domingo, 25 de novembro de 2007

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA


O título deste velho filme de Hollywood me chama a atenção entre tantos outros na estante da locadora e penso que, na época do seu lançamento, a felicidade não podia mesmo ser achada nas lojas ou nas farmácias, com o apelido de Prozac, Ixel ou similares, conforme anunciam, hoje, os cientistas.
Pesquisas indicam que nascemos felizes e que, com o passar do tempo, vamos nos infelicitando, mais e mais, especialmente durante a adultidade, até recuperarmos a felicidade na velhice quando, em geral, se a saúde ajudar, as pressões são mais leves, os filhos já estão criados e os netos aparecem como um sentido de renovação.
A felicidade não se compra, mas os antidepressivos sim, dirão os médicos. A depressão é considerada pela Organização Mundial da Saúde a quinta maior questão de saúde pública do mundo. Em 2020, prevê-se que ela estará no segundo lugar do ranking, depois das doenças cardíacas. Vamos às estatísticas então: estima-se que 20% dos pacientes demoram até cinco anos para procurar ajuda especializada e que mais de 15% das pessoas terão pelo menos um episódio de depressão ao longo da vida. Já se deprimiu? Não? Fique tranqüilo, ainda há tempo.
A palavra depressão entrou para o vocabulário cotidiano como sinônimo de tristeza e frustração. Mais do que uma simples licença semântica, esse fenômeno é a expressão mais clara da confusão que reina nessa área. Ficar triste e frustrado é parte incancelável da existência. O problema é quando os sentimentos negativos se tornam tão avassaladores que impedem o curso da vida.
Não obstante, a infelicidade, em suas inúmeras formas, possibilitou a felicidade de muita gente. Não fosse assim, não teríamos os grandes artistas atormentados que produziram – e ainda produzem - as maiores obras de arte da humanidade, com as quais nos deleitamos e distraímos a angústia. Foi o caso de Mozart, Michelangelo, Oscar Wilde, e tantos outros que não eram exatamente exemplos de vidas felizes.
Mas falamos da infelicidade a granel, essa maldita, associada à depressão, que assola milhões de pessoas em todo o mundo, movimentando cerca de 12 bilhões de dólares por ano. A infelicidade, por exemplo, da intelectualidade suburbana que não resiste às perguntas do Show do Milhão, pois, afinal, quem não quer ser um milionário? Dizem que dinheiro não traz felicidade, mas que ajuda a ser infeliz em Paris; e que ele, o mal eterno, o corruptor de honras através dos séculos, o vil metal, pode não comprar o amor verdadeiro, mas é capaz de adquirir imitações muito boas.
E tem a alta do dólar, todos os dias, todas as horas, como um fantasma verde que vacila entre o assustador e autoritário, mandando nas nossas vidas, nas nossas economias, nos nossos sonhos de consumo. Como não ficar deprimido? Como não se entristecer?
Como não se abalar com a fúria disfarçada em tecnicolor do Sr. Bush, aquele que está sempre na moita, esperando um árabe bigodudo qualquer ter alguma atitude estranha, para apertar o botãozinho vermelho que vai acender o ON no painel de lançamento de mísseis e bombas?
Vamos, poetas, escritores, pintores, músicos e toda essa gente estranha que faz da arte, ao mesmo tempo, um produto direto da angústia e um antídoto para a tristeza, essa infeliz, mãos à obra e desencalhem, desembuchem, pintem e bordem, façam barulho pondo a boca no trombone – afinal, o Prozac não é tão democrático assim, mas a serotonina está em falta em todos nós. Se preciso, cortem metaforicamente as orelhas e combatam com longos galhos de arruda todos os Salieris que a vida proporciona.
Temos tempo, não para sermos tristes e melancólicos, mas para por em prática a tal vida feliz que recebemos de presente anos atrás. Ainda temos tempo para os planos de uma existência em paz. Temos tempo para dormir, acordar, amar, viver. Tudo. Mais. Agora. Sei que é difícil, quase impossível, que os tempos humanos consigam tais ritmos – só o universo é exato, apesar de seus buracos negros e os homens são assim mesmo, desordenados e anárquicos.
A dolarização da vida nos leva a crer, muitas vezes, que a felicidade se compra mesmo, ali, cash, sem desconto, pois o produto é bom, meu senhor, e está em falta. Portanto, aproveite a oportunidade antes que o Mercado, esta entidade sensível aos rumores, mas insensível à humanidade, faça você perder a chance da sua vida. Wall Street e a Nasdaq passaram, há muito, a ter o controle de suas ações.
Houve uma época que Hollywood acreditava que a felicidade não se comprava. Ela era um presente, uma conquista de uma vida inteira que não podia ser trocada por moedas, mas sim descoberta, sem se tratar propriamente de um golpe de sorte, mas de um desvio intencional, volitivo, o que não elimina – e talvez até reforce – o estranhamento.

Um comentário:

  1. Muito bom esse seu blog. Parabéns!!! A sua sensibilidade me comoveu. Vou voltar, mas se vc quiser me avisar qd chegar coisas novas, vou adorar.

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