terça-feira, 1 de abril de 2008

FESTA

A festa corre solta. Noite alta, e as mulheres fazem tim-tim com uma bebida ice dessas, sem se importarem com a multidão que passa em fluxos, como grandes cardumes, pelo salão iluminado por luzes estroboscópicas. Todos sorriem seu melhor dente. O DJ da hora paira acima do bem e do mal, das belas mulheres misteriosas, dos puxadores de ferro, dos solitários, dos estranhos sem carteirinha. Tim-tim. Outro. Acabou o gelo. Pede mais. O ar está cada vez mais abafado, mas as mulheres não transpiram. Inspiram. A festa ferve numa aliteração feroz, em nome da farra e da fantasia. Afinal, é um evento no coração da cidade sem coração e sem gente cordial: o brucutu que levanta 200 no supino nem se toca de abrir a porta para a moça passar. Ela não se importa. O coração não dispara mais. Desencana. Tim-tim. As saudades que doem à noite se traduzem nas lágrimas cintilantes das telas de cristal líquido de todos os celulares das mulheres desta festa, que preferiram azarar na madrugada a apagar a luz do quarto, deitar com a almofada do Garfield entre as pernas e chorar baixinho para ninguém ouvir. Tudo isso para evitarem vão - a dor e a angústia de viver em estado de desencontro com o mundo.

080401

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