sábado, 5 de maio de 2007

QUER DANÇAR COMIGO...?



Se você é também um daqueles que jurava que nunca, em tempo algum, teria coragem de disparar uma pergunta dessas na direção de alguma donzela linda, escandalosamente linda, sentada à mesa, com ar de tédio, esse texto é para você. Se tremias só em cogitar achar que ela, elazinha, toda boa, toda-toda, iria topar e dizer que sim, claro, pode vir quente que estou fervendo, aceito, vamos?, bem, continue na trilha dessas mal digitadas que é por aqui que mora o perigo, é por aqui que a onça vai beber água, é aqui que você vai achar um igual, aquele que só comprou o bilhete de ida no tour que a nave-mãe deu no universo apenas porque lhe faltavam no bolso do traje espacial mais uns poucos dólares estelares, e lhe sobravam, no oco do cocuruto, aquela tendência juvenil à aventura tresloucada.
Pois bem, lá está você, numa festa nem tão estranha, nem com gente nem tão esquisita assim, e toca uma música que dá um choque naquele exato neurônio que só funciona ao cheiro do xampu da mulher sentada ali, longas pernas cruzadas, mãos doces, bebericando coca-cola e chupando gelo, o corpo quase que passando um e-mail público: “Quero dançar! Quero dançar!”, em letras normais ou mesmo na onda modernosa do movimento dos sem vogais - “qr dnçr c vc” – ou coisa que o valha. Ela está ali e você faz o que seu avô já fazia quando soube que Santos Dumont havia voado, dias desses, numa estrovenga com asas, em Paris: tira uma reta, respira fundo, desliga o transponder e vai em frente, sem muito medo da colisão do seu sim com o provável, esperado e temido não dela, cheio de graça, mais, ainda assim, um não que vai ficar ecoando no imenso vazio que forma o pé direito de um cômodo vasto chamado coração (não se preocupe: você um dia ainda vai ter um!) A música já está no seu quarto ou quinto compasso, e ela está ali, sentada, mas com a cintura visível, as mãos brancas e bem cuidadas, uma aparente indiferença com o mundo que, sob o olhar mais atento do homem moderno, comprova que é mesmo ao redor da biologia feminina que se originam os arquétipos e que essa tal propalada masculinização da sociedade só se dá porque ela, essa moça suave, cuja voz quase não se ouve, não teve vontade de sair de casa e mostrar que não assim que a banda toca, meu chapa, ó mané! Acorda, vai! Ainda não se inventou uma palavra melhor para designar uma mulher linda do que a palavra “linda”! Assim ela o é, em sua total magnitude, uma coisa! Você, então, vai, e os olhos se encontram já na altura da segunda estrofe. Nem é preciso dizer nada – ela iça o braço com leveza, os dedos parecendo fazer riscos na areia fina da praia dos seus sonhos, e você recolhe aquela mão perfeita sem se importar que a sístole e a diástole estejam fazendo a dança das cadeiras no seu cansado músculo cardíaco. Ela sorri, abaixa os olhos, pousa a mão esquerda no seu ombro direito, vira o rosto em 47 graus, deixa que você pegue a mão direita dela como quem colhe a orquídea que pende do seu caule aéreo, e coloca a cintura de um jeito, mas de um jeito, que seu braço tosco e rude, ao contorná-la, aprende num instante a ser leve e delicado como um verdadeiro cavalheiro que, fora dali, fora da órbita mesmerizante dessa mulher, você nunca, mas nunca, há de ser. Há agora o movimento sincronizado das pernas fazendo giros no salão, pequenas hipérboles de sonho nas quais você não é mais você, seu corpo não é mais seu corpo, mas também o dela, transmutando-se, de fato, num corpo perfeito, como fica evidente na formação de uma sombra única e perfeita que se projeta na parede. Quando você se dá conta, há uma mulher se deixando conduzir entre outros pares, entre outras rotas, e seu silêncio é como se ela estivesse falando, ao seu ouvido tímido, inaudíveis e inconfessáveis pensamentos. Preste atenção no jeito como ela projeta a boca numa direção e os olhos na outra, o modo com que oferece seus segredos entre um passo e outro, a maneira com a qual se encaixa em você. Súbito, percebe-se que, à musica, sobrepõe-se outra linha melódica, marcada pelo ritmo cardíaco de quem já amou e conheceu a dor. As mãos, antes imobilizadas num aperto hesitante, passam a descobrir outros entrelaçamentos; os passos, que começaram um tanto desencontrados, harmonizam-se em movimentos miméticos. O espaço vital toma, enfim, ares convergentes. Experimenta-se uma sensação de completude, como se a vida fosse constituída de sete notas, um sorriso e um perfume suave de mulher, como no filme com Al Pacino.
Mas a música acaba, braços e pernas descolam-se, os passos distanciam-se, a voz inesperadamente essencial torna-se inaudível, e a mão gentílima, que antes enleava a cintura da linda mulher, súbito, abraça o nada.

06/10/22

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