a dona da história que começo na folha anterior, a moça que não entende que alguém na face desta bola azul possa viver sem estar umbilicalmente atado a um Motorola de última geração, a dona do ombro bronzeado que é o único responsável por não olharmos nos olhos dela, a moça corajosa que abriu o coração e disse na lata o que se lhe passa no próprio, sem pedir licença, sem achar que estava pisando no pé, esta moça, senhora e senhores, sem tirar nem pôr, ou pondo e tirando, como queiram, seria uma versão tropical, um genérico sem contra-indicação, da Evangeline Lily, a atriz canadense que faz o papel de Kate no seriado Lost, e por quem muitos ficaram perdidos de fato, caso estivessem com ela isolados numa ilha misteriosa, como na série. Sacaram? Ela ali na minha frente e o avião nem havia caído ainda. Ombros cor de cotia, músculo cardíaco com as portas escancaradas e eu já sentindo no cangote o bafo quente do Tinhoso dizendo ofegante: Vai, canalha, vai... E o interregno desde o balaço inicial aumentando constrangedoramente, a pergunta “quando?” ainda se fazendo ouvir nas duas conchas acústicas que me seguram os óculos, até que, sem o sentir, já estávamos dentro da sala, os outros alunos nos observando gravemente como devem fazer os estudantes de medicina diante da dissecação do cadáver numa aula de anatomia, quando tentei arrancar das entranhas deste caixote velho e empoeirado que me encima o tórax alguma frase brilhante que me tirasse do obscuro buraco da semjeitice em que então me encontrava e balbuciei com estilo:
_ Já te falo...
Ela se sentou na primeira carteira. Cruzou as pernas. A sandália fina que protegia o pé direito parecia flutuar no ar. Sorria umas orquídeas.
Os alunos me olhavam. Aterrissei os livros sobre a mesa. Respirei fundo. Escrevi bem no centro do quadro: DEPOIS.
Ela me olhou, sorrindo mais orquídeas. Havia entendido. Os alunos também. Copiaram no caderno: DEPOIS.
De repente, ela se vira para mim, ajeita os óculos com a mão esquerda, e manda o balaço:
_ Estou apaixonada por você!
Gelei. Há declarações que por si só esgotam o assunto, já dizem tudo, mas quando as palavras da moça reverberaram na minha caixa de som do lado direito, confesso que titubeei, perdi o rumo da prosa que nem ao menos havia começado, o chão sumiu, sinos bimbalharam em algum campanário distante de uma vila do M. Night Shyamalan e meu sexto-sentido logo fez piscarem luzes coloridas no painel da Ferrari. Eram os sinais. Pisei no freio. Recuperei o fôlego, empertiguei-me. O momento merecia. Ela me olhava.
As mulheres mudaram com o mundo e acompanham a tecnologia com uma desenvoltura muito mais acurada do que aquela que nós, homens, julgamos possuir. Um exemplo disso é o celular. Muitas – as mais belas – têm dois, pelo menos. E falam naquilo como se sussurrassem no ouvido amado um verso de Neruda, sem se incomodarem se o sinal está fraco, se estão ao volante, tomando café ou apenas caminhando numa das aléias do Jardim Botânico.
Elas também aprenderam a adotar o caminho mais curto para se aboletar no coração do sujeito, sem ficar naquela indiferença estudada que, em priscas eras, fazia a gente desistir até de sonhar. Hoje, preferem o papo reto, o olho no olho, deixando o medo no vibra call para atender depois. Confesso que gosto disso. Perde-se menos tempo, mas também se escrevem menos cartas, menos bilhetes e mandam-se menos flores... Mas quem tem tempo para mandar flores hoje em dia? A vida agora passa em feixes de fibra ótica, o timing é outro, sacou? É natural que os amavios se sofistiquem, que a coisa se resolva sem back up, sem intermediários, direto ao consumidor. Paga-se e pega-se à vista. Nada de doze meses sem juros e juras de amor eterno, pois o eterno custa caro na hora de pagar o analista.
As mulheres mudaram, meu chapa, isso é certo. Mudaram o cabelo, as roupas, a maquiagem, a cor dos olhos, o comprimento das unhas, os móveis da casa, mudaram o foco, partiram para dentro, chutaram para a arquibancada. Tem gente que se assusta mesmo com a Martha Medeiros dando uns toques legais toda semana na Revista de O Globo e a Laura Fiorentino dizendo, e mostrando como se faz em The Last Seduction. Isso sem falar da Kim Cattrall mostrando o sexo na cidade e deixando a pudicícia de lado, em cima, em baixo, tanto faz, se não doer, claro.
Por isso, e mais que a poesia não ousa, ela estava ali mesmo, mordendo o lábio sem culpa, deixando claro que os únicos advérbios possíveis eram o aqui e agora e que melhor seria uma proposição anteposta ao sujeito que, no caso, era eu. O tempo literário representado por todos estes parágrafos não correspondia aos segundos em que a cena acontecia. Meu olho esquerdo tremia, a pupila parecia ter sentado para descansar e achei que perdia a cena em tempo real. Havia muita gente, aquele alarido típico do começo da aula, um cachorro latia ao longe. Ela fizera uma declaração que também embutia uma pergunta afiada: E aí, ô cara? Como vai ser? Topas?
Pensei: melhor não falar nada agora. Mirei com o olho bom o ombro bronzeado e ainda quente, sob cuja superfície se via ainda aquela perturbadora faixa branca por onde passara, horas antes, a alça do biquíni. Lá pousei a mão, cuja temperatura variava de um metacarpo para o outro, e disse sério: “Este é um assunto para ser discutido em outro lugar, numa outra hora”. Ela apertou os olhos e os óculos fizeram um movimento vertical. Senti que era hora de botar um espartilho nas palavras e afinar o jogo de cintura. “Você sabe, há muita gente aqui, não vamos poder conversar direito...”. Ela recuou e eu pude respirar, me segurando nas cordas e esperando o segundo assalto. Que veio: “Quando? Onde?”.
“O que o Sean Connery diria numa situação dessas?”, pensei imediatamente, começando a me achar ridículo, para logo ter certeza. O velho Sean já deve ter passado por coisas assim e certamente saberia o que fazer. Daria um sorriso escocês, on the rocks, mandava logo um “come on, bonny quean” e tudo se resolveria sem maiores problemas, agregando valor ao produto, entende?
Mas logo veio outro jab curto, que não chegou a surpreender: “Qual seu celular?”.
“Não tenho”.
“Mas como não tem?”.
Alguns impasses podem acabar apontando soluções mais rápidas para certas situações graves. “Como não tem celular???”, aqueles olhos pareciam gritar, e me senti ridiculamente sem saber o que dizer ou calar, como se estivesse num dos episódios de Seinfeld, batendo uma bola quadrada com o Constanza numa roda de bobinho juntamente com o Kramer. Inseri no slot facial, um olhar cético, sublinhei com o dedo sobre os lábios um jeitão de quem já tinha visto o diabo nesta vida e tentei – em vão, claro – naturalizar o fato de não ter celular. Serve o fixo? Serve, claro. É mister e monsieur informar que a dita cuja, a dona da história que começo na folha anterior, a moça que não entende que alguém na face desta bola azul possa viver sem estar umbilicalmente atado a um Motorola de última geração, a dona do ombro bronzeado que é o único responsável por não olharmos nos olhos dela, a moça corajosa que abriu o coração e disse na lata o que se lhe passa no próprio, sem pedir licença, sem achar que estava pisando no pé, esta moça, senhora e senhores, sem tirar nem pôr, ou pondo e tirando, como queiram, seria uma versão tropical, um genérico sem contra-indicação, da Evangeline Lily, a atriz canadense que faz o papel de Kate no seriado Lost, e por quem muitos ficaram perdidos de fato, caso estivessem com ela isolados numa ilha misteriosa, como na série. Sacaram? Ela ali na minha frente e o avião nem havia caído ainda. Ombros cor de cotia, músculo cardíaco com as portas escancaradas e eu já sentindo no cangote o bafo quente do Tinhoso dizendo ofegante: Vai, canalha, vai... E o interregno desde o balaço inicial aumentando constrangedoramente, a pergunta “quando?” ainda se fazendo ouvir nas duas conchas acústicas que me seguram os óculos, até que, sem o sentir, já estávamos dentro da sala, os outros alunos nos observando gravemente como devem fazer os estudantes de medicina diante da dissecação do cadáver numa aula de anatomia, quando tentei arrancar das entranhas deste caixote velho e empoeirado que me encima o tórax alguma frase brilhante que me tirasse do obscuro buraco da semjeitice em que então me encontrava e balbuciei com estilo:
_ Já te falo...
Ela se sentou na primeira carteira. Cruzou as pernas. A sandália fina que protegia o pé direito parecia flutuar no ar. Sorria umas orquídeas.
Os alunos me olhavam. Aterrissei os livros sobre a mesa. Respirei fundo. Escrevi bem no centro do quadro: DEPOIS.
Ela me olhou, sorrindo mais orquídeas. Havia entendido. Os alunos também. Copiaram no caderno: DEPOIS.
A aula era sobre advérbios.
Rio, 27 de julho de 2001
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