
Era um sonho. Entrou no apartamento e colocou as chaves na mesa de mármore da sala. O mesmo raio de sol, entrando de través pela janela, fez brilhar porcelanas, pratas, cristais. Sentiu-se, no entanto, como o próprio fantasma de uma lembrança e não uma pessoa viva, em carne e osso.
A solidão que então lhe pesava não era a solidão provisória que uma companhia costuma resolver. Era uma solidão irremediável; a única pessoa que poderia pôr-lhe um fim estava longe, muito longe. Assim, estava só, perguntando-se o tempo inteiro o que lhe convinha fazer, se expulsar definitivamente a lembrança ou entregar-se a ela, deixando-se cair lentamente naquele oceano de fatos, naquela voz, naquele rosto.
Tem início assim, para ele, um período difícil e ao mesmo tempo, de modo obscuro, intenso. A saudade da mulher se expressava numa série de comportamentos rituais, como deixar os sapatos na janela para arejarem, ao chegar a casa; dobrar cuidadosamente as roupas no armário; escrever cartas durante a madrugada. Estes atos cotidianos faziam-no ultrapassar a fase da contemplação fetichista e induziam-no a uma veleidade alucinatória: no silêncio, apurava os ouvidos como que esperando ouvir a voz da mulher falando na cozinha ou no quarto; ou, de noite, na hora de deitar-se, quase acreditava vê-la na cama, encostada aos travesseiros, lendo.
Sabe que continua a agir sem sentido. Espera uma aparição da mulher, uma epifania; torna-se refém de seu retorno. Espera que ela bata à porta, ou telefone à noite, dê um endereço qualquer e peça para que ele vá buscá-la. Imagina-a com um vestido azul, leve, como ela – o mesmo que usava quando se encontraram.
Finalmente, depois da idéia do retorno, começa a instalar-se nele a do reencontro. Embora não estejam perto, pensa vê-la na rua, dobrando uma esquina, entrando numa loja, pegando um táxi. Sente-lhe o perfume e, não raro, vira-se como um desses bonecos de marionetes, sem vida e sem voz, puxados grotescamente por um titereteiro inábil, achando que a ouviu dizer seu nome.
Incompreensíveis são os caminhos da saudade. A saudade quer apossar-se de nós a todo instante. E ela mesma é coisa instante. Aparece de repente, pelo cheiro, pela visão, pelo som que remetem à coisa amada. Para isso, reveste-se de todos os disfarces, representando ocasionalmente em nós papéis que se repetem por longas temporadas. Outras vezes, sua atuação é eletronicamente rápida e múltipla como um teatro de variedades: entre duas batidas do coração, a saudade entra lá dentro. E aí, toda a tessitura humana representa uma peça completa e se retira de cena, para retornar no intervalo de duas batidas, com uma novidade, um novo guarda-roupa, uma nova encenação, um novo argumento. A esse alucinante virtuosismo teatral da saudade devemos a perplexidade do conhecimento. Num único instante, simultaneamente, podemos ter a impressão de que agarramos afinal a realidade do mundo e que ela fugiu de nós para todo o sempre.
Lembrou que, um dia, alguém disse: a saudade passa. Passa como os rios passam; como passa o circo em tumulto num povoado de crianças, como passa o mergulhador nos corredores pesados do mar, como passa o tempo, a doida cantando, a vida. Lembrou-se e achou graça. Não, com ele a saudade não passava.
Chegou à janela e sentiu no rosto o ar da noite, transido de outras e distantes solidões, de todos os tipos, de todas as pessoas. Pensou que parecia haver um freio que não permite amar o que está ao alcance da mão. Por que esta dificuldade de amar o imediato?, perguntou a si mesmo. Estava vivendo na contramão da história e quando se encontrava com os equívocos do passado, ficava confuso e perplexo, perdido no meio de um nada.
Se estava ali, sozinho, sua única alternativa era tentar entender os motivos de ter sido esquecido e arcar com o prejuízo. Reconhecia que não era fácil assumir esta atitude, mas era a única que preservava algum resto de dignidade na sua obscura existência de sujeito excluído. Por um instante, percebeu que os projetos de amor, felicidade e plenitude são intangíveis e que por isso as pessoas preferiam buscá-los a encontrá-los.
O problema era sempre o mesmo: tempo para amar e viver este amor junto. É difícil, quando não impossível, que os tempos humanos consigam tais ritmos, só o universo é exato, os homens são desordenados e anárquicos. Há um grande vazio a ser preenchido na vida. Daí, os compositores saberem a importância do silêncio e os escritores não viverem das palavras que escrevem, mas dos espaços que as separam.
Pensou em Sartre, nauseado, descrevendo a concretude indiferente de uma árvore. Pensou ainda que não é por outra razão que os que amam precisam se separar para descobrir que se amam de verdade. A beleza, profunda, funda, doída da vida, talvez só pudesse ser apreciada de longe, no espaço e no tempo, como uma foto em preto-e-branco de Marc Ferraz.
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