sábado, 5 de maio de 2007

A LETRA



Sexta-feira. Enquanto todos se dirigiam a suas casas, depois de um dia inteiro de trabalho, ele se sentava diante do computador e observava, enquanto escrevia, a disposição quase matemática das letras contra o fundo branco da tela luminosa.
Escrevia uma história cujo personagem toma consciência de ter cada vez menos comando sobre sua mente confusa, no mundo de sombras e imprecisões da desmemória, do qual, assustado, não podia fugir. Buscava num texto assim descobrir como conseguir aumentar as falhas da memória, pois era isso mesmo que desejava: não reconhecer parentes e amigos, e, principalmente ela, perdendo-os, perdendo-a portanto, como perdemos a noção da utilidade e do valor de coisas que nos são caras. Seria assim a morte?
Nesta história, o personagem não teria passado, presente ou futuro. Tampouco palavras para externar suas abstrações e sentimentos, embaralhados na mente, como cartas de um jogo no qual ele, e somente ele, podia sair perdedor. E pior, sem entender a realidade a sua volta. Sua angústia é o tormento da amnésia, que vai deixando a mente vazia, frágil, à mercê de outras mentes. Desta forma, seu personagem ia, cada vez mais, se parecendo com ele, num daqueles mimetismos que a saudade transforma em cristal, ou na matéria frágil de que são feitas as flores.
Levantou-se. Procurou um livro na estante que tomava toda a parede. Encontrou-o, abriu na primeira página e leu o nome dela, escrito com a letra dela, dando informações simples como endereço dela, o telefone dela, o nome da faculdade dela. Era um livro para ser devolvido à dona, caso perdido ou emprestado, estava implícito. Ser-lhe-ia fácil encontrá-la se seguisse os dados pessoais, o nome da rua, o número do prédio e do apartamento, estava tudo ali. No entanto, deu-se conta de que aquelas informações eram inúteis, como se descrevesse o paradeiro de uma pessoa que não mais existisse, a quem seria frustrante procurar pois o guiaria ao endereço sem vida, sem presente, sem futuro. Talvez nem passado. Com aquele livro na mão, lembrou-se do momento decisivo em que a encontrou na vida, e sentiu que aquele tinha sido um dos momentos fadados a permanecer em aberto, inconcluso, uma janela que não se fecha. Como uma promessa bandeiriana de coisas que poderiam ter sido e não foram.
Depois de tanto tempo, ainda sentiu o coração apertado com aquela fugidia certeza do amor que se instala por completo, com a plenitude das águas, quando estamos diante da pessoa que procuramos. Como seria um reencontro agora? Mas seria preciso aceitar que os imprevistos haviam lhes marcado a vida. Nenhum dos dois teria mais a franqueza dos anos antes e, como carregariam a bagagem acumulada em tantos anos de separação – casamentos ruins, frustrações amorosas e profissionais – o trajeto para chegar até a intimidade novamente seria, claro, tortuoso. Partiria de generalidades, tangenciaria assuntos pessoais – compartilhados ou particulares – encontraria becos sem saída ou avenidas movimentadas demais e progrediria em marchas e contramarchas. Assim seria tudo que resultaria de exultante e embaraçoso que um reencontro como esse poderia provocar. Num átimo, perceberiam que teriam que correr atrás do tempo - essa imitação deformada da eternidade – sempre curto demais para tudo o que se quer fazer.
E era com esse sentimento que se viu, de novo diante dela. O livro, a letra, as memórias se transmutavam numa pessoa ao mesmo tempo irreconhecível e absurdamente querida. A letra redonda trazia à memória uma foto dos dois, na qual ele estava sentado em primeiro plano, num nível abaixo da perna direita dela, uma perna firme e branca, em cujo joelho direito recostava levemente a cabeça. O braço esquerdo dela se apoiava no seu ombro esquerdo, mas não havia peso. Nesta foto, literalmente, olhando com atenção, podia reparar que a posição dos braços de ambos se correspondia de tal maneira que pareciam formar um desenho. Havia uma continuidade de traço que saía da mão dele, sustentava seu cotovelo esquerdo, prolongava-se pela mão dela pousada no ombro. As mãos, enfim, se entrelaçavam – a mão suplicante de um homem perdido com a forte mão delicada de mulher (embora, na verdade, houvesse apenas um contato dos dedos). Lembrou-se vagamente do dia daquela fotografia. Lembrou que, olhando para aquela mulher, se deu conta que havia sido atingido por um raio de vida. Percebeu, no entanto, neste instantâneo de nostalgia de agora, definido com a letra fria da saudade sem esperança, que havia uma luz rasante, meio fantasmagórica, que vinha da direita, golpeando as figuras imóveis e se concentrando nos olhos dos dois. Súbito, sentiu o coração parar, agora e em algum lugar no passado. Os olhos sem viço da foto nada mais representavam. Neste quadro impossível, ele – autor, personagem, amante – descobriu-se finalmente, inapelavelmente, morto sem saber, ou aceitar, que morria. Ela se mantinha em silêncio, como sempre. Preferiu não falar nada, em consonância com seu estado de cadáver insepultável, até então. Limitou-se voltar à própria tumba, entre as folhas de um livro esquecido, ou num cemitério distante, como Montarnasse, em cuja lápide de mármore estaria escrito, com a mesma letra redonda e firme, apenas o seu nome, seguido de um sinal de hífen (que os franceses chamam de trait d’union, o que dá a este sinal diacrítico uma aura poética e romântica), ao qual, ao invés do nome dele, nada foi acrescentado...

05/02/28

Nenhum comentário:

Postar um comentário