segunda-feira, 16 de julho de 2007

PANACÉIA



Ok, está certo! Pode cobrar a taxa de rolha que vou levar meu próprio vinho, me sentar diante da TV e deixar o Pan acontecer diante dos meus olhos. Pode deixar que sei que “entregar o travesseiro” tem a ver com pagamento de corruptos e que “gastos com a reforma da igreja” é propina mesmo. E ainda há mais um catadão de expressões criadas para fugir da escuta da PF. Ao contrário de muitas gírias, que podem passar de geração para geração, as criadas no calor do crime costumam ter vida curta, ao sabor da existência de uma quadrilha. Mas gosto de estar por dentro, saber das coisas. Sigo adiante. Se Lenny Kravitz gosta de afogar as mágoas no Rei do Bacalhau, em Duas Barras, e bater uma papo com Haroldo sobre cogumelos, fazer o quê? Vai, relaxa e goza, não esquenta. Vamos ao Pan e tentar acompanhar as emocionantes provas de esgrima ou os jogos de beisebol de tirar o fôlego. Gosto de televisão. Tenho várias, aliás. Ficarei com ela, madrugada adentro, num diálogo em tom azul. Essa é uma das maneiras de se enfrentar a solidão, juntamente com livros e o rádio, bem baixinho, na CBN, ouvindo o que o mundo tem a dizer, mesmo que seja sobre a novela da renúncia de um tal de renan em Brasília ou mais uma incursão do Caveirão ao Complexo do Alemão. Não quero saber de iPhone. Tenho o que me basta à alma. Vou testemunhar as vitórias certas da seleção de vôlei na solitária dimensão quadrada do meu quarto e lembrarei que já dei minhas cortadas no corredor e bloqueei muito troglodita que não via a beleza sutil de uma deixadinha inesperada. Aproveitarei os interregnos das competições para rever Cartas de Iwo Jima, obra memorável do mestre Clint, e me emocionar, mais uma vez com Ken Watanabe caminhando pela praia silenciosa, mas sem prenúncio de paz. São duas semanas daquilo a que chamam férias, e tenho que acabar a Modernidade Líquida de Bauman; preciso ver aquele pôr-do-sol na praia; é imperioso que escreva mais, em qualidade e quantidade. Seria um exagero palmar pretender ler tudo o que ficou para depois, mas farei força e isso certamente me levará a reencontrar por alguns momentos a sintonia perdida com esse mundo barbárico e sem sentido. Sempre foi assim – a gente é que insiste no contrário, na estrada de tijolos amarelos, se é que você me entende. Assim como no Planeta Bizarro do Super-Homem, onde todos os conceitos foram virados pelo avesso, o amor pode dar certo. Esperemos. Torçamos. O estar-sozinho-no-mundo deve ter ramificações ainda inexploradas. Por isso, suspeito, criamos o lócus amorável encimado pelo the end antes de rolarem os créditos finais. Deve existir. Onde? Deve ser acessível. Quando? Deve ter um perfume que inebria. Quem? Tudo bem que a globalização, a informatização, a individualização, customização, a clusterização, e tudo mais que o sufixo sopre nos neurônios, diluem a potencialidade dos encontros verdadeiros, mas fazemos bem em resistir. No lugar mais alto do pódio, estará aquele que transpuser barreiras externas e vencer os limites da própria existência. Medalha, medalha, medalha... diria Mutley com aquele risinho irônico. Queremos ganhar a prova, ser livres, não? Como pegar o trem para a liberdade? Como entender que as pessoas podem simplesmente não querer ser livres e rejeitar a perspectiva da libertação pelas dificuldades que o exercício da liberdade pode acarretar? Volto à TV. Já é tarde, ou cedo (olha o Planeta Bizarro aí gente!), e pego um filme da Mia Zottoli num desses canais a cabo. Linda. É uma cena no mar – ela está deitada, e nas mansas ondas de calor que a areia emana, como se cada uma despisse sua pele, desfazem-se os limites. Nada é fixo, nem há quinas no vento. A imensidão murmura, movendo lentamente sua carne roliça. É o remédio para todos os males (ou males, em inglês, não é Callahan?).

07/07/16

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