sábado, 12 de maio de 2007

O NOME




“Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”

Ele passou tempos sem pronunciar o nome amado.
Aquele nome ainda provocava-lhe arrepios, decalcava da realidade uma emoção que, não raro, parecia ter se perdido no torvelinho cotidiano das platitudes. Havia alguma coisa viva naquela palavra, algo que queimava e o fazia sentir a mesma dor que o amputado registra na perna ou no braço que já não mais existem.
Durante muito tempo fugiu deste nome. Esforçava-se para não o reconhecer, mesmo quando ele aparecia num grito durante uma leitura, ou quando, entreouvido numa conversa de rua, feria-lhe a alma como uma espada samurai. Não imaginava que um nome podia ser tão forte, tão intenso, tão emblemático, que era possível habitar-lhe o imo. No entanto, ele estava lá, enquistado nas lembranças, para sempre. Assim lhe parecia. O nome tornara-se um castelo, uma fortaleza, um refúgio e, ao mesmo tempo, um cárcere. Assumia formas arquitetônicas – muros, corredores, torres. Por outro lado, a inequívoca junção fonética reconstruía cores, formas, cheiros, olhares e um sorriso que ainda imaginava ouvir. Não podia esquecer, suposto que quisesse, se pelo menos tivesse forças para tanto. Quanto mais fugia, mais se sentia preso ao nome desejado que, por vias de dor e ingente sofrimento, não tinha mais condições de proferir. E assim ele permanecia calado, calado do nome amado, calado da vida, imerso num silêncio enorme de si mesmo, pois não poder dizer o nome amado é também, de alguma forma, uma sentença de morte. É deixar de nominar o momento, o imponderável, o raio mágico que ilumina o mundo quando alguém passa e fica. É não saber mais o nome que o amor pode ter.
Mas o nome não morria. À noite, espreitava por entre os ruídos da madrugada, pisava-lhe os sonhos, acordava em sua boca: A...
A saudade que aquele nome lhe trazia não fazia barulho, não fazia sentido. Insidiosa, ela se movimentava lentamente pelas frestas das portas, espreitava anos a fio atrás das cortinas e – de repente – explodia, introduzindo uma cunha que levava à cisão entre corpo e mente, entre sonho e a realidade.
Trancou o nome no próprio coração, lugar distante e tão pouco freqüentado. Não queria vê-lo, ouvi-lo, tocá-lo. Também desejava que não o trouxessem à vida ao pronunciá-lo com descuido e, assim, por conseqüência, dessacralizar a saudade absurda que alimentava seu atormentado guardião. Havia algo de premonitório naquele embaraço de dor e saudade, alguma coisa que transcendia a rubra assinatura que não se apagava. Neste caso, o tempo fere todas as cicatrizes.
Contudo, o nome teimava em fugir da sua masmorra vermelha e voltava ainda mais forte, ainda mais nome. Percebeu, já exaurido, que não adiantava lutar. O nome sobrevivia nas cartas rasgadas, nas canções compartilhadas, nos crepúsculos de outono. Acompanhava-lhe os passos, em silêncio, como a sombra do fim da tarde quando, ao caminhar pela orla, pensava em depositá-lo nas ondas do mar, devolvê-lo à brisa que antecede a noite, perdê-lo enfim. Súbito, entendeu que o nome não era mais “o nome” e sim uma sensação indefinível que o escoltava, silente e plena. Uma sensação que se chamava A. e que não era A.
Começou a escrever um texto. Durante uma noite inteira, escreveu, inscreveu-se. Pensava no nome e na dona do nome, a senhora dele próprio, dos seus afetos, da sua história triste e carente de esperança. Sentia uma falta devastadora dela, dos fragmentos de vida que se espalhavam por dentro dele. Entre um parágrafo e outro, se dava conta de que o tempo é apenas uma imitação deformada da eternidade. Já não sabia se dominava o nome ou se a ele pertencia, pois este nome tinha um contorno, uma vontade característica, determinava as tintas, a moldura, a luz, o chiaroscuro que Caravaggio ousaria. Lembrou dela, a mulher a quem aquele nome remetia com a força de dez tsunami. Lembrou do seu aparecimento e de como havia se dado conta que algo de irreparável acabara de ocorrer em seu destino. Lembrou de como a olhava e de como ela redespertava nele sutis áreas de percepção. Era isso: sua presença era construída pelo olhar, sentido e verbo.
Continuou a escrever e as palavras o levaram a crer que a saudade apresenta-se de muitas maneiras, nem sempre com o som úmido das lágrimas na noite ou com a dor clássica no coração. Em alguns casos, é apenas uma porta que bate com o vento da noite e interrompe passado e futuro, a felicidade que foi e a que, dolorosamente, poderia ter sido.


06/04/15

Um comentário:

  1. Nossa... lindo...impossível não se emocionar... pena que a A é a inspiração... o texto já tem dona...snif...eu também tenho um texto com mesmo nome...

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