
Entrou no banco. Despreocupadamente. Tudo aquilo que fazemos por obrigação, sem conseguir disfarçar o tédio era, para ele, uma tarefa prática: descontar cheques, conferir saldo, enfrentar fila, pagar contas, perder um tempo nunca ressarcido.
Calor. Banco cheio. Ar deficiente. Fila morosa. Relógio da parede quebrado. Funcionários mais lentos do que o costume. Mas ninguém parecia se importar muito. Um senhor de bengala, diante do gerente, pedia um empréstimo. Outro, óculos na ponta do nariz, examinava atentamente o extrato da conta , enquanto a mulher humilde, tecnofóbica, suava frio diante do terminal eletrônico.
Movimento na fila. “Vai ser rápido”, pensou, virando-se, por puro reflexo, para trás. Um choque. Perto da porta, ela o olhava. Não se viam há tempos – fato raro numa cidade tão pequena. Pressentiu: mais cedo ou mais tarde se encontrariam. Havia se preparado. Mesmo assim, a súbita visão o perturbou.
Discreto, cumprimentou- a. Sorriu sem jeito, fazer o quê?, ainda semi-paralisado. Alguém gritou:
- Olha a fila!
Dois passos a frente. Olhou o relógio parado marcando a hora daquele encontro sem tempo. Que fazer? Que dizer? Que sentir?
Virou-se novamente, avaliando a distância que os separava. Cinco, seis metros? Uma vida?
Achou-a ainda muito bonita. Reconheceu o gesto antigo quando a viu puxar os cabelos negros para trás. Por um instante, sentiu desmoronar anos e anos de indiferença planejada. Cartas e fotos antigas, sepultadas nas grandes gavetas de mogno, já estavam convenientemente esquecidas. Não havia mais encontros, telefonemas ou sustos. Tudo, ou quase tudo, se dissipara na bruma do tempo. Eles haviam mutuamente se transformado em lembranças pálidas, sem contorno ou cor.
De fato, numa outra época, eles haviam sido felizes. Talvez por causa da idade – eram jovens e aos jovens tudo se perdoa – tinham a ilusão de que acabavam de penetrar num mundo perfeito, sem sofrimento, sem dores. Lembrou da vezes que contemplavam o pôr do sol e de uma tarde em especial, quando ela falou, séria, olhando para ele: “Na presença da eternidade, mesmo as montanhas mais altas são mais transientes do que as nuvens.” Ele nunca entendera bem o que ela quisera dizer com isso, mas a frase passou a ser mais um detalhe embrincado no já extenso mosaico de memórias em que sua vida havia se transformado. Decidiu, então, que não havia mais o que fazer e que não adiantava procurá-la no grande labirinto que surgira à sua frente.
Então, de repente, ela. Viu-se atônito, num torvelinho de sentimentos desencontrados. Ali mesmo, num prosaico banco lotado e sufocante.
Um funcionário apareceu com uma escada. Abriu o vidro do relógio e cirurgicamente, mexeu nas suas engrenagens. Num instante, restabeleceu-se a hora oficial. Um ruído surdo e, quase imediatamente, o ar também voltou a funcionar.
A fila se movimentou nervosamente. Algumas pessoas acorreram ao balcão de informações e a porta giratória acusava alguém portando algum objeto de metal, enquanto o único caixa disponível contava, com ar entediado, um bolo de notas amassadas.
Olharam-se mais uma vez. Imóvel, ele esperava um movimento dela para prosseguir vivendo. Com as mãos, ela deu um nó suave nos cabelos e o fixou com um lápis. Como antigamente, ele pensou. Mas ela desistiu da fila como se, desiludida, também desistisse dele. Foi embora, sem um gesto de despedida ou atenção.
Surpreso, mais um vez, ele mal teve tempo de se dirigir ao caixa que, sem paciência, já o chamava batendo furiosamente com a uma caneta no vidro do balcão.
Calor. Banco cheio. Ar deficiente. Fila morosa. Relógio da parede quebrado. Funcionários mais lentos do que o costume. Mas ninguém parecia se importar muito. Um senhor de bengala, diante do gerente, pedia um empréstimo. Outro, óculos na ponta do nariz, examinava atentamente o extrato da conta , enquanto a mulher humilde, tecnofóbica, suava frio diante do terminal eletrônico.
Movimento na fila. “Vai ser rápido”, pensou, virando-se, por puro reflexo, para trás. Um choque. Perto da porta, ela o olhava. Não se viam há tempos – fato raro numa cidade tão pequena. Pressentiu: mais cedo ou mais tarde se encontrariam. Havia se preparado. Mesmo assim, a súbita visão o perturbou.
Discreto, cumprimentou- a. Sorriu sem jeito, fazer o quê?, ainda semi-paralisado. Alguém gritou:
- Olha a fila!
Dois passos a frente. Olhou o relógio parado marcando a hora daquele encontro sem tempo. Que fazer? Que dizer? Que sentir?
Virou-se novamente, avaliando a distância que os separava. Cinco, seis metros? Uma vida?
Achou-a ainda muito bonita. Reconheceu o gesto antigo quando a viu puxar os cabelos negros para trás. Por um instante, sentiu desmoronar anos e anos de indiferença planejada. Cartas e fotos antigas, sepultadas nas grandes gavetas de mogno, já estavam convenientemente esquecidas. Não havia mais encontros, telefonemas ou sustos. Tudo, ou quase tudo, se dissipara na bruma do tempo. Eles haviam mutuamente se transformado em lembranças pálidas, sem contorno ou cor.
De fato, numa outra época, eles haviam sido felizes. Talvez por causa da idade – eram jovens e aos jovens tudo se perdoa – tinham a ilusão de que acabavam de penetrar num mundo perfeito, sem sofrimento, sem dores. Lembrou da vezes que contemplavam o pôr do sol e de uma tarde em especial, quando ela falou, séria, olhando para ele: “Na presença da eternidade, mesmo as montanhas mais altas são mais transientes do que as nuvens.” Ele nunca entendera bem o que ela quisera dizer com isso, mas a frase passou a ser mais um detalhe embrincado no já extenso mosaico de memórias em que sua vida havia se transformado. Decidiu, então, que não havia mais o que fazer e que não adiantava procurá-la no grande labirinto que surgira à sua frente.
Então, de repente, ela. Viu-se atônito, num torvelinho de sentimentos desencontrados. Ali mesmo, num prosaico banco lotado e sufocante.
Um funcionário apareceu com uma escada. Abriu o vidro do relógio e cirurgicamente, mexeu nas suas engrenagens. Num instante, restabeleceu-se a hora oficial. Um ruído surdo e, quase imediatamente, o ar também voltou a funcionar.
A fila se movimentou nervosamente. Algumas pessoas acorreram ao balcão de informações e a porta giratória acusava alguém portando algum objeto de metal, enquanto o único caixa disponível contava, com ar entediado, um bolo de notas amassadas.
Olharam-se mais uma vez. Imóvel, ele esperava um movimento dela para prosseguir vivendo. Com as mãos, ela deu um nó suave nos cabelos e o fixou com um lápis. Como antigamente, ele pensou. Mas ela desistiu da fila como se, desiludida, também desistisse dele. Foi embora, sem um gesto de despedida ou atenção.
Surpreso, mais um vez, ele mal teve tempo de se dirigir ao caixa que, sem paciência, já o chamava batendo furiosamente com a uma caneta no vidro do balcão.
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