domingo, 6 de maio de 2007

JANE FONDA, CHACRETES E O PAPA


Está nos jornais, sem a menor cerimônia, como sói acontecer nos dias atuais, mas, para quem tinha lá seus sonhos de infância ainda intactos no isopor amarelado da memória, foi meio assim, sei lá, um choque. Jane Fonda, minha paixão, ao falar do ex-marido Roger Vadim, em sua biografia, confessa: “Estar com Vadim significava sempre ter outra mulher na cama”. Estupefiquei. Eu, já na época, aqui sem nada, ó. Desde pequeno, aprendi que Jane Fonda, em qualquer dosagem, ajuda a melhorar a função do endotélio e previne a formação de coágulos. Para que mais? Será uma Jane só não era o suficiente? Parece que, para o indigitado Vadim não. Bobo ele.
Bem sei que não deveria começar uma crônica com um assunto como este, ainda mais neste período pré-conclave, com todos aqueles cardeais em Roma totalmente isolados do mundo para eleger o próximo pontífice, como se isso, este isolamento, fosse possível num mundo globalizado, com internet, celular e todas estas mídias escancarando os mais profundos segredos. Como este acima sussurrado pelos lábios carnudos, mas nunca botoxizados, da Jane, sobre este biltre do Vadim, se é que era mesmo segredo – bem, pelo menos para mim, era. Até porque, naquele tempo, não havia o “Sexy Hot”, ali apertadinho entre o Discovery e o Animal Planet, muito menos a Sue Johanson, com seu jeitinho de Dona Benta do sítio do pica-pau, explicando onde botar a tomada dos vibradores. Não dava mesmo realizar – para usar esta aberração lingüística trazida pelo mau uso da língua inglesa. Ainda sou do tempo do fuzuê, da estrovenga que tentávamos, debalde, entender. Mas para quê? Mim Tarzan, you Jane, Fonda, finda, finítima, fissípara, funda e todas as aliterações possíveis e cheias de sacanagens que aquele corpo bárbaro, barbarello, no-los inspirava. Claro que os similares nacionais da época não faziam feio. Eu gostava mesmo era da Índia Poti, da Vera Furacão, da Ester Bem-Me-Quer, da Gracinha Copacabana, da Sarita Catatau, todas lançadas rebolativamente nas nossas tão fatigadas retinas infantis graças ao próximo cantor mascarado, e bem antes da Rita Cadillac. Isso sem falar na Neide Aparecida, sempre nos intervalos com a mesma peruca Lady chanel, tá? Belas pernas. Mas nada se compara ao roda e avisa, com um minuto para o comercial, com ou sem Neide. Parece piada, mas a gente se excitava até com comercial de perucas. Consta, inclusive, que bem antes dos meus 10 anos bem vividos, me apaixonei perdidamente por uma chacrete, da qual, diga-se a verdade, não me lembro mais o nome de guerra, mas cuja foto surrupiada de uma ensebada Manchete da época, costumava enfeitar a parede do meu quarto e os sonhos que eu nem sabia que haveria de ter. Sumiu, como muitas outras, a danada.
Foi assim que, pensando nas pernas intermináveis da Sarita Catatau, que comecei a aprender a fazer a corte a todas aquelas mulheres que passavam, em preto e branco da minha jurássica Telefunken, Jane Fonda incluída, e imaginar os sutis segredos que até hoje me intrigam. Agora fico sabendo detalhes feitos tão pequenos da sua vida pessoal, que ela torna pública, via jornal, internet, o escambau. Afinal, quem tem tempo para ser ingênuo hoje em dia?
Não, naquela época a gente nem imaginava o que se passava nos lençóis da cama de uma Jane, nem sob os botões da blusa de uma Brigitte, muito menos o que acontecia intramuros no Vaticano, embora a diminuta figura de Paulo VI ainda esteja entre as lembranças dos anos 60, bem atrás, numa lista dos dez mais, do Capitão Aza e dos Agentes Fantasmas, sem mencionar o Speed Racer. Naqueles tempos, eu já conhecia, todo besta, detalhes dos afrescos da Capela Sistina. Não por ter ido lá e visitado a nave in loco, mas por ter visto um punhado de vezes Agonia e Êxtase, belo filme com Charlton Heston no papel de Michelangelo.
Mas são estes mistérios que ainda me nutrem da esperança absurda de reencontrar você. Ora, pois o que explicaria eu abrir a página da CNN on-line, logo cedo, a fim de saber mais notícias sobre a eleição do próximo papa, depois de ter tido um sonho daqueles que se quer, mas não se pode, e dar de cara com o rosto ainda belo de uma Jane Fonda madura sorrindo e fazendo confidências tão íntimas? Se há explicação, e há-a, a gente também poderia tentar entender porque, ao abrir aleatoriamente meu Aurélio eletrônico, esta maravilha tecnológica, fria e exata, instalada no imo do HD que nos guia, a tela abre justamente na definição do verbete cuja definição ainda não aprendi: amor.

05/04/18

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