
Ao considerarmos a Literatura como espelho multifacetado do seu tempo, podemos seguir um caminho fascinante, que é a conexão das histórias escritas com o mundo vivo, dinâmico, paradoxal que as cercam. Lembro de Admirável Mundo Novo (Brave New World), de Aldous Huxley, uma obra cujo título é uma luzinha renitente na vasta área das minhas lembranças de infância: ainda consigo sentir a sensação inebriante de repetir em voz alta aquele título mágico que me levava a pensar num lugar totalmente novo e fascinante. Li, primeiramente, com os olhos da intuição para, anos depois, começar a folhear página por página e entender o que Huxley pretendia.
O título em inglês, Brave New World, é uma citação de Shakespeare, da peça A Tempestade. Lá, a menina Miranda, que cresceu numa ilha deserta e nunca viu outro rosto além do de seu pai, Próspero, exclama ao ver um grupo de náufragos europeus: “Ó admirável mundo novo em que vivem tais pessoas!”. Nesta altura da peça, os espectadores sabem que, entre os europeus, há também pessoas altamente corruptas. Já na época de Shakespeare, as palavras de Miranda sobre o admirável novo, velho mundo, vinham carregadas de uma indisfarçável crítica à civilização. Uma adaptação livre de A Tempestade pode ser vista no filme O Planeta Proibido (1956), dirigido por Fred Wilcox, estrelado por ninguém menos do que o então sério Leslie Nielsen, que só anos mais tarde viria a descobrir o seu talentoso lado histriônico em comédias como Police Squad.
Huxley tocava num conceito que aparecera, anos antes, num texto curto de Thomas More, humanista e estadista inglês, intitulado Utopia (1516). Escrito em latim, a composição falava sobre a ordenação ideal de uma entidade comunitária: uma ilha distante, de difícil acesso, no meio do mar. Utopia significa, literalmente, “não-lugar”. O termo é composto por ou e topos (não e lugar em grego, respectivamente), com o sufixo latino ia. More estava pensando em mais de um significado com seu neologismo, pois em inglês os prefixos ou e eu têm a mesma pronúncia e, então, utopia soa como a palavra grega eutopia, “bom lugar”.
Se as utopias dos séculos XVI e XVII eram ilhas distantes, alcançadas por navios, as que têm início nos séculos XIX e XX não se situam mais em lugares inexplorados da Terra, mas no futuro, e são alcançadas pelo caminho do progresso. Na euforia do progresso da era industrial, catalisada pela teoria da evolução de Darwin, os projetos de alternativas utópicas não ficavam mais na ficção. Começava-se a concretizar as utopias, movidas pela crença nas possibilidades infinitas da técnica, da ciência e das reformas sociais.
A Literatura, entendida aqui como força e percepção, produz, por outro lado, as antiutopias, como é o caso de “A Máquina do Tempo”, de H.G. Wells, sobre duas espécies de homens, uma de crianças e outra de canibais, como uma reação de Darwin deixava a impressão de que o desenvolvimento da humanidade criaria seres cada vez mais perfeitos, física e moralmente. Wells criou um mundo contrário, sem esperança. As pessoas do futuro seriam os elois subdesenvolvidos física e espiritualmente, e os morlocks moralmente degenerados. A visão de Wells sobre os dois grupos trazia ainda uma ácida crítica social. Sua imagem impiedosa de uma camada social inferior que devora a superior era sua contrapartida corrosiva sobre a teoria da população do teórico vitoriano Malthus, que defendia o controle de natalidade nas camadas sociais inferiores. O livro de Wells é soberbamente retratado no filme homônimo de 1960, dirigido por George Pal, com Rod Taylor no papel do viajante do tempo que testemunha as futuras e desagradáveis mudanças por que passaria o nosso planeta.
Tanto em A Máquina do Tempo, quanto em Admirável Mundo Novo, as utopias colidem com o limite humano de suportar a ilusão da perfeição. A humanidade feliz, na obra de Huxley, é o resultado de manipulações genéticas e psíquicas. O suposto mundo sem defeitos descrito por Wells serve apenas como cenário de lutas sem fim. Essas duas obras literárias traduzem um sentimento que se reforça quando pensamos nos vários sentidos da existência: que a felicidade até existe, mas vive em contínua refrega com elementos antitéticos que a condicionam.
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