quarta-feira, 16 de abril de 2008

JULIANA

Acho que sei porque colocam a Juliana Paes de roupas íntimas na novela das 9: pode ser para desestabilizar as pessoas de bem que, àquela hora sacra da noite, se sentam diante do computador para produzir seus textos, sejam eles profissionais ou acadêmicos, não faz mal. O que faz mal – e olhe que digo mal no melhor sentido do termo – é ver a Juliana, assim, digamos, quase sem roupa, sem poder, digamos também, perguntar pessoalmente as horas, entre outras coisas. Fico pensando: como se concentrar na coerência textual, como encontrar as palavras exatas, como aplicar um hiperbatozinho aqui, uma antonímia inesperada, ou uma elipse para descansar os olhos fatigados do leitor? Tenho uma vaga idéia do que deve ter sido dar de cara com a tsunami que devastou a Indonésia, mas deve ser algo bem parecido com a sensação de ver a Juliana se agigantando à nossa frente, aquele sorriso que mistura mel com doce de leite em proporções descomunais, aquela pele de cor de cutia, se mo permite o Braguinha a mão grande numa de suas mais felizes comparações.

Vai por mim: presta atenção nela, rapaz! Não esta atenção machista, consumidora, sem tato. Ela precisa – o sei – de um entendimento de um homem de verdade, que não precisa de chapéu de vaqueiro para corroborar a virilidade ou os bons sentimentos. Quem é proprietária de coxas tão sérias e um bumbum tão meritório, como ela o é há muito, necessita de um homem que use adjetivos inesperados e que cultive o saudável hábito de resenhar todos os filmes a que assiste, entre outras líricas estranhezas. Salvo em situações tópicas, Juliana vai encontrar a felicidade nos braços não malhados de alguém que saiba de cor aquele poema de Florbela Espanca que começa assim: “Se tu viesses ver-me hoje à tardinha...”.

Bom, acontecia que eu estava prestes a cometer mais uma tentativa de crônica e mal havia começado a batucar estas mal digitadas quando ela, na televisão ao lado, tirou o vestido evangélico e injetou em nossos olhos, sem anestesia, algo parecido com uma coxa bem definida, seguida de outra quase irmã, enquanto semicerrava os olhos, assim ó, fazendo biquinho, tingindo de vermelho, meio a meio, o redondo dos olhos negros que fitavam não sei quem. Olhei sério para a garina (dicionário rápido!) e vi logo que aquela cena industriava-me sutilmente para a inação típica dos que desejam sem esperança. Deixei-me ficar aboletado na cadeira, convencido, como o Lula, que só mesmo um certo viés masoquista poderia explicar este castigo para quem está do lado de cá deste peep show sem direito à cabine vip. Interrompeu-se a concentração, o texto, a respiração, as funções vitais só para ver, fatiada pela edição pudica, a personagem sapeca que, no seu discurso corporal simplista (o discurso, não o corpo), atesta que há sempre um vulcãozinho dentro da mais convicta carola.

Bem que tentei fugir. Fiz de tudo para não me expor aos raios gama de Juliana, que transformam os mais incautos em hulks ao contrário: sem força, mas ainda verdes de ciúmes de quem se assenhoreou do músculo cardíaco da garota do momento, tão linda e espontânea que até deixou o Jô babando no programa de ontem, quando, sem a menor cerimônia, ela cantou a belíssima canção do Frejat, Pra Toda a Vida, meio à capela, na frente do auditório mesmerizado com aquele sorriso que, se taxado pela Receita Federal, pagaria algumas vezes a dívida externa com folga.

Tudo bem que a explicação para esta epifania chamada Juliana foi só um pretexto para escrever a crônica da semana e justificar o infame trocadilho do título, mas sabe que até valeu a pena? Escrevendo se exorciza os fantasmas que, à noite, saem de suas tocas e nos rondam a fim de granjear simpatia de incréus como eu. Pero que los hay, los hay, admito com um frio na espinha e em claudicante espanhol, mas sempre com respeitosa atitude diante de coisas que não se pode explicar. Contudo, tentamos entender as pessoas e seus gestos mais surpreendentes, rindo ou chorando, igualzinho como neste filme mais recente do Woody Allen em que ele mostra que drama e comédia se visitam e têm o mesmo nascedouro – a infinita capacidade do ser humano de ferir a si mesmo e aos outros. Sacou? “Naum tow intndndu nd”, diria o adolescente num chat com aquela amiga que ficou com o namorado da outra e confessou o crime no fotoblog irado, sem ligar para vogais que só atrapalham o bom andamento da vida, dos ficares e dos quase-amores, cuja eternidade têm o mesmo sentido do permanente no cabelo de outrora. Melhor pegar a espada samurai encostada num canto do armário e praticar o kenjutsu com o travesseiro encharcado de lágrimas antes de tramar uma vingaçazinha tarantiniana, sempre com os pés descalços no chão, é claro.

Ah, os pés descalços de Juliana... agora num estábulo, deitada sobre o feno, personificação túrgida dos versos de Murilo Mendes – “Repousam formas nebulosas, na penumbra do quarto entre dois sonos” – que queima na tela azul de todas as televisões de todas as casas de todas as cidades. Pois, declaro e dou fé, e que todos saibam que as formas das pernas de Juliana não são humanas. Pertencem a estas deusas desenhadas pela ficção científica, que viajam nas costas de estranhos animais alados para terras exóticas onde os homens são meros escravos. Os músculos da perna se contraem quando ela caminha e descontraem-se quando se deita. É igual em gente feia e em gente bonita, mas nela é diferente. Provoca tremores, tira o fôlego e nos faz ter vontade de fazer dela nosso lugar de repouso. Ou parar de escrever e cantar baixinho e desafinado na fria orelha perfeita de Juliana: “E a paixão é loucura que passa como um terremoto, com o tempo acalma, mas onde você está, onde você está? O que eu sinto não é de mentira e agora tenho certeza - você é para toda a vida, para toda a vida, pra toda a vida...”. E que se ela risse de mim, do meu romantismo sem sentido, das minhas tentativas vãs de alcançá-la eu diria, teimoso ainda, que quem vive assim consagrando-se (no sentido de dedicar-se afetuosamente) e consagrando (no sentido de tornar sagrado) um sentimento que a gente acha que perdeu para sempre, vá me desculpar e nem me leve a mal, mas só pode ser a matéria-prima rara de que são feitos todos os sonhos mais belos.

050529

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