
Do diário de viagem de Fernando Rocha
Ainda não consegui entender o porquê do fascínio que os habitantes dos trópicos têm por neve. E olha que até procuro gostar, descobrir uma fascinaçãozinha aqui e ali, os telhados todos brancos, aquela sensação que tudo está coberto por uma alva manta de algodão sem fim. Tudo bem. Só que acontece que, por baixo (e por cima) deste cartão postal tão apreciado nas plagas de alta temperatura, há um frio que não se pode avaliar apenas através de geladeiras e freezers existentes no Brasil. Aqui, o frio dói e dói muito. Dói no osso, como se diz por aí.
Quando se está em casa, fugindo das snow storms, basta ligar a TV e ver de tudo. Nesta área em que ora assisto, em especial, há vários canais hispânicos. Dizem que o número de hispânicos aqui já ultrapassou em muito o de negros, por isso as políticas mais recentes em relação à legalização dos imigrantes. Mas o hispânico aqui tem uma presença meio imposta, meio tolerada, já que representa a força de trabalho braçal que o americano renega. Todos os dias, perto de um 7 Eleven da vida, é fácil ver dezenas deles, congelando na rua, esperando uma oferta de emprego, que vai da pintura de paredes ao conserto do encanamento, quando muito. É… a vida do amante latino já foi mais glamourosa nestas paragens. Rodolfo Valentino teria que ralar mais, não há a menor dúvida.
Mas, falando dos canais, é inacreditável a quantidade de programas de baixaria que essa gente vê. Também na TV ianque, há sempre um lugarzinho na grade para se lavar a roupa suja, aquela que as automatic laundries daqui, que funcionam com apenas um quarter, não dão conta. São casais se acusando, crianças com DNA na mão procurando seus pais, e o tal felony, nosso famoso pula-cerca, que, ao que parece, causa muito mais que dor de cabeça por aqui. O espertinho que é descoberto com outra mulher (ou vice versa) tem logo que dar satisfações à justiça e começa perdendo carteira de motorista e outros documentos sem os quais a vida se torna um inferno. Se for estrangeiro, e reincidir, é deportado. Pois bem, a TV está repleta destas coisas. Parece que este estilo meio “Ratinho” de ser é coisa universal. Os americanos, tão comportados, quem diria, adoram jogar detritos no ventilador. Uso a palavra “detritos” em homenagem ao que é considerado politicamente correto nesta roça: há eufemismos para tudo, e se você não prestar atenção no que está “between the lines”, dança bonito o rock’n’roll local.
Mas, aí é que vem a contradição, essa característica humana que nem termômetros marcando 30 abaixo de zero conseguem dirimir. Pelo que vejo, o namoro na América é artigo de luxo. Tudo por baixo dos panos, literalmente. Ninguém diz se esta namorando ou não e qualquer alusão ao flerte pode ser considerada abusiva, e até ofensiva, dependendo do grupo social presente. Também há o tal harassement, o manjado assédio sexual, do qual todos sentem profundo medo. Um elogiozinho pode terminar no tribunal, segundo me disseram. Mas recuso-me a acreditar nisso. O ser humano não pode estar reduzido a uma série de convenções de etiqueta tão sem graça. Afinal, onde está aquele famoso “break the ice”, que aprendemos nos primeiros dias de Cultura Inglesa? E ainda existe o part pris do Clinton aprontando na Casa Branca, sem falar na cama, digo, fama, de Kennedy. Come on, boys and girls, vão soltar a franga, ou qualquer coisa que o valha, sem se preocupar tanto com o que pode ou não acontecer. Afinal, a vida é curta e o inverno rigoroso está aí mesmo – aproveitem a onda e mandem tudo para o inferno, sem esquecer de chamar alguém para lhes aquecer neste inverno, como Roberto falou. Será que ninguém aqui ouviu falar nos anos 60, bicho?
Continuo cutucando com vara curta estes preconceitos tão fora de moda quanto as roupas que as mulheres usam nos shoppings de Riverside. Os vestidos são muito floridos, cheio de cores desconexas, que beiram o mau gosto irreversível. Não, definitivamente, a elegância não chegou à maioria dos lares americanos. Ainda mais no inverno, quando as baixas temperaturas parecem justificar ainda mais a exposição descarada de casos terminais de confusão cromática. E, ainda por cima, bem por cima mesmo, há o terrível pó de arroz. Ah, rapaz, isso é desalentador... O rosto é todo coberto por uma grossa camada de algo equivalente a um pó branco que parece aquelas coberturas de glacê de pão doce. Os olhos são pintados com uma tinta preta que, vira e mexe, borra ao menor sinal de uma lágrima furtiva (sim, as americanas, assim como os brutos, também amam e, às vezes, choram quando um avião bate em algum prédio…). Os cabelos destas donas vivem escondidos embaixo de chapéus de gosto duvidoso, quando não estão espetados para cima, desafiando a lei da gravidade, em função de um creme muito popular por aqui, de nome difícil, mas cuja fórmula, certamente, estará publicado num dos próximos boletins da NASA.
Fico imaginando o trabalho que esse pessoal tem para sair de casa todo empastelado e para desfazer toda esta camada de cosméticos quando volta. Não é à toa que vivem com medo de guerra química. Eu também teria se tivesse que beijar estas mulheres todos os dias. Sim, porque não acredito que seus respectivos maridos e namorados esperem, para manifestar seu carinho ianque, a desmontagem deste aparato que torna essas mulheres discípulas de Helena Frankenstein mais do que da outrora famosa Rubinstein. Devem beijar assim mesmo, estes amantes aprendizes, sem imaginar como deve ser boa e suave a pele lavada, liberta desta armadura primitiva que uniformiza o sexo frágil nestas landas, fazendo de todas um arremedo de Monalisa, sem sorriso. Tento me acostumar, mas confesso que não consigo. Tenho sempre a impressão que estas mulheres são mesmo inatingíveis, que são como pinturas barrocas, perdidas no tempo e no espaço aéreo americano, mas com a expressão pétrea resultante de anos e anos de soterramento por este pó misterioso, o Césio 147 do condado de York. Isso deve afetar as células de todos os sexos, não há dúvidas. Receio que anos e anos de exposicão a estes produtos químicos levem qualquer um a se transformar no Michael Jackson, na melhor das hipóteses.
Concluo, então, que deve ser muito difícil mesmo encontrar a cara metade aqui, especialmente se a cara metade estiver coberta desta lama cosmética. No wonder que proliferem na TV tantos programas teen ensinando como namorar. Sim, namoro aqui é coisa que, supostamente, se ensina através destes reality shows débeis mentais, nos quais, por exemplo, tranca-se um punhado de bad boys numa casa, juntamente com outro punhado de garotas supostamente puras, abrem-se as portas, liga-se o conjunto de câmeras escondidas e deixa-se o pau comer, na falta de expressão melhor. Não é de admirar que as meninas queiram esconder o rosto pelo resto da vida.
Assim é um dia típico nesta village, que é como eles gostam de chamar a boa e velha Southampton. Mas não há como não notar as mulheres e suas maquiagens, a vida em torno da TV, as relações interpessoais, etc. No final do dia, todos pegam seus Subarus, Hyundays, Civics e Buicks e vão para casa com a consciência leve de terem feito o melhor para a sociedade americana, a grande mãe-terra que mantém seus filhos sob a abóbada protetora da star and stripes, provendo-lhes daquilo que é essencial à vida: donuts, pretzels, a bunch of dollars e, se sobrar tempo, um pouco de carinho.
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