
“Eu não saio de ti quando me afasto”
Pablo Neruda
Ao sair de casa, o azul leve das primeiras horas resplandecia, se acentuava à medida que passava pelas avenidas e ruas, em direção ao parque. O outono chegava de mansinho, raiando pela janela entreaberta, a brisa transida de cheiros de todas as saudades que se espraiam no ar frio da manhã.
Ele sabia que era muito arriscado retomar as ações, prosseguir numa história interrompida, e que seria muito melhor começar do zero, construindo tudo, sem olhar para trás. A coisa mais tranqüila – porém falsamente sublimadora – seria silenciar, não procurar, parar de pensar. Amargurava-se com a forma como tudo tinha acabado. Culpava-se. Anistiava-se. Qualquer palavra era insuficiente para descrever aquela sensação ainda presente. Mas que fazer? Era a pergunta que adejava em torno de sua vida como um inseto na luz. Chegava à conclusão que nenhum homem se torna sábio antes de ter tido neste mundo sua porção de invernos. Não raro, sentia vontade de ligar para ela. Seria bom poder dizer que ainda a amava, apenas para extravasar aquele sentimento represado que vinha sufocando suas tênues tentativas de buscar a felicidade, para ter chance de navegar de novo por águas calmas, sem as procelas das incertezas e as nuvens pesadas da angústia. Recuava, por vezes. Sorria, aparentemente do nada, como se pegasse a si mesmo num outro momento, diferente daquele em que seria um estranho, um desconhecido sem nome, sem história, uma emoção sem sentido. “Onde ela está?”, perguntava-se silenciosamente. Achava, tantas vezes, que, ao contrário dele, ela não saberia como lidar com essas grandes janelas de tempo que se abrem entre pessoas que se perderam nos desvãos da vida. Queria vê-la, procurá-la, mas sentia medo. “Não, não vou”, concluía, triste e sem alma. Um contato, depois de tanto tempo, depois de um silêncio devastador, não teria nem o heroísmo de um ato kamikaze, porque sequer seria uma morte honrada. Seu gesto solitário bateria direto num rochedo qualquer e sua morte ecoaria triste e silenciosa no meio de um deserto.
Mas queria. Desejava. Pulsava. Imaginava que ela, onde quer que estivesse, gostaria de ter alguém para compreender seus sinais, seus sintomas, seus dizeres, suas cálidas revelações, pequenos pedaços dispersos de uma alma avarandada, porém vazia. Sim, tinha consciência de que seria capaz de entendê-la, fazendo esforços para. E ela? Teria a grandeza necessária para pelo menos ouvi-lo? Nada garantia, por isso, pensava, às vezes precisamos entregar os anéis – pessoas a quem amamos e nunca teremos – para não perder os dedos – paz e equilíbrio emocional tão duramente conquistados.
Frustrado... era assim que se sentia em relação aos desencontros que distanciam as pessoas, pulverizam amores, institucionalizam saudades. Pois nada pode ser mais frustrante do que esse quase tocar, esse quase sentir, esse quase caminhar junto, numa mesma direção, em paz. De forma alguma nos livramos dos sentimentos. Muito pelo contrário, eles às vezes passam a ser matéria de outros sonhos, de outras esperanças e podem até voltar ao ponto em que começaram, pois os corações iguais podem se entender, mesmo na distância, mesmo nas impossibilidades, mesmo no vazio do abismo que aparece quando as palavras são insuficientes. O que é isso senão um sentimento sem nome que não quer ir embora?
De repente, a viu caminhando com uma amiga em sua direção. Aproximavam-se. Três, quatro passos, no máximo e seus olhos se encontrariam.
Pararam quase ao mesmo tempo. Cumprimentaram-se, sem conseguir disfarçar que já eram dois estranhos. O reencontro inesperado, a despedida formal, tudo em questão de segundos. Seguiram seus caminhos opostos. Ainda pôde ouvir a amiga: “Quem é ele?”
A resposta, numa voz estranha, queimou-lhe de leve os ouvidos:
_ “Não é ninguém. É apenas um namorado que eu tive...”
05/06/29
Nenhum comentário:
Postar um comentário