quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

SEM CERTEZAS


Não tenho a intenção de usar o chamado marketing de guerrilha, mas é de uma clareza palmar que alguma coisa impactante vai acontecer com essas pessoas que só falam “com certeza” para tudo, e é meu dever (não?) registrar tal risco aqui no meu quadrado virtual. Cada vez mais tenho menos certeza de tudo. “De omnibus dubitandum est”, já falava René Descartes, muito antes de São Tomé que, mesmo assim, andou dançando em um sem número de ocasiões - é só dar um reboot na memória RAM que ainda lhe resta. O mundo, tal como o conhecemos (será?), vem mudando celeremente há, pelo menos, três lustros, e para acompanhar tal transformação, milhares de livros e artigos já foram publicados. Redimensionou-se a noção (antiga) de tempo. O tempo de hoje não é mais o tempo de antigamente, assim como também era diferente entre as cidades e os povoados do interior. O exaflood da internet é inevitável, assim como também é a constatação de que não temos como absorver tamanho volume de informações. Pior: corremos o risco de perder aquela mínima – mas valiosíssima - capacidade de usufruir das poucas fontes de que dispúnhamos num tempo nem tão distante assim. Quem lembra? Eram só alguns canais de TV, com imagem precária e chuviscos fantasmagóricos que a HDTV há de enterrar de vez. E essas opções restritíssimas me fizeram ter uma infância para lá de rica, se comparada com o torvelinho de canais a cabo, internet e tudo mais que hoje é tão comum, mas pouco utilizado de maneira eficaz. Parece que é só abrir um buraco no chão asfaltado da jungle moderna para que uma onda de informações jorre como o petróleo por entre as mãos de James Dean, em Assim Caminha a Humanidade. Assim como não vejo sentido na expressão “ter uma vida pela frente” (por onde mais?), percebo toda uma dialética acessível no que um educador americano chamado Marc Prensky chamou de “imigrantes e nativos digitais”. Pois bem, são esses nativos que não se surpreendem com a imensidão da internet. Sabem que a rede é quase infinita e, por isso, não abrem o espectro mais que do que precisam. Tudo muito condizente com o modus operandi da pós-modernidade: rapidez, velocidade, análise instantânea das opções. “More, more, more...”, diria o Andrea True Connection, num LP rodando numa vitrola de museu. Mas, devagar com o andor, pega leve, puxe o freio de mão, segure a onda, baixe a bola. E a reflexão que fez Vinicius esculpir alguns dos mais lindos poemas em língua portuguesa? Reflexão demanda tempo. Divagar é parecido com devagar. É preciso deixar-se encharcar mais no banho-maria do mundo virtual. Mesmo assim, a multiplicidade das fontes não consegue fugir a certa padronização redutora incapaz de ir muito além da primeira página do Google. Ou seja, há mais democracia na informação, mas isso não implica necessariamente em mais riqueza no conteúdo e na forma. Portanto, mudemos o eixo cognitivo. Não mais morrer de sede diante do rio. Não mais CPMF, não mais spinplasmônica em papos nerds na rede, não mais idelis e renans, não mais Xuxa na TV, ou em qualquer lugar (Deus é grande!). Ainda se vai ao longe, devagar, divagando. Sem mais certezas, apenas dúvidas charmosas sobre qual o melhor filme de Visconti, se devemos temer a nanotecnologia ou se uma metáfora pode mesmo explicar aquele sonho que nunca morreu dentro de você.

071213

2 comentários:

  1. Muito interessante MIranda

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  2. Agora li "devagar" e aplaudo calorosamente. Xuxa é um bom exemplo de nossa civilização televisiva : loura, repetitiva, sexo para manobrar, exploração de crianças, ossuda, mãe por modismo etc. Se o inventor da TV estivesse vivo, certamente se auto-suicidaria ...

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