
A mulher observa a taça que tem entre as mãos. A delicadeza da haste facetada, abrindo-se em seguida para formar o bojo de matéria finíssima, sulcada de pequenos arabescos. Contra a luz das velas, o vinho cor de sangue só faz realçar a delicadeza dos desenhos escavados na substância transparente.
Sabe que o cristal, com sua beleza quase divina, nada mais é do que a mistura de chumbo, músculos, suor, ferro e fogo. Todos esses elementos brutais unidos, entre fogo e treva, para que apenas um sopro suave desse, em definitivo, a forma mais delicada que se conhece do vidro.
Põe a taça sobre a mesa. Levanta-se. Alcança, sobre a estante, o livro de capa azul que lia devagar, degustando cada página como se fosse um gole de um vinho raro, esquecido numa adega. Abre na página que descreve o amor dos protagonistas. Imediatamente, deixa-se cair novamente no sofá, o livro entre as mãos e estas sobre os joelhos. O fino louro cabelo cai-lhe sobre o rosto como uma cortina que a separasse do mundo, escondendo-a, isolando-o. Sente as lágrimas formarem um volume no canto dos claros olhos e, por um instante, se dá conta que essas gotas frágeis, salgadas, sofridas podem ser como o chumbo no vidro, a criar uma nova matéria, mais forte, mais bela, suave e poderosa como o cristal das taças de todos os vinhos que amou.
Debruça-se sobre a mesa e recolhe a taça, ainda com algumas lágrimas de vinho. Volta a admirar a translucidez do cristal, a concavidade que dava suporte ao líquido vital, como o oco de duas mãos que oferecem algo valioso e raro, o amor. In vino veritas. As taças de vinho traem, revelam. Em sua superfície refletem marcas de antigas paixões e seu conteúdo vermelho cintila muitas vezes nos olhos de quem as empunha, pois é exatamente ali, nos olhos, que os desejos cavam sua última fronteira.
Agora, de olhos fechados, sente nas costas correr um relaxamento intenso e, na pele do rosto, um calor extremo de sol. Com os sentidos em alerta, percebe a mínima variação da brisa da noite trazendo os murmúrios da rua, os choros contidos dos bares, o riso infeliz que decreta o fim de um amor, e as lembranças que começam a formar um mosaico incômodo porque repleto de dúvidas - onde estará aquele que, num dia distante, escreveu no guardanapo do restaurante onde também tomavam vinho: “com as asas do amor eu ultrapassei essas muralhas, porque elas não podem manter longe o amor...”.
Virou de uma vez o último gole e recomeçou a ler o livro a partir daquela página que, agora, estava marcada com gotas de vinho e lágrima, para sempre, indistintamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário