
Ela é a mulher-brinco, a única que sai daquela loja do shopping mais chique da cidade sem comprar nada, mas com a certeza de que já tem tudo, e que o se lhe vai nas orelhas já basta para ser a criatura mais olhada, mais admirada, mais invejada do seu círculo de amigas e inimigas de infância, as que se aproximam com a pergunta já na marca do pênalti, sem paradinha: “Onde você comprou?”. A mulher-brinco não se abala. Sabe que mexeu nas estruturas mais íntimas da mulher moderna, aquela que ostenta vários cartões de crédito na carteira, que tem mais sucesso profissional do que os valetes da empresa, que decide qual carro, qual mesa, qual vinho, qual apartamento, mas que não ousa por o pezinho bem cuidado fora de casa sem gastar horas decidindo o brinco certo a ir com a roupa, com o cabelo, com o esmalte, com o namorado, com o coração, com a alma. Sabe que será alvo de olhares cobiçosos. Numa conversa, causará desvio do eixo dos olhos da interlocutora mais próxima. Pendendo dos lóbulos macios, os brincos farão a diferença. Como pesos numa balança imaginária, deixarão todas desequilibradas de desejo. Com brincos não se brinca. São mortais a ambos os sexos. Podem fazer a diferença na abordagem. Engana-se quem acha que os homens não ficam, da mesma forma, fascinados com o apêndice auricular. Mas não como as mulheres – eles, por sua vez, têm com o brinco a mesma relação que o peixe tem com a isca; ao morder o macio lóbulo, podem engolir junto o anzol da moda, e aí, não tem mais jeito, já sabemos. A mulher-brinco tem plena consciência de que o detalhe pode fazer a diferença. Não adianta o vestido mais caro, a sandália salto agulha zero quilômetro, o sorriso matador exclusivo das forças armadas, o perfume capitoso no cangote, sem que o acessório descolado combine com o conjunto da obra, que seja a liga extraordinária que enfeixa todos os esforços da sedução num único e poderoso exocet a bombardear cirurgicamente o território cardíaco inimigo quase íntimo. Pena daqueles que não entendem que a sustentação da civilização tal qual a conhecemos está na satisfação da mulher-brinco ao sair com o adorno certo exatamente no dia em que o homem-alvo, pombamente, cisca na calçada por onde ela vai derramar encantos, cheiros e pétalas. Ele vai sucumbir, ela, perversamente, sabe. Os brincos dar-lhe-ão sustentação no vôo de reconhecimento, sem ruído, sem blip no radar das frentes inimigas, sem perder a tramontana. Nosso mundo é um tecido roto, carcomido pela força de eventos imprevisíveis. Através de fendas, o real, com sua desordem ardente, escorre. A mulher-brinco procura arrumar esta caótica cena ao acenar com a possibilidade do minimalismo: os segredos de liquidificador, despejados na sua orelha fria, terão um guardião, um sinalizador totêmico, um graal fashion que dará vida eterna a quem o aceitar como verdade suprema, um dogma de fé. Pois, creiam: quando a mulher os tira, na hora mágica da entrega do corpo e da alma, ela não apenas se prepara para conquistar, mas, sobretudo, sinaliza que é exatamente aí que você pode começar a entendê-la.
090226
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